Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro diz que capitão do Exército modernizou o jogo do bicho e produziu uma máfia tropical

Poderosos chefões da jogatina apoiaram a repressão da ditadura civil-militar e criaram um exército com integrantes das Forças Armadas e da polícia. O capitão do Exército Ailton Guimarães Jorge ampliou os negócios da máfia patropi. Os coronéis Paulo Malhães e Freddie Perdigão foram generais dos capos

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Livro de jornalistas de “O Globo” mostra que a máfia tropical, a partir do jogo do bicho, é tão ou mais violenta que a máfia italiana, a da realidade e a do filme “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola

Os banqueiros do jogo do bicho podem ser nominados como uma espécie de máfia tropical, mas talvez sem o glamour da história contada por Mario Puzo, na literatura, e Francis Ford Coppola, no cinema, com “O Poderoso Chefão”. O livro “Os Porões da Contravenção — Jogo do Bicho e Ditadura Militar: A História da Aliança Que Profis­sio­nalizou o Cri­me Organizado” (Re­cord, 264 páginas), dos jornalistas Aloy Jupiara e Chi­co Otavio, de “O Globo”, é im­pressionante, mas não é para leitores de estômago fraco. Não há romantismo algum — o que há é um ne­gócio azeitado (inclusive de drogas) e de uma brutalidade ímpar. Seus métodos organizacionais mo­dernos se devem a Ailton Guimarães Jorge, um capitão do Exército que se tornou capo. Entre seus jagunços estão — ou estiveram — policiais civis e militares, como o coronéis Paulo Malhães e Freddie Perdigão Pereira. Os dois oficiais eram brutais e articularam a Casa da Morte, em Petrópolis, na qual integrantes da esquerda foram assassinados, esquartejados e os pedaços dos corpos foram queimados numa usina de álcool, revela o delegado de polícia Cláudio Guerra no livro “Me­mó­rias de uma Guerra Suja” (Top­books, 291 páginas) — depoimento aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Me­deiros. Máfia, portanto, nós temos. O que falta, mais do que um Mario Puzo, é um Francis Ford Coppola.

Gangrena nos quartéis

Aloy Jupiara e Chico Otavio começam sua história com o capitão Ailton Guimarães Jorge. Com a Abertura iniciada pelo presidente Ernesto Geisel e concluída pelo presidente João Figueiredo, os militares da linha dura começaram a se sentir abandonados e, sobretudo, sem função. Entre eles o Capitão Guimarães, que, pressionado no Exército, por ter cometido irregularidades, decidiu se tornar bicheiro, com o apoio de um dos chefes da contravenção — Antônio Maria Longa, o Tio Patinhas.

Tio Patinhas abriu espaço para o Capitão Guimarães na contravenção porque “uma quadrilha de agentes da ditadura”, que extorquia contrabandistas ligados ao jogo do bicho, era liderada exatamente pelo ex-militar. A aliança começou em 1979. O problema é que alguns bicheiros não entenderam que o ex-oficial do Exército não estava chegando para ser mais um. Queria ser capo e logo se tornou um dos mais importantes. A primeira vítima foi o sócio Agostinho Lopes da Silva Filho, o Guto, rapidamente assassinado.

Antes de se tornar bicheiro, o Capitão Guimarães atuou firmemente na repressão às esquerdas — arrancando elogios, por exemplo, de Costa e Silva, o ministro da Guerra do governo de Castello Branco. Em 1968, já capitão, atuou ao lado do major Ênio de Albuquerque Lacerda, do capitão José de Ribamar Zamith e do cabo Marco Antônio Povoleri, um gigante brutal. Em 1969, o estudante Eremias Delizoi­cov, de 18 anos, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), feriu o Capitão Guimarães e Povoleri. O guerrilheiro foi morto pelo Capitão Guimarães, que ganhou a Medalha do Pacificador com Palma.

De volta às ruas, na caçada aos guerrilheiros, buscou parceiros entre os “homens de ouro” da Polícia Civil, como Euclides Nascimento, fundador e primeiro presidente da Scuderie Le Cocq. “O policial abriu o alçapão do submundo do crime para Guimarães e sua tropa passarem. A gangrena avançava pelos quartéis”, frisam os autores do livro. Ao mesmo tempo em que combatiam as organizações da guerrilha da esquerda, como ALN e a VPR, Guimarães e outros militares extorquiam contrabandistas (alguns da Polícia Militar) de uísque, perfumes e roupas. Descoberto, o capitão acabou preso e afastado do Exército em 1976. Quando ainda usava farda, ajudou o policial Mariel Maryscotte de Mattos a fugir do Instituto Penal Cândido Mendes. O Ringo de Copacabana era acusado de corrupção e assassinatos. Fora do Exército, Guimarães se “reinventa”. Mais tarde, o capitão-bicheiro teria ordenado o assassinato de Mariel Maryscotte, porque se tornara incontrolável.

Anísio Abraão

Entretanto, como o Capitão Guimarães não inventou o jogo do bicho, Aloy Jupiara e Chico Otávio examinam, no segundo capítulo, Aniz Abraão David, o Anísio.
Anísio Abraão e sua família se tornaram chefões do jogo do bicho na Baixada Fluminense e campeões do carnaval carioca em meados da década de 1970. Em 1964, espécie de primeiro-ministro da ditadura civil-militar, o general Costa e Silva vociferou para o comandante da 1ª Companhia Independente da Polícia do Exército, o capitão José de Ribamar Zamith: “Eu quero a Baixada de cócoras”.

As famílias Sessim e Abraão David, antes de ficarem de cócoras, aliaram-se aos militares e aos políticos que os apoiavam. O médico Jorge Sessim David era deputado estadual pela UDN e apoiou o golpe com fervor. “É apontado por fontes militares como delator e articulador de cassações.” Ao lado do jornalista Amaral Neto, era frequentador da Vila Militar. O parlamentar aparece em fotos ao lado do presidente João Figueiredo.

Apesar da brava ordem de Costa e Silva, os bicheiros não ficaram de cócoras nenhum minuto — exceto num curto período, o da edição do AI-5, quando contraventores foram presos. Anísio e o irmão Nelson Abraão David “se aproveitaram de ligações com policiais e agentes do regime para virarem os todo-poderosos donos das bancas em Nilópolis e adjacências, esmagando qualquer concorrência. (…) A concentração do jogo nas mãos de uma única família, apoiada na proteção política, de policiais e militares amigos, explica por que Anísio ficaria relativamente a salvo, podendo agir e ampliar seus negócios”.

Paulo Malhães: o coronel que se tornou general do jogo do bicho; Luiz Cláudio, torturador da Casa da Morte, protegia um bicheiro; Freddie Perdigão: coronel do Exército e aliado dos bicheiros

Paulo Malhães: o coronel que se tornou general do jogo do bicho; Luiz Cláudio, torturador da Casa da Morte, protegia um bicheiro; Freddie Perdigão: coronel do Exército e aliado dos bicheiros

Para se manter no topo, “Anísio se apoiou na truculência e nos abusos de amigos: militares e policiais que atuavam na perseguição e tortura a presos políticos, e que, aos poucos, migrariam para os subterrâneos da contravenção”.

O policial Civil Luiz Cláudio de A­zeredo Vianna era o Doutor Luizinho no jogo do bicho e, na Casa da Morte, em Petrópolis, era o torturador Laurindo. Ele torturou, entre outros, a guerrilheira Inês Etienne Romeu, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Por sua “eficiência” no combate a guerrilha, ganhou elogios até do general Milton Tavares de Souza, do CIE. Os militares sabiam que era um agente duplo — dos militares combatentes da esquerda e do jogo do bicho —, mas faziam vistas grossas. Mais tarde, tornou-se venerável da Loja Maçônica União Iguassú.

Luiz Cláudio-Laurindo era apenas um integrante das tropas da repressão que atuaram como apoio aos capi do jogo do bicho. O coronel Paulo Malhães — que combatia a esquerda com o codinome Pablo (elogiadíssimo pelo general Milton Tavares de Souza, cérebro da repressão aos guerrilheiros) — era integrante da tropa do bicheiro Anísio. Em 1969, “caçando” o ex-marinheiro Roberto Emílio Manes, Malhães, ao entrar de maneira triunfal na Baixada Fluminense, recrutou Luiz Cláudio para o CIE e, em seguida, o levou para a Casa da Morte. Entre as décadas de 1970 e 1980, com o regime civil-militar estertorando, “Laurindo” levou Malhães aos bicheiros. “Ao se incorporar aos subterrâneos da jogatina”, Malhães “teve assento garantido na estrutura mafiosa articulada por Anísio na Baixada”.

Malhães se tornou um expert dos bicheiros. “Por influência de A­nísio, o coronel passaria a chefiar a segurança de empresas de ônibus de Nilópolis, como a Nossa Senhora Aparecida e a Expresso Nossa Senhora da Glória. Para ajudar na tarefa, Malhães convocou amigos dos tempos da tortura. Entre eles, Antônio Waneir Pinheiro Lima”, o Camarão, torturador da Casa da Morte. Cama­rão, que estuprou Inês Etienne Romeu na casa de Petrópolis, foi segurança de Anísio.

“Eleito” presidente, João Figueiredo ouve discurso de Jorge David, primo do bicheiro Anísio Abraão David

“Eleito” presidente, João Figueiredo ouve discurso de Jorge David, primo do bicheiro Anísio Abraão David

O subtenente da reserva do Exército Ariedisse Barbosa Torres, que teria participado da tortura, assassinato e ocultação do corpo do ex-deputado Rubens Paiva, trabalhou na escola de samba Beija-Flor e como segurança de Anísio. O tenente Torres recrutou para o jogo do bicho o capitão Ronald José Motta Baptista Leão, o Doutor Léo do DOI, também envolvido na morte do pai do escritor Marcelo Rubens Paiva.
O inspetor de polícia Joel Ferreira Crespo, participante da repressão política à esquerda, também se tornou integrante da “quadrilha de Anísio”. Ele era ligado ao Capitão Guimarães e ao coronel Paulo Malhães.

Em 1975, os irmãos Nelson e Anísio tinham dinheiro e poder, se sentiam protegidos pela ditadura, mas queriam mais do que isto: reconhecimento social. Por isso decidiram investir na escola de samba Beija-Flor. Anísio contratou o carnavalesco Joãosinho Trinta, Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla (ex-diretor de carnaval da Salgueiro), e o figurinista Viriato Ferreira. Em 1976, homenageando um bicheiro, Natal da Portela, a Beija-Flor sagrou-se campeã do carnaval carioca. Ao se tornar a escola de samba da moda, atraiu artistas e políticos. “Até os dois filhos do general João Baptista de Oliveira Figuei­redo, Paulo Renato de Oliveira Figueiredo, o Paulinho, e Johnny Figueiredo, passaram a torcer e até desfilaram pela escola.”

O bicheiro Anísio, o rei da ilegalidade, se tornou mais “legal” com o sucesso da Beija-Flor e ganhou certo glamour.

Castor de Andrade

Do Capitão Guimarães (quase um Michael Corleone) e de Anísio, os jornalistas passam ao exame da trajetória do bicheiro Castor de Andrade, talvez o mais emblemático e, às vezes, sutil — uma espécie de Vito Corleone, tão dissimulado quanto. Dirigiu o time do Bangu com mão de ferro, intimidando técnicos, jogadores e, sobretudo, árbitros. Era amigo de João Havelange, chegou a chefiar a delegação da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) à Taça Rio Branco, no Uruguai, em 1967, e ameaçou João Saldanha. Com Carlos Imperial, compôs a música “A ilha”.

Nas ruas de Bangu, era conhecido como bicheiro — o chefão. Com o AI-5, Castor de Andrade e outros bicheiros foram presos na Ilha Grande. Em seguida, acusado de contrabando, foi detido pelo Cenimar. Liberado, permaneceu no comando da jogatina e do contrabando. O tráfico de drogas tinha o seu dedo. Segundo os autores do livro, aqueles que contrariavam seus interesses eram mortos.

De olho na proteção policial, Castor de Andrade recrutou para o bicho o delegado Mauro Magalhães (aliado dos militares da Casa da Morte) e o detetive Fernando Próspero Gargaglione de Pinho, que participaram da repressão política à esquerda. Luiz Cláudio de Azeredo Vianna, o torturador da Casa da Morte, era o braço direito de Magalhães na delegacia de Petrópolis. Um documento relata que “Magalhães enviou para o Exército uma suposta carteira de identidade falsa, que alegava pertencer ao advogado goiano Paulo de Tarso Celestino. Paulo, dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN), desaparecera em julho” de 1971. O jovem teria sido morto na Casa de Petrópolis, segundo Inês Etienne Romeu. Fernando Gargaglione “apoiou centros de repressão na ocultação de corpos e assistiu a tortura de presos políticos”. O coronel Paulo Malhães, que era ligado ao tenente Armando Avólio Filho, do Pelotão de Investigações Criminais (PIC) da Polícia do Exército, era um dos operadores da repressão.
Espécie de mecenas do crime, como Vito Corleone, Castor de Andrade distribuía dinheiro para alguns setores da sociedade. A Associação Brasileira Interdisci­plinar da Aids (Abia), dirigida por Herbert de Souza, o Betinho, recebeu 40 mil dólares do bicheiro. Descoberto, o irmão do cartunista Henfil primeiro negou e, depois, admitiu que havia recebido o dinheiro. A ação teria sido intermediada por Nilo Batista, então governador do Rio de Janeiro.

Assim como Anísio tentou “limpar” sua imagem investindo dinheiro na Beija-Flor, Castor de Andrade decidiu patrocinar a Mocidade Independente de Padre Miguel, depois de 1973. Os bicheiros “queriam ser aceitos pela sociedade, recebidos por personalidades e respeitados como empresários e boa gente. Escolheram as escolas de samba, cujo desfile apaixonava mais a classe média e atraía turistas internacionais, para ajudá-los a varrer para baixo do tapete a podridão da corrupção e dos crimes que cometiam”.

A máfia italiana, por intermédio do capo Antonino Salamone, aproximou-se de Castor de Andrade, na década de 1960. “Para proteger Salamone, Castor o empregou na Tecelagem Bangu. Pura fachada. O mafioso se estabeleceu em São Paulo”, escrevem os jornalistas. O juiz Wálter Maierovitch contou aos autores do livro que Castor de Andrade ajudou o mafioso italiano a conseguir cidadania brasileira. “Salamone saberia reconhecer o apoio recebido. Ele foi um dos elos de Castor com a máfia, quando, já nos anos 1980, as máquinas de jogo de azar chegaram e se espalharam pelo país.”

A tropa do capitão

Expostos Anísio Abraão e Castor de Andrade, Aloy Jupiara e Chico Otavio voltam ao Capitão Guimarães. Os jornalistas registram a escalada do ex-oficial rumo ao topo do jogo do bicho, tendo como capanga sênior o ex-cabo Marco Antônio Povoleri.

Apontado como “corajoso” e “violento”, o Capitão Guimarães conquistou a cúpula do jogo do bicho. “Por ser oficial de Inten­dência e conhecer de administração, logística e contabilidade, Guimarães enchera os olhos dos velhos. Até então imperavam a desorganização e o improviso. A divisão territorial era feita na base do ‘daqui para lá, é meu; daqui para cá, seu’. Desavenças eram resolvidas a bala. Com a chegada de Guimarães, o jogo adotaria procedimentos empresariais e se informatizaria.”

Embora fosse mais moderno do que outros bicheiros, o Capitão Guimarães era arcaico na maneira de conquistar espaço. O coronel Malhães contou à Comissão Estadual da Verdade do Rio, em 2014, que o ex-oficial do Exército “‘saiu matando’ para consolidar-se em Niterói como o novo capo da contravenção”.

Em 1981, uma bomba explodiu e matou o sargento Guilherme Pereira do Rosário, do DOI, e feriu o capitão Wilson Luiz Alves Machado, no estacionamento do Riocentro, no Rio de Janeiro.

Os militares pretendiam cometer um atentado terrorista, articulado pela linha dura do Exército, notadamente pelo coronel Freddie Perdigão Pereira (1936-1996). O jogo do bicho — arranjando explosivos — tinha um dedo na história.

Perdigão, um dos responsáveis pela Casa da Morte de Petrópolis e um militar violento, mantinha relações com a contravenção, vendendo-lhe proteção, “desde os anos 1970”. Com o Riocentro reduziu a pó sua força no governo de João Figueiredo, Perdigão integrou-se à tropa do Capitão Guimarães. Ele “daria apoio armado para o bicho firmar-se como a mais bem estruturada organização criminosa da história do país”, revelam Aloy Jupiara e Chico Otavio. “Em de­poimento à Comissão Nacional da Verdade”, o delegado Cláudio Guerra “envolveu” Freddie Perdigão “em um esquema de apoio financeiro do jogo do bicho à repressão política, entre 1973 e 1980, no Espírito Santo. A propina era paga pelos bicheiros, na presença de Perdigão, no gabinete de um procurador da República, espécie de ‘subseção do SNI’ no Estado.”

A partir de 1987, Freddie Perdigão, além da proteção, passou a se envolver diretamente com o jogo do bicho, ao lado do Capitão Guimarães, que havia assumido a presidência da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa). “A Liga fora criada com um objetivo claro: privatizar o carnaval carioca e deixar na mão dos bicheiros das principais escolas a ‘gestão’ da maior parte dos recursos oriundos da venda de ingressos e dos direitos de transmissão de imagem e publicidade, esvaziando o poder público e enfraquecendo as pequenas agremiações”, reportam Aloy Jupiara e Chico Otavio. Com o apoio financeiro e logístico do Capitão Guimarães, o coronel montou uma loja para fornecer produtos de carnaval para as escolas de samba e assumiu a chefia da segurança de empresas de ônibus ligadas aos bicheiros da Baixada Fluminense.

Bancado pelo Capitão Gui­ma­rães, Freddie Perdigão chegou a abrir “uma mesa de jogos de azar em Cabo frio”. Segundo Cláudio Guerra, “a esta altura, o coronel já respondia pelo comando de toda a tropa de guarda-costas da cúpula da contravenção”. O coronel se tornou empresário legal com o Minimercado Cam­pestre, a Montper Importação e Exportação e a Acelera na Curva Veículos. “Juntara-se ao português João Monteiro para importar o xampu Pantene.”

Uma desavença financeira com o bicheiro Anísio Abraão provocou o afastamento entre Freddie Perdigão e o Capitão Guimarães. Este ficou com o chefão do bicho e abandonou o ex-chefe no sistema militar. Havia trocado de exército, agora era um general da máfia da jogatina.

Alexandre Baumgarten
Castor de Andrade: o bicheiro mandava matar com facilidade; Anísio Abraão: o bicheiro usou carnaval para “limpar” a jogatina; Capitão Guimarães: o militar que modernizou o jogo e criou máfia

Castor de Andrade: o bicheiro mandava matar com facilidade; Anísio Abraão: o bicheiro usou carnaval para “limpar” a jogatina; Capitão Guimarães: o militar que modernizou o jogo e criou máfia

Em outubro de 1982, ainda na ditadura civil-militar, mataram o jornalista Alexandre von Baumgarten, dono da revista “O Cruzeiro”, e sua mulher, Jeanette Hansen. Tudo indica que militares do Serviço Nacional de Informações (SNI), por intermédio da Operação Dragão, mataram o empresário, que, em crise financeira, estava extorquindo seus antigos aliados. O coronel Dickson Grael relatou que “a operação fora executada pelos coronéis Ari [Pereira de Carvalho], Aguiar [Ari de Aguiar Freire] e Manhães (provavelmente referindo-se a Paulo Malhães), pelo Capitão Guimarães e pelo sargento Roberto Fábio, um agente do SNI em Brasília encarregado da execução”. Aloy Jupiara e Chico Otavio sublinham que, “se Grael estivesse certo, viria pela primeira vez à tona a violenta parceira entre a repressão militar, dos coronéis Aguiar e Malhães, e o jogo do bicho de Capitão Guimarães”.

O filme “O Poderoso Che­fão” mostra que não existe uma máfia, e sim máfias que brigam entre si por “pedaços” do mercado — jogos, drogas, contrabando de armas e, também, negócios legais (construção civil, imobiliárias, esquemas de lavagem de dinheiro). Quando Mike Corleone pretende limpar os negócios, para garantir a sobrevivência da família nuclear — os dois filhos, um homem e uma mulher —, outros mafiosos tentam participar e, quando percebem que estão sendo alijados, articulam para matá-lo. No jogo do bicho, uma máfia cruenta, não é muito diferente. Bicheiros matam bicheiros e seus agentes. Anísio Abraão teria mandado matar sua ex-mulher, Eliana Santos Müller de Campos, e seu parceiro, Hercílio Cabral Ferreira.

O jogo do bicho é apenas um dos negócios dos bicheiros. O SNI registrou que o Capitão Guimarães envolveu-se “com o contrabando de armas e traficantes de drogas do Morro dos Macacos”. Castor de Andrade chegou a ser sócio de Ozório Paes Lopes da Costa — sogro de Johnny Figueiredo, filho do presidente João Figueiredo — na Metalúrgica Castor. “Uma operação arquitetada pelo SNI e apadrinhada pelo governo obrigou o Grupo Coroa-Brastel a adquiri-la antes que fechasse definitivamente as portas”. Castor de Andrade chegou a ir ao casamento de Johnny Figueiredo.

Quando a ditadura acabou, os bicheiros, que haviam apoiado a repressão, se tornaram democratas. “A contravenção tem um princípio. Ela é governo e não tem culpa que o governo mude a toda hora”, disse Castor de Andrade, num realismo que, de tão ímpar, faria Mike Corleone corar.

Entretanto, se compuseram com os democratas, os bicheiros não abandonaram os agentes da repressão. Luiz Cláudio de Azeredo Vianna, o coronel Fred­die Perdigão Pereira (o único que brigou com os bicheiros, porque tinha um temperamento incontrolável), Marco Antônio Povoleri continuaram prestigiados. O Capitão Guimarães se tornou um capo, moderno e, ao mesmo tempo, violento.

Sobre Leonel Brizola, que governou o Rio de Janeiro, o Capitão Guimarães disse: “Brizola deu a maior tranquilidade de todos os tempos ao jogo do bicho e nunca nos pediu dinheiro por isso”. Os bicheiros apoiaram o antropólogo e escritor Darcy Ribeiro, do PDT brizolista, para governador. Darcy Ribeiro participou de reuniões com bicheiros, visivelmente incomodado.
O Estado nem sempre tratou os bicheiros com luvas de pelica. A juíza Denise Frossard condenou a cúpula do jogo do bicho a seis anos de prisão por formação de quadrilha armada.

A Justiça acatou a tese do Ministério Público de que a máfia carioca, espraiada por São Paulo e Espírito Santo, era “uma organização criminosa, que agia de forma estruturada e contínua”. Mais de 60 policiais foram punidos por envolvimento com a jogatina. O Ministério Público descobriu que o jogo do bicho tinha até um Tribunal de Justiça — o Clube Barão de Drummond —, que julgava, condenava e, quando “necessário”, executava pessoas. Produzia-se até documentos-processos. Segundo os promotores, ao menos 53 pessoas foram assassinadas por pistoleiros bancados pela contravenção. Porém, mesmo com chefões na cadeia, o sistema continuou funcionando — dada sua organização eficiente, compartimentada e moderna.

Em 2012, devido à Operação Furacão, o Capitão Guimarães, Anisio Abrão e Turcão foram presos e condenados. O caso SwissLeaks mostrou que o Capitão Guimarães tem ou tinha dinheiro no HSBC da Suíça. “A estrutura montada pelos bicheiros com a colaboração de agentes do aparato militar pós-64 está de pé e mais forte”, afiançam Aloy Jupiara e Chico Otavio. “O negócio mudou e tem hoje atividades diversificadas, para além das bancas do bicho.

Mas a organização da cúpula, com sua hierarquia, controle de territórios e engrenagens de corrupção, segue intacta, herança da aliança forjada com o desmonte do aparelho repressivo”, assinalam os jornalistas.

O material básico para o filme “O Poderoso Chefão dos Tró­picos” é o livro da dupla Aloy Jupiara e Chico Otavio. Falta apenas um diretor de cinema atento, como, quem sabe, José Padilha ou Martin Scorsese.

Em tempo: não há nenhuma linha sobre a ação do jogo do bicho em Goiás.

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