Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro de Svetlana Aleksiévitch revela o inferno de Tchernóbil narrado pelas vítimas

A jornalista e escritora da Bielorrússia recebeu o Prêmio Nobel de Literatura porque escreveu uma obra devastadora, ancorada em depoimentos de pessoas comuns, sobre o sofrimento provocado pelo acidente nuclear

digitalizar0001Quando Svetlana Alek­siévitch, de 68 anos, nascida na Ucrânia mas radicada na Bielor­rússia, ganhou o Prê­mio Nobel de Literatura de 2015, disputando com pesos pesados como Philip Roth e Joyce Carol Oates, pensei: “A Academia Sueca está fazendo uma concessão ao populismo e ao feminismo”. Não conhecia a obra da jornalista e escritora, por vezes apontada como uma espécie de Alexander Soljenítsin de saia. Consegui um exemplar de “O Fim do Homem Soviético — Um Tempo de Desencanto” (Porto Editora, 469 páginas, tradução de António Pescada), editado em Portugal, e “Vozes de Tchernóbil — A História Oral do Desastre Nuclear” (Companhia das Letras, 383 páginas, tradução de Sonia Branco). Lidas as duas obras, há de se concluir que os suecos acertaram ao dar-lhe o prêmio. São excelentes, um passeio elástico e muito bem feito pelo jornalismo, pela literatura, pela história, pela antropologia e… pela vida. Um cadinho de vários ramos do conhecimento.

O texto, de precisão milimétrica, é de Svetlana Aleksiévitch, dotada de uma escuta poderosa — às vezes, numa crueza que sugere naturalidade, lembra William Faulkner, que tinha um ouvido atento para perceber nuances das vozes malditas (originárias da escravidão) e sem redenção do Sul dos Estados Unidos —, mas as vozes são das personagens, que, embora não sejam inventadas, se fossem, ninguém desconfiaria. A realidade por vezes é mais ficcional do que a ficção. Mesmo críticos exigentes e rigorosos por certo emocionam-se com as histórias relatadas pelas pessoas que a autora entrevistou com rara felicidade, deixando-as falar aquilo que não parece relevante, talvez não seja para muita gente, como as autoridades, mas era e é muito importante para elas.

O objetivo de Svetlana Aleksiévitch, embora não seja literário — as frases são bem construídas, mas de maneira a que não se perca a naturalidade e a beleza do oral —, não é necessariamente comover, chocar ou provocar dor e sensação, e sim registrar exatamente os que as pessoas sentem e falam. Tratam-se de relatos, uns mais curtos e outros um pouco maiores, daqueles que não têm voz pública e que, a partir do livro, passaram a ter e se tornaram globalizados. A tragédia do acidente da usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia e nas proximidades da Bielorrússia — então partes da União Soviética de Mikhail Gorbachev —, ocorrida em 26 de abril de 1986, mas não terminada, ganha, com o livro da autora, sua face popular, mas não populista. A obra não contém discurso, no sentido ideologizado. Como se fosse uma antropóloga participante, mas ligeiramente distanciada, Svetlana Aleksiévitch recolhe as histórias, escreve-as e, tudo indica, reescreve-as para que fiquem o mais próximo possível da oralidade.

As histórias são terrivelmente comoventes e dolorosas. Lá, como em qualquer lugar, mesmo nas democracias, os homens do poder enganavam os indivíduos, por isso muitos morreram ou se tornaram doentes crônicos. Há muitos doentes — alguns deles (principalmente crianças; tristes e desconsoladas, parecem velhas) se tratam na Alemanha, na França e na Itália graças ao esforço de indivíduos e grupos isolados, e não de ações concentradas dos governos da Ucrânia, da Rússia e da Bielorrússia.

Escritores russos em geral não são contidos, são discursivos e sua literatura é diversa da literatura ocidental. Há muito de ficção e ensaio — daí o caráter por vezes palavroso, lento e, mesmo fora da prosa de matiz realista socialista, os prosadores querem ensinar alguma coisa, guiar os russos intelectuais e, sobretudo, os homens do povo. São, de algum modo, normativos (e são grandes assim mesmo: “porcos espinhos” ou “raposas”, no dizer de Isaiah Berlin). Na prosa colhida e recontada por Svetlana Aleksiévitch há uma contenção que a diferencia da literatura russa em geral, mas o relato de um drama grande e doloroso — ao estilo dos romances “Guerra e Paz”, uma história coletiva, e “Anna Kariênina”, uma história de indivíduos (quem sabe, notadamente a protagonista, adiante de seu tempo) — a aproxima do que há de melhor no país de Púchkin e Gógol. Talvez seja possível sugerir que se trata de um cruzamento de Liev Tolstói com Soljenítsin. Mas é provável que Fiódor Dostoiévski criasse uma literatura mais rica a partir das desgraças e do inominável de Tchernóbil. O autor dos romances “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamázov” tinha um olhar perceptivo para as iniquidades e desgraceiras humanas.

“Minha filha Kátia”

09-90 123 98098As histórias de Svetlana Aleksiévitch — a interlocutora soa, pelos livros, como arauto ou xamã — e de seus personagens por vezes têm uma, duas ou três páginas. Uma delas é o relato impressionante de Nikolai Fomítch Kalúguin. A conclusão lembra um microconto, com a diferença de que se trata de realidade nua e crua: “Anote. Anote ao menos que a minha filha se chamava Kátia. Katiúchenka. Morreu aos sete anos”.

Nikolai Fomítch vivia em Prípiat, que depois de Tchernóbil se tornou uma cidade fantasma, com a família. Abordado, não permitiu aparentemente que a jornalista norteasse a conversa: “Não sou escritor, não saberia como contar… Mas sou testemunha. Aconteceu assim… Vamos ao início… (…). Você vive como uma pessoa normal. (…) E de repente, de um dia para o outro, você se torna um homem de Tchernóbil. Um animal raro! Uma coisa que interessa a todo mundo, mas que ninguém conhece”.

Quando se encontra com uma pessoa de outra região, o indivíduo, doente ou não, é logo classificado: é um “homem de Tchernóbil”. As pessoas voltam-se e dizem, em tom exclamativo e assustado: “Você é de lá!” Nikolai Fomítch é preciso: “Nós perdemos não a cidade, mas a nossa vida inteira”.

As autoridades apareceram e pelo rádio avisaram que era preciso sair das casas e não levar animais. A filha de Nikolai Fomítch decidiu levar o gato escondido numa mala, mas ele escapava e arranhava as pessoas. “Proibiram-nos de levar os objetos! Eu não levei as minhas coisas. Apenas uma: tinha que retirar a porta do apartamento e levá-la comigo, não podia deixá-la. Fechei a entrada com tapumes.”

Nikolai Fomítch tinha seus motivos para levar a porta. “A nossa porta é o nosso talismã! É relíquia familiar. Sobre essa porta velamos o meu pai. (…) Entre nós, devemos pôr o defunto sobre a porta de casa. Velamos a pessoa ali até chegar o caixão… E nessa mesma porta, até o alto, estão as marcas… Conforme eu ia crescendo, anotávamos: primeiro ano [escolar]. Segundo. Sétimo. Antes do Exército. E ao lado estão as do meu filho. Da minha filha. Nessa porta está escrita toda a nossa vida. Como eu poderia deixá-la?”

Um vizinho tinha automóvel, mas, sugerindo que Nikolai Fomítch estava doido, não o ajudou. “Mas eu levei a porta. À noite, de motocicleta. Pelo bosque. Fui perseguido pela polícia: ‘Vamos atirar! Vamos atirar!’”

A mulher e a filha de Nikolai Fomítch foram levadas ao hospital, o corpo “coberto de manchas negras”. Depois dos exames, o bielorrusso perguntou: “Qual o resultado?” Redarguiram: “Isso não diz respeito a você”. Ele insistiu: “E a quem diz respeito?”

A pequena Kátia sussurrava no ouvido do impotente e desesperado Nikolai Fomítch: “Papai, eu quero viver, ainda sou pequena. (…) Não quero ir para o hospital! Não quero morrer!”
Kátia morreu, sem nenhum fio de cabelo. A radiação de Tchernóbil a matou. “Pusemos a nossa filha sobre a porta… A mesma em que o meu pai foi velado. Enquanto esperávamos o caixãozinho… Era tão pequeno, como uma caixa de boneca grande.” Por isso Nikolai Fomítch disse a Svetlana Aleksiévitch: “Eu quero testemunhar, a minha filha morreu por culpa de Tchernóbil. E ainda querem nos calar”.

O bombeiro radiativo

Um dos relatos mais devastadores e mais longos (23 páginas) é o de Liudmila Ignátienko, mulher do bombeiro Vassilí Ignátienko, que morreu em decorrência da contaminação nuclear em Tchernóbil. Formavam um casal jovem e se amavam. Eram de Prípiat.

Levado para Tchernóbil, sem nenhuma informação e proteção, Vassilí voltou doente. “Eu o vi… Estava todo inchado, inflamado… Os olhos quase não apareciam.” No hospital, ante o horror que era seu próprio corpo, o bombeiro dizia para a mulher: “Vá embora! Salve a criança!” Ela estava grávida.

O governo transferiu Vassilí para Moscou e, apesar da resistência das autoridades, Liudmila foi atrás, intimorata. Pressionando aqui e ali, comovendo as pessoas, com sua persistência e amor, conseguiu encontrá-lo. “Vássia!”, gritou a jovem. “Ô, meu pai, estou perdido! Até aqui ela me encontra!”

Vassilí quis abraçá-la, mas um médico, temendo a contaminação, impediu. Liudmila preparava a sopa do marido e de seus companheiros — até que foi avisada: “Você não precisa preparar mais nada. O estômago deles parou de absorver alimentos”.

Liudmila percebeu mudanças rápidas no corpo de Vassilí. “As queimaduras saíam para fora… Na boca, na língua, nas maçãs do rosto; de início eram pequenas chagas, depois iam crescendo. As mucosas caíam em camadas, como películas brancas. A cor do rosto, a cor do rosto… Azulada… Avermelhada… Cinza-escuro… E, no entanto, tudo nele era tão meu, tão querido! É impossível contar! Impossível escrever! E mesmo sobreviver.” Um dos méritos de Svetlana Aleksiévitch é exatamente contar o que não parece contável.

“Eu o amava! Eu ainda não sabia como o amava!”, diz Liudmila. Médicos e enfermeiras diziam que não era possível salvá-lo, portanto, se quisesse, a jovem poderia voltar para casa e, depois, buscar o corpo. Mas a garota não arredava pé. “No primeiro dia que passei no hotel [em Moscou], os dosimetristas já mediram os meus níveis. A roupa, a bolsa, o porta-moedas, os sapatos, tudo ‘ardia’. Levaram tudo. Até a roupa de baixo.”

No hospital, ao vê-la vestida numa bata, Vassilí assustou-se: “Minha nossa, o que houve com você?” Liudmila tentava alimentá-lo. “Era tudo em vão, ele já não conseguia beber, nem mesmo engolir um ovo cru.”

No hospital, mesmo sem energia, Vassilí lembrou que havia prometido levar Liudmila para ver os fogos de Moscou, na comemoração do Dia da Vitória (referência à Segunda Guerra Mundial). Certo dia, pediu para sua companheira abrir as janelas e observar os fogos. “Um buquê de luzes subiu ao céu.” Ele disse: “Prometi que nos dias de festa te daria flores, por toda a vida”. Liudmila percebeu que, mesmo à morte, o marido puxou três cravinhos de debaixo do travesseiro. “Tinha dado dinheiro à enfermeira para comprá-los…”. Ela beijou-o e disse: “Meu amor! Minha vida!” Sem forças, ele não reagiu mas alertou-a: “O que foi que o médico disse? Você não pode me abraçar! Não pode me beijar!”

Ao transcrever histórias de pessoas comuns, Svetlana Aleksiévitch, publicou um livro terrível

Ao transcrever histórias de pessoas
comuns, Svetlana Aleksiévitch, publicou um livro terrível

Sempre presente no hospital, Liudmila acompanhava Vassilí em todas as poucas atividades. “Fui proibida de abraçar, de acariciar o meu marido… Mas eu… Era eu que o apoiava e o sentava na cama. Era eu que trocava os lençóis, tirava a temperatura, levava e trazia a comadre… Eu o limpava… Passava todas as noites ao lado dele. Vigiava cada um dos seus movimentos, dos seus suspiros.”

De uma dignidade rara, ao saber que o dr. Gale faria o transplante da medula de sua irmã caçula, Natacha, Vassilí “recusou com veemência: ‘Prefiro morrer. Não toque em Natacha, ela é pequena’. A irmã mais velha, Liúda, de 28 anos, era enfermeira e sabia do que se tratava. ‘Que se faça o necessário para ele viver’, disse ela.” Liúda adoeceu e aposentou-se, ainda jovem, “por invalidez”. “Era uma moça bonita e forte. Não se casou”, relata Liudmila.

Na cama, muito mal, Vassilí chamava: “Liúcia, onde você está? Liúcienka!” Liudmila conta para Svetlana Aleksiévitch: “Ele evacuava 25, trinta vezes por dia. Com sangue e mucosidade. A sua pele começava a rachar nas mãos e nos pés. O corpo ficou coberto de furúnculos. Quando ele virava a cabeça, caíam chumaços de cabeço sobre o travesseiro. E tudo isso era tão meu. Tão querido… Eu tentava gracejar: ‘É mais cômodo. Assim, você não precisa de pente’”.

Ante o carinho e à dedicação de Liudmila, tida como suicida, uma pessoa disse: “Você não deve se esquecer de que isso que está na sua frente não é mais seu marido, a pessoa que você ama, mas um elemento radiativo com alto poder de contaminação. Não seja suicida. Recobre a sensatez”. A jovem continuava ao lado de Vassilí e dizia: “Eu te amo! Eu te amo!”

Mesmo muito doente, Vassilí dizia que gostaria de ver o seu filho. “Ele só dormia segurando a minha mão. (…) Nenhum médico sabia que à noite eu dormia com ele na câmara hiperbárica. As enfermeiras consentiam.” Mas as profissionais tentavam convencê-la a se retirar: “Você é jovem. Isso já não é um homem, é um reator nuclear. Vão queimar os dois”. Porém, implorando com fervor, Liudmila conseguia ficar ao lado do marido. “Ao diabo! Você não é normal”, acediam as enfermeiras.

A situação de Vassilí piorava dia a dia. “Eu trocava o lençol todos os dias, mas à noite já estava todo ensanguentado. Quando eu o levantava, pedaços de pele grudavam nas minhas mãos. Qualquer costura feria a sua pele. Cortei as minhas unhas até sangrar, para não machucá-lo. Nenhuma das enfermeiras tinha coragem de se aproximar dele, de tocá-lo. Se era preciso fazer algo, elas me chamavam”, assinala Liudmila. De longe, os cientistas fotografavam o bombeiro.

A uma enfermeira, Liudmila disse: “Ele está morrendo”. A enfermeira concordou: “Ele recebeu 1600 roentgen, quando a dose mortal é de quatrocentos roentgen”. Para médicos, enfermeiros e cientistas, Vassilí era quase um reator. Mas, para a garota, era seu amor. “Para mim, ele era tudo o que eu tinha, o que eu mais amava.”

Quando Liudmila deixou o hospital e foi ao cemitério ajudar a enterrar o marido de uma amiga, Vassilí morreu. Pouco antes, chamara-a “feito um louco”. Suas últimas palavras foram: “Liúcia! Liúcienka!” Talvez tenha vivido um pouco mais devido ao amor e carinho de sua mulher.

“Apoiei-me à janela e gritei: ‘Por quê? Por quê?’! (…) Eu não me afastei mais dele. Fui com ele até o túmulo, embora me recorde não do ataúde, mas de um saco de polietileno. (…) Não calçaram sapatos, pois os pés estavam inchados. Eram bombas em vez de pés. (…) O corpo estava se desfazendo. Todo ele era uma chaga sanguinolenta. (…) No hospital, nos últimos dias, eu levantava a mão dele e os ossos se moviam, dançavam, se separavam da carne. Saíam pela boca pedacinhos do pulmão, do fígado. Ele se asfixiava com as próprias vísceras. Eu envolvia minha mão com gaze e a enfiava na boca dele para retirar tudo aquilo… É impossível contar isso! É impossível escrever sobre isso! E sobreviver… E tudo isso era tão querido… Tão meu”, relata com emoção e, ainda assim, objetividade Liudmila.

Vassilí foi enterrado em Moscou, como herói. As autoridades diziam às mulheres dos que morreram em decorrência do acidente nuclear de Tchernóbil: “Não podem entrar no cemitério. Está rodeado de correspondentes estrangeiros. Esperem mais um pouco”. Eram os tempos da perestroika e da glasnost, mas, mesmo assim, tratava-se de um regime comunista, de partido único. Um homem, possivelmente da KGB, permanecia ao lado das viúvas, mães e filhas. “Temia que falássemos com alguém, sobretudo eu. Como se naquele momento eu pudesse falar! Nem chorar eu podia.”

Quando voltou para a Bielorrússia, Liudmila dormiu três dias seguidos. Um médico explicou: “Não, ela não morreu. Ela vai acordar. É uma espécie de sono terrível”. Ela tinha apenas 23 anos.

A morte do bebê

Ao voltar ao cemitério de Moscou, para ver o túmulo de Vassilí, Liudmila sentiu contrações e, levada ao hospital, deu à luz uma menina, de nome Natáchenka. “Pelo aspecto, parecia um bebê saudável. Bracinhos, perninhas… Mas tinha cirrose. No fígado havia 28 roentgen, e uma lesão congênita no coração. Depois de quatro horas, me disseram que ela tinha morrido. E me falaram de novo: ‘Nós não vamos te dar o corpo dela’. ‘Como não vão me dar o corpo?! Sou eu que não o darei a vocês! Vocês querem tomar a minha filha para a ciência, pois eu odeio a sua ciência! Odeio! A sua ciência já levou o meu marido e agora quer mais… Não darei! Eu mesma a enterrarei. Ao lado dele.” A menininha foi enterrada no túmulo do pai. “E foi ali que eu enterrei a sua alma. Sempre que eu venho ver, trago dois buquês: um para ele, o segundo eu ponho num cantinho para ela. Eu me arrasto de joelhos pela tumba, sempre de joelhos… Eu a matei… Fui eu…. Ela… Ela me salvou… A minha filhinha me salvou. Recebeu todo o impacto radiativo, foi uma espécie de receptor desse impacto.”

Aos 25 anos, Liudmila quis ter um filho. Relacionou-se com um homem e contou sua história. “Toda a verdade: que tenho um só amor por toda a vida. Confessei tudo para ele. Nós nos encontrávamos, mas eu nunca o chamei à minha casa, em casa era impossível. Lá havia Vássia.”

Na confeitaria onde trabalhava, pedia que não tivessem compaixão dela. “‘Se tentarem me consolar, vou embora’. Eu queria ser como todo mundo. Não queria consolo. Houve um tempo em que fui feliz.”

De seu relacionamento sem amor, nasceu Andrei. Os dois eram extremamente ligados. Andreika dizia à mãe: “Mamãe, se eu for à casa da vovó por dois dias, você conseguirá respirar”. Mas a jovem não conseguia se desligar do menino.

Um dia, Liudmila desmaiou na rua e foi internada. No hospital, ao acordar, agarrou Andrei “com tanta força que os médicos tiveram dificuldade em soltar os” seus “dedos”. Uma mão do garotinho ficou azulada. Quando saem de casa, ele diz: “Mamãe, não me segure pela mão. Eu nunca vou me afastar de você”.

À noite, Liudmila conversa com Vassilí, o Vássia. “Vivo ao mesmo tempo num mundo real e irreal.” Ela disse a Svetlana Aleksiévitch que as pessoas de Tchernóbil, do tempo do acidente, estão morrendo… doentes, às vezes devastadas física e psiquicamente. “E ninguém lhes perguntou de verdade sobre o que aconteceu. Sobre o que sofremos, o que vimos. As pessoas não querem ouvir falar da morte. Dos horrores… Mas eu falei do amor… De como eu amei.”
Um dos méritos de Svetlana Aleksiévitch é que ouviu as pessoas comuns e deixou que contassem seus dramas, para além das estatísticas, das vozes oficiais das autoridades políticas e científicas. O livro contém outras histórias dolorosas e, ao mesmo tempo, fascinantes — inclusive histórias de solidariedade.

A tradução de Sonia Branco, escorreita, fluente, de precisão rara — não há hesitações e trechos truncados —, foi feita diretamente do russo. l

Uma resposta para “Livro de Svetlana Aleksiévitch revela o inferno de Tchernóbil narrado pelas vítimas”

  1. Não há mais apropriado juízo do que este da legenda da foto de Svetlana: “Ao transcrever histórias de pessoas comuns, Svetlana Aleksiévitch, publicou um livro terrível”. A voz das pessoas e seus dramas está aqui retratada na leitura atenta do editor Euler De França Belém, mostra a capacidade de resistência que o Amor dá ao ser Humano. O doloroso episódio deixa-nos sempre muito tristes, deprimidos, mas há quem resgate a voz dos que sofrem para nos lembrar: “…As pessoas não querem ouvir falar da morte. Dos horrores… Mas eu falei do amor… De como eu amei.” Este parece sim, adequado concordar com o autor desta resenha: “um dos méritos de Svetlana Aleksiévitch é que ouviu as pessoas comuns e deixou que contassem seus dramas…”
    AQ.

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