Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro conta a história de Geneton Moraes Neto, o repórter das perguntas de ouro

O pernambucano, que morreu aos 60 anos, era, acima de tudo, um grande repórter, um perguntador nato

No jornalismo só há uma profissão: a de repórter. Editor não é profissão, é, digamos, cargo, encargo. Editores que se acomodam deixam de escrever e se tornam não-repórteres. Geneton Moraes Neto era, acima de tudo, repórter. Era um entrevistador extraordinário, que fugia do lugar-comum como o diabo, dizem, foge da cruz. Ele entrevistou dezenas de grandes, médias e pequenas figuras. O detalhe é que as entrevistas, com qualquer um, eram interessantíssimas. Porque às vezes, nos embates entre repórter e fonte, as perguntas são até mais decisivas — e deliciosas — do que as respostas. O pernambucano de Recife era o repórter das perguntas de ouro.

Ao entrevistar Gilberto Freyre, o sociólogo pernambucano — que dotou sua ciência de uma prosa literária —, Geneton Moraes Neto foi surpreendido com um escarro, não dele, e sim do autor de “Casa Grande & Senzala. Não deu importância e continuou a ouvir (e a falar) com a sumidade de Apipucos.

As entrevistas de Geneton Moraes Neto para jornais impressos e, depois, para a televisão não deixavam ninguém dormindo. Era preciso ficar “acordado” para ler ou ouvir as perguntas inusitadas, que, às vezes, desconcertavam tanto os entrevistados quanto os leitores e os telespectadores.

Na Globo, uma rede de televisão tradicional — de linhagem formalista, em decorrência do padrão globo de qualidade —, Geneton Moraes Neto praticamente criou uma nova escola, a dos entrevistadores informais ou, até, participantes. Suas entrevistas não eram frias; ao contrário, eram “quentes”, vivas, altamente questionadoras. Ele não temia ninguém — nem o agressivo e intimidador-mor da República general Newton Cruz. Entrevistou, entre outros, o britânico Anthony Burgess, o autor do romance “Laranja Mecânica” — que se tornou um ícone universal (muito pelo filme homônimo do diretor Stanley Kubrick).

Geneton Moraes Neto, jornalista falecido em agosto de 2016, aos 60 anos | Foto: Reprodução

Quando a Globo pensou em renovar o “Fantástico”, não pensou duas vezes: contratou Geneton Moraes Neto para o cargo de editor-chefe. Enganaram-se aqueles que apostaram que o repórter havia se acomodado — pensando exclusivamente no vil metal da maior rede de televisão do país. Aos poucos, com sua mão mais “nacional” do que “carioca”, deu um novo tom ao programa, tornando-o mais brasileiro (na televisão patropi, há a tendência de tratar o Brasil que não é carioca e paulista como “folclórico” e, até, “primitivo”). Entretanto, o repórter calou mais fundo e ele deixou o programa. Era irrequieto demais para quedar-se num só lugar por muito tempo.

Na Globo News, Geneton Moraes Neto fez entrevistas memoráveis. Ele sempre inovou inclusive na edição do material — com um traço modernista, fragmentário, elíptico. Deveria ser apontado como modelo de entrevistador — de repórter — nas faculdades de jornalismo.

As entrevistas de Geneton Moraes Neto eram tão boas — daí sua durabilidade — que, às vezes, eram publicadas em livro. Aliás, ele publicou vários livros, sempre de qualidade acima da média e reveladores. Às vezes, até bombásticos.

Geneton Moraes Neto entrevista Gilberto Freyre | Foto: Reprodução

Em 22 de agosto de 2016, com meros 60 anos, no auge da profissão, Geneton Moraes Neto deixou órfãos seus leitores e telespectadores devotados.

Os “órfãos” — milhares, talvez milhões — agora podem se esbaldar com o livro “Geneton — Viver de Ver o Verde Mar” (Cepe, 248 páginas), de Ana Farache e Paulo Cunha. Trata-se do livro imperdível da temporada.

Leia sinopse da editora

“Este livro revela a trajetória do pernambucano Geneton Moraes Neto, considerado um dos melhores jornalistas que já atuaram no Brasil. Começou a colaborar com o suplemento infantil ‘Júnior’ do ‘Diário de Pernambuco’, ainda adolescente, nos anos 1970. Como repórter, criou um estilo inconfundível, tanto pela qualidade do texto quanto pelo impacto das perguntas que fazia aos seus entrevistados.

“Geneton sempre disse que a principal função do jornalismo era produzir memória. Trabalhou no ‘Diário de Pernambuco’, em ‘O Estado de S. Paulo’ e na TV Globo, onde foi editor-chefe do ‘Jornal Nacional’ e do programa dominical ‘Fantástico’. Parte da sua intensa produção jornalística foi publicada em 11 livros. Em paralelo à carreira jornalística, Geneton foi um cineasta instigante, responsável por importante produção no campo do audiovisual. Entre 1973 e 1984, realizou vários curtas em Super-8, filmados em Pernambuco e na França. A partir de 2010, passou a dirigir documentários em longa-metragem exibidos na televisão e nos cinemas.”

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