Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro de memórias de Tarzan de Castro garante que não foi dedo-duro nem agente da CIA

O ex-militante do PC do B e do PCB fez cursos na China e na União Soviética, foi torturado no Brasil e no Chile e em Paris, onde morou seis anos, iniciou doutorado na Sorbonne

Livro de Tarzan de Castro é revelador de sua vida pessoal e política: quase nada ficou de fora, nem suas aventuras amorosas

Livro de Tarzan de Castro é revelador de sua vida pessoal e política: quase nada ficou de fora, nem suas aventuras amorosas

Um dos mais importantes militantes da esquerda do país, Tarzan de Castro lança suas memórias na quarta-feira, 27, às 19 horas, na Assembleia Legislativa de Goiás. “Tarzan de Castro — Vida, Lutas e sonhos” (Kelps, 380 páginas) é um balanço sem condescendência de suas múltiplas aventuras políticas no Brasil, na China, no Uruguai (foi casado com a guerrilheira uruguaia Maria Cristina), no Chile, na França e na União Soviética. Aos 78 anos (completa em junho), avalia que chegou o tempo de contar tudo — inclusive sua vida sexual, com guerrilheiras, não-guerrilheiras e até uma freira bela e pudica. Há espaço para histórias bem-humoradas. A obra foi escrita com o apoio de pesquisadores da Uni­versidade Federal de Goiás.

Filiado ao PC do B, foi perseguido e torturado por duas ditaduras — a brasileira e a chilena. “Fui mais torturado pelo governo de Auguste Pinochet do que pelos governos dos generais do Brasil”, disse ao Jornal Opção na quarta-feira, 20.

O livro não conta uma história linear, até porque a vida é mais escorregadia do que tradicionalmente se pensa. “Há idas e vindas, com o objetivo de registrar a complexidade de minha vida, de um homem que não é perfeito, mas batalhou por uma sociedade melhor, ainda que, por vezes, de maneira equivocada. Felizmente, descobri que a democracia é um valor universal e que socialismo de partido único não funciona nem aqui nem alhures. Uma sociedade só funciona de maneira adequada, com todas as suas contradições, quando tem partidos políticos. Socialismo? Só se for democrático”, afirma Tarzan.

Clandestinidade e exílio

Político precoce, Tarzan de Castro se tornou esquerdista porque acreditava numa “sociedade de iguais”. Com o golpe de Estado de 1964, se tornou um dos mais procurados comunas do país. Caçado por todos os lugares, passou cinco anos na cadeia, torturado física e psicologicamente. Viveu 11 anos entre a clandestinidade e o exílio. Morou no Uruguai, no Chile (onde deu aulas numa universidade), Paris (de 1973 a 1979, quando, com a Anistia, voltou ao Brasil). Na França, estudou sociologia e história. Iniciou mas não terminou um doutorado em história na Sorbonne.

Na Cidade Luz, depois de estudar as ideias de vários pensadores e a história dos países socialistas, começou a perceber que havia alguma coisa que não funcionava. “Os estudos e a convivência com intelectuais franceses e de outros países mudou minha cabeça a respeito do socialismo. Não existe esse negócio de socialismo sem democracia. A China não é socialista nem é democrática. Trata-se de um capitalismo de Estado, sob a hegemonia do Partido Comunista. O Estado é autoritário. Democracia não é meio — é fim”, diz Tarzan de Castro.

Apontado como um dos militantes mais cosmopolitas da esquerda patropi, Tarzan de Castro fez cursos na China de Mao Tsé-tung e na União Soviética de Leonid Brejnev. Militante do PC do B, entre 1965 e 1966, ao fazer cursos políticos e militares na China, descobriu a face do autoritarismo. “Certa vez, ao perceber que até para cortar uma melancia, os chineses citavam Marx e Mao, eu ri e me expressei de maneira irônica. O meu camarada Amaro Luiz de Carvalho, o Capivara — morto pela ditadura civil-militar —, me criticou asperamente e rolamos pelo chão. Eram tempos de radicalismo.”

Divergindo do PC do B, porque era contrário à luta armada, Tarzan de Castro acabou expulso e criou, com outros comunistas, a Ala Vermelha. “Fui para o Chile, onde, com a queda de Salvador Allende, fui barbaramente torturado. Escapei para Paris, onde me filiei ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Fiquei seis meses estudando o ‘Capital’, de Karl Marx, pois havia sido convidado a estudar a obra em Moscou, no Instituto Superior de Marxismo-Leninismo. Lá, quando questionei a falta de liberdade dos soviéticos, critiquei Lênin e sugeri que havia uma espécie de capitalismo de Estado com viés social, um professor soviético, no lugar de contestar minha argumentação, retrucou: ‘Você não é comunista. É trotskista’. Dizer que alguém era trotskista, na União Soviética, era quase uma ‘condenação’.”

Entre os colegas de Tarzan de Castro em Moscou estavam Aloysio Nunes Ferreira, hoje senador pelo PSDB de São Paulo, Anita Prestes (filha de Luís Carlos Prestes e Olga Benario), Zuleika Alembert, Milton Temer e Maria Cristina (uruguaia que foi casada com o ex-militante goiano).

Aloysio Nunes Ferreira, senador por São Paulo, salvou a vida de Tarzan de Castro, que era para ser morto em São Paulo

Aloysio Nunes Ferreira, senador por São Paulo, salvou a vida de Tarzan de Castro, que era para ser morto em São Paulo

Dedo-duro e CIA

Tarzan de Castro diz que escreveu um livro para revolver seu passado, não para defendê-lo, e sim para expor sua verdade sobre os fatos. Há duas histórias nebulosas: teria sido dedo-duro e agente da CIA. Há algum tempo, o Jornal Opção ouviu veteranos da luta política de esquerda, como Gerson Parreira (que exilou-se na Suécia) e Elio Cabral, e nenhum confirmou a história de que o ex-militante tenha sido dedo-duro (história repisada num livro de Percival de Souza sobre o delegado Sérgio Fleury) e agente da CIA. “Discuto, no livro, os dois temas, sem nenhum receio.”

“Ao voltar da China, passei a divergir das ideias PC do B, porque eu era contra a luta armada. Para me atacar, começaram a dizer que eu era dedo-duro, mas não há nenhuma prova disso. A história é uma criação de líderes e militantes do partido, que nem pensam isto mais a meu respeito. Na verdade, fui vítima de uma ação rasteira do stalinismo. Os stalinistas brasileiros queriam aplicar as ideias chinesas no país mecanicamente. Eu dizia que não daria certo. O fracasso da Guerrilha do Araguaia tem a ver com a leitura equivocada que fizeram da Revolução Chinesa de 1949. Garotos do PC do B foram para o campo, sem qualquer experiência com guerrilha, numa região com poucos moradores e acabaram caçados de maneira implacável pelos militares. Na selva, sem a intenção de fazer pilhéria, os jovens militantes só pegaram macaco e malária. Respeito a luta dos guerrilheiros, mas eles não tinham chance alguma de vencer as bem preparadas Forças Armadas do país. Eles são ‘heróis da solidão’.” Na opinião de Tarzan de Castro, as lutas legais contribuíram muito mais para a queda da ditadura do que a luta armada. “As massas, que eram citadas pelos guerrilheiros, não estavam com eles.”

Logo que regressou da China, Tarzan de Castro foi preso em São Paulo. O ex-militante dos PCs conta que Aloysio Nunes, que estava detido no Dops com alguns estudantes, salvou sua vida. “Eu estava preso numa solitária, há mais de 100 dias. Quando vi uma movimentação, com gente cantando música de Geraldo Vandré, comecei a chutar a porta de aço. Os estudantes aproximaram, eu disse ‘eles vão me matar’, e o Aloysio passou uma folha de papel e eu escrevi meu nome e o que estava acontecendo. Ao sair de lá, ele movimentou a Igreja Católica e advogados e aí o ministro Costa e Silva mandou me transferir para a Ilha de Lages, na Baía da Guanabara. Eu fugi de lá, acompanhado pelo James Allen Luz e pelo Gerson Parreira, e, em seguida, pulei o muro da embaixada do Uruguai.”

Ao escapar da prisão, Tarzan de Castro fez um relatório para o PC do B. “Fui ingênuo e contei que um agente da CIA, chamado de Robert, havia me dito que, se não quisesse morrer, deveria passar para o lado deles. Eu seria levado para os Estados Unidos para dar palestras. Não aceitei a proposta e continuei no Brasil. A partir de um relatório, no qual eu falava do assédio, o PC B espalhou a contrainformação de que eu havia me tornado agente da CIA, o que nunca foi nem pode ser provado, porque é falso. Adiante, quando éramos deputados federais, um líder do PC do B, meu amigo Aldo Arantes, me procurou para esclarecer o caso, mas, avaliando que era tarde, deixei pra lá. Mas todos sabem que a acusação é leviana e falsa.”

No capítulo sobre as conquistas amorosas, Tarzan de Castro conta que namorou algumas mulheres francesas — uma delas casada com um espanhol. “Em Paris, cheguei a participar de ménage a trois. Não namorei nenhuma russa, porque viajei acompanhado de minha mulher. Na China, apesar da vontade, não conseguiu namorar nenhuma garota. Dizia-se, então, que chinesas e chineses deveriam casar virgens, depois dos 28 anos. A sociedade era moralista.”

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