Levei amigos e amores ao Kabanas; pois é: o bar-restaurante do Setor Bueno fechou

Lá levei as tantas namoradas muitas vezes. Elas se foram, o Kabanas permaneceu. Quando a minha carcaça ainda aguentava maratonas etílicas, era a minha segunda casa

Marcelo Franco

O Kabanas do Bueno está encerrando as atividades.

Lá levei as tantas namoradas muitas vezes. Elas se foram, o Kabanas permaneceu. Quando a minha carcaça ainda aguentava maratonas etílicas, era a minha segunda casa. Foi lá que também levei o amigo F., sofrido de amor que ele estava, para chorar uma separação: “Todos dizem que logo passa, mas só passa mesmo depois de piorar bastante. Então beba.” E bebemos durante a tarde, chegamos à noite e varamos a madrugada. Eu e o B., outro amigo, lá nos encontramos com ex-namoradas que eram amigas entre si e resolveram nos procurar de novo. Não deu certo, claro, mas ganhamos outra passagem no nosso currículo comum de tantos anos fazendo juntos o trajeto de nossas vidas. Outras vezes, quando o restaurante fechava, ainda bebíamos — eu e o B. de novo — uma última no parque, jogando comida para os patos e conversa fora. Alguns diriam que lá desperdiçamos parte da vida, mas sempre pergunto: onde está a vida daqueles que a guardaram num cofre?

Com muitos amigos eu já almocei e jantei no Kabanas, nas mais diversas fases da minha vida. Há um livro novo no mercado sobre a “história do ar”, ou algo assim, e nele se afirma que o último suspiro de Júlio César ainda está no mundo, justamente por ser ar. Se assim for, as risadas — muitas — que demos no Kabanas ainda continuam no mundo, todos aqueles registros de alegrias que tivemos, alegrias que suturavam as cicatrizes que a vida inevitavelmente nos lega.

É estranha a nossa identificação com espaços — na verdade, é o que neles fizemos que deixa marcas, e talvez voltemos a eles como quem volta a tempos mais felizes. Talvez, talvez. Por isso confesso: de tempos em tempos ainda volto à rua da minha infância, onde, como um detetive de filme americano, recolho pedaços de mim com pinças e luvas. Dói e reconforta, se é que me entendem.

Fui imensamente feliz em todas as vezes em que estive no Kabanas — minha sacolinha plástica indevassável de investigador ficaria cheia de mementos se eu retornasse àquela casa de madeira, mesmo que agora fechada.

Fazer o quê? Tudo muda no diabo desta vida…

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.”

Foi mesmo uma coisa tremenda, esse Kabanas do Bueno. E é mesmo um tipo tremendo, esse nosso Bolivar Gonçalves Siqueira.

Marcelo Franco é crítico literário.

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Allysson Falcon

Belo texto, deu sede de tomar aquele chopp gelado no saudoso Kabanas… A casa marcou minha vida, foi a minha primeira experiência em Goiânia, em 2004… na primeira vez em que pisei na cidade um amigo me apresentou o Kabanas… adorei aquele visual bucólico… por uma extrema felicidade, nesse mesmo dia, alguns chopps depois, conheci minha namorada, que se tornou esposa e me fez deixar SP e me mudar para GO… O Kabanas tinha um padrão de alta qualidade que não faria feio nem em Sampa… frequentei o bar e o aconchegante restaurante… vivemos momentos fantásticos ali… Depois acabei conhecendo… Leia mais