Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livraria Cultura compra a Estante Virtual, a Uber dos livros usados do Brasil

A Estante Virtual construiu uma rede de leitores fieis (4 milhões) do Oiapoque ao Chuí e interligou o país na caçada aos livros

A livraria Estante Virtual (criada em 2005 pelo empresário André Garcia), que reúne sebos de todo o país — e talvez possa ser qualificada de a Uber dos livros usados —, conseguiu aquilo que antes só os caixeiros viajantes (que precederam o reembolso postal) conseguiam: levar livros a todos os rincões. Como adquirir via livrarias físicas um livro editado no Rio Grande do Sul (adquiri livros de qualidade sobre Erico Verissimo, de acadêmicos de alto nível) ou na Paraíba? Parecia impossível. Depois da Estante Virtual, tudo ficou fácil. Há problemas? Poucos. Uma vez, comprei um livro da escritora canadense Elizabeth Smart (1913-1986) e recebi uma obra de Paulo Coelho. A desculpa: o alfarrábio havia vendido o exemplar para outra pessoa e, no lugar de devolver o meu dinheirinho, enviou-me uma edição de capa dura do popular autor patropi. A troca não me agradou, mas o sebista certamente pensou que estava me fazendo um favor. Depois de anos comprando, sem nenhum problema, o citado só pode ser nominado de probleminha.

André Garcia: criador da Estante Virtual

Um dos problemas da Estante Virtual (ou do Estante Virtual, porque se trata de um portal) é que nivelou, pelo alto, os preços dos livros. Quase todos os Estados passaram a vender como se houvesse uma tabela informal — na prática, praticamente formal. Mesmo assim, eventualmente, pode-se comprar várias obras com preços dos mais acessíveis (o frete do Correios às vezes fica mais caro do que o livro). Sem contar o mais importante: nós, amantes dos livros, passamos a ter acesso a um volume surpreendente de livros, inclusive editados noutros países. Comprei excelentes biografias de William Faulkner (me ofereceram a possibilidade de dividir no cartão), James Baldwin (ao custo de 90 reais), D. H. Lawrence e Flaubert em espanhol, em inglês e francês.

A Estante Virtual, um sucesso inclusive comercial, gerou filhos igualmente ilustrados, como a Livronauta (http://www.livronauta.com.br/) e o Portal dos Livreiros (https://portaldoslivreiros.com.br/). Portanto, não dá para ficar surpreso com a informação, publicada pelo “Estadão”, de que a Livraria Cultura, da família Herz (Pedro e Sergio), comprou a Estante Virtual, supostamente para não ficar para trás na disputa com (e contra) a Amazon. Há pouco, os Herz haviam comprado a rede de livrarias da Fnac — uma delas no shopping Flamboyant (ainda sofrendo de inanição, o dedo da Livraria Cultura não passou por lá).

Sérgio e Pedro Herz: dirigentes (da nova e da velha guarda) da Livraria Cultura

 

O valor da venda não foi anunciado, mas fica, por certo, na casa dos milhões. Porque a Estante Virtual — que reúne os sebos, mas não vende por si nenhum livro (é como a Uber, que não tem automóveis) — é um case de sucesso. A rede de livreiros e de leitores (sou um dos mais fieis e satisfeitos) que articulou pelo país é insuperável e talvez supere, em número e fidelidade, às das livrarias como Cultura, Travessa e Saraiva. São 4 milhões de clientes cadastrados e já vendeu 17,5 milhões de livros. Um fenômeno.

Segundo o “Estadão, “a Livraria Cultura diz que insere mais esta aquisição nas suas metas de expansão do e-commerce, projetando um aumento de mais de 60% das transações online nos próximos dois anos”. Vale acrescentar que a economia voltou a crescer, o que, para o mercado dos livros, é positivo. Na crise há quem considere livros como supérfluos e, assim, corta-os do orçamento mensal. Com a redução da crise, as vendas tendem a crescer.

Assim como a Uber provoca queixas dos donos de automóveis cadastrados — porque fica com 25% de seus rendimentos —, os donos de sebos mantêm uma relação de amor e quase-ódio com a Estante Virtual. Vou sempre aos sebos de Goiânia, com os excelentes do Lúcio (que conheço desde menino, e é um craque) e do Juari (que conheço desde 1980, quando éramos, eu e ele, pouco mais do que garotos). Lúcio e Juari nem reclamam tanto, porque a Estante Virtual ajuda a derrotar as vacas magras — há encomendas todos os dias. Mas há donos de sebos que dizem que, “sem fazer nada”, a Estante Virtual fica com parte de seus rendimentos. Fica mesmo. Mas, sem a rede, venderiam menos e teriam menos lucros. Na verdade, a Estante Virtual não é uma adversária dos livreiros — é uma grande aliada. Sobretudo, é uma aliada formidável dos leitores.

De resto, livros, como prova a negociação, persistem um grande negócio. Alvíssaras.

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Val

O serviço deve piorar. Os sebos serão extorquidos, junto com os consumidores. Anos atrás comprei na Cultura a coleção História da Literatura Ocidental do Carpeaux e paguei R$ 180,00. Perguntei se havia algum desconto e o funcionário disse que não era política da casa oferecer descontos. Aí veio a Amazon e nunca mais comprei na Cultura. É uma pena que a concorrência diminua, pois a Cultura vai explorar os sebos e os consumidores também.

earl

A diferença de preço entre a Estante Virtual e Sebos que mantém o seu próprio site como a do Messias por exemplo, sempre é enorme, já constatei uma diferença de até 300%, tanto que nem utilizo mais a busca na estante virtual, não compensa.

earl

A diferença entre os preços da Estante Virtual e os preços das Sebos que mantêm o seu próprio site é enorme, já constatei diferenças de até 1000%, é um absurdo, tanto que nem utilizo mais o site para busca de livros, vou de traça, sebo do messias porque se a sebo está na Estante, significa preços abusivos, fora da realidade

Dulcinéa

22% entre comissões, tarifas, taxas, sem falar da mensalidade, parece um pouco demais.
É os sebos têm estoque e não podem colocar mais de 4 exemplares.
Parece apenas uma forma de ajudar alguém a ficar rico.
Por onde andará “Aquele” que fundou o site fechou as livrarias?