Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro conta a história de Zé Gomes da Rocha, prefeito de Itumbiara e deputado federal

O estudo mostra como um jovem de origem pobre foi mudando seu perfil para se tornar bem-sucedido na política de Itumbiara e do Estado

Começo a ler “Zé Gomes — O Prefeito do Centenário de Itumbiara” (PUC-Goiás, 530 páginas), de J. G. Rocha Filho e Nilson Freire (mestre em História). E, de cara, pensei: mais uma hagiografia. As suspeitas aumentaram ao perceber que Rocha Filho é o médico Rochinha, filho de Zé Gomes.

A bela e modernista capa mostra Zé Gomes da Rocha como era: usava um jalecão vermelho no dia a dia para mostrar que era um trabalhador, e não um mero político

Enganei-me. Ainda não terminei a leitura, mas não é uma hagiografia. Aliás, os autores frisam que não se trata-se, a rigor, nem de uma biografia. De fato, não é. É um estudo, muito bem elaborado (inclusive com perspectiva acadêmica), sobre José Gomes da Rocha e a respeito da história política de Itumbiara. O livro é bem escrito, a pesquisa tem méritos. O personagem é inserido no contexto histórico de seu tempo.

Freire e Rocha resgatam a história de um político que foi deputado federal (quatro vezes), prefeito (duas vezes), deputado estadual (uma vez) e vereador (três vezes). É interessante como a obra mostra que, a partir de certo momento, Zé Gomes percebeu que era preciso “mudar” — preservando determinadas características — para se tornar um político aceito e bem-sucedido. O personagem folclórico não cedeu totalmente, até porque certamente ele não queria descaracterizar-se, mas a imagem de gestor eficiente cristalizou-se na sociedade.

Contracapa do livro: o prefácio do livro é de Iris Rezende, prefeito de Goiânia

Zé Gomes aparece de corpo inteiro, com virtudes e defeitos irmanados, não dissociados. Um homem de seu tempo que queria “avançar” o tempo, e talvez tenha conseguido (seu interesse por educação e saúde mostra um gestor atento às necessidades da sociedade, sobretudo dos mais pobres). Suas contradições são expostas, sem cerimônia, e isto não o faz menor. Ao contrário, contribui para torná-lo mais bem compreendido. Há ao menos dois exageros. Primeiro, denominá-lo de “JK do Cerrado”. Segundo, ao sugerir que fez o melhor governo em cem anos da história de Itumbiara, os autores postulam que isto “permite antecipar que nos próximos cem anos será muito difícil ter outro líder com tanto carisma”. (Como disse, não li o livro inteiro, mas, até onde li, senti falta das opiniões dos adversários políticos de Zé Gomes. Ainda assim, o registro de Freire e Rocha é nuançado.)

Assassinado em 2016, quando possivelmente seria eleito prefeito pela terceira vez, Zé Gomes era um líder populista. Freire e Rocha interpretam com mestria o personagem histórico, indicando que, na sua busca pelo sucesso político e por uma administração eficiente, de resultados para a sociedade de Itumbiara, não se atinha ao debate ideológico, ao alinhamento político absoluto. Ao seu lado figuravam tanto aliados do PC do B quanto da direita.

A história de Zé Gomes, tão bem contada, sugere que Goiás precisa relatar a história de seus políticos de maneira mais desconcentrada. O Estado precisa de uma história mais inclusiva — para além de Leopoldo de Bulhões, Totó Caiado, Pedro Ludovico, Domingos Vellasco, Mauro Borges, Otávio Lage, Irapuan Costa Júnior, Ary Valadão, Iris Rezende, Henrique Santillo, Maguito Vilela, Marconi Perillo e Ronaldo Caiado. Há dezenas — quiçá centenas — de líderes municipais que contribuíram para a formatação da história do Estado. Freire e Rocha abrem a picada, ao incluírem, além de Zé Gomes, outros personagens de Itumbiara, como Modesto de Carvalho, Radivair Miranda e Waterloo Araújo.

O assassinato de Zé Gomes foi um atentado político? Os autores indicam que sim, mas não discutem o assunto, ao menos não de maneira alentada. Recentemente, uma pessoa de Itumbiara deu um depoimento à Polícia, ao Ministério Público e à Justiça que reforça a possibilidade de crime político.

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