Euler de França Belém
Euler de França Belém

Leonencio Nossa lança livro sobre Roberto Marinho, o Sr. Globo

Chega às livrarias uma obra que mostra a história do dono de “O Globo” e da TV Globo, o empresário que mandou nos políticos e melhorou a imprensa

O jornalista Pedro Bial publicou a hagiografia “Roberto Marinho” (Zahar, 390 páginas) em 2004, há quinze anos. O livro não chega a ser ruim e pelo menos reúne informações dispersas sobre o mais poderoso homem de imprensa da história do país — acima de Assis Chateaubriand. Chatô parece mais poderoso possivelmente devido ao fato de ser espalhafatoso — enquanto o criador de “O Globo” e da TV Globo era reservado. A obra serve, portanto, de andaime para outros trabalhos.

Quais os principais problemas da pesquisa de Pedro Bial? Primeiro, o autor não deu conta da “enormidade” da personagem — com suas nuances e contradições. Segundo, se entendeu com precisão o que Roberto Marinho — espécie de PRI da imprensa patropi — fez, durante anos, não conseguiu ou não pôde mostrá-lo. Terceiro, por ser funcionário da Globo, falta-lhe independência para a elaboração de um trabalho efetivamente crítico e distanciado. O indivíduo sai da leitura acreditando que, mais do que um grande homem, Roberto Marinho era um deus — vá lá, semideus.

Roberto Marinho (1904-2003) viveu quase cem anos, durante todo o século 20, e contribuiu para melhorar o jornalismo de seu país, qualificando-o em vários campos (impresso, televisão, rádio e digital) e pagando os melhores salários do mercado (o que possibilitou a ampliação do profissionalismo de suas equipes). Conspirou contra governantes e contribuiu para derrubar o presidente João Goulart, em 1964. Apoiou a ditadura de maneira decidida e sem recuo (o “recuo” se deve aos filhos). De algum modo, comportou-se como uma espécie de primeiro-ministro numa República que quase todo o tempo foi presidencialista.

Roberto Marinho e o presidente Castello Branco | Foto: Reprodução

Primando pela qualidade, Roberto Marinho sempre procurou manter ao seu lado os melhores profissionais do mercado, como Evandro Carlos de Andrade, diretor de redação de “O Globo” e, depois, diretor de Jornalismo da TV Globo. Os escritores Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende participaram de sua equipe de profissionais.

Não li mas entra para a minha lista penelopiana “Roberto Marinho: O Poder Está no Ar — Do Nascimento ao Jornal Nacional” (Nova Fronteira, 576 páginas), de Leonencio Nossa. Pelo número de páginas, parece se tratar de um trabalho (relativamente) exaustivo.

Leonencio Nossa, diferentemente de Pedro Bial, não pertence aos quadros do Grupo Globo e, portanto, tem (mais) independência para avaliar a ação de Roberto Marinho tanto no jornalismo quando na política e no mundo empresarial. Independência, no caso, não equivale a “xingar” ou falar “mal” por falar. Há uma tendência a se execrar o “Doutor” Roberto, por vários motivos — como o apoio à ditadura de 1964 e, quem sabe, por ter sido tão bem-sucedido —, mas a missão de um pesquisador, biógrafo ou não, é expor as nuances da verdade. Possivelmente é o que faz o repórter categorizado que é Leonencio Nossa.

Não há livros e biografias definitivas a respeito de nenhum grande (médio ou pequeno) homem. Mas obras amplas dependem de levantamentos preliminares, de pesquisas de base. O trabalho de Leonencio Nossa deve ser um avanço em relação ao de Pedro Bial, até por não ser uma hagiografia, mas certamente, para uma compreensão mais ampla de um personagem tão gigante, será preciso a publicação de vários outros livros (por exemplo, sobre o negócio Globo em si, o que um trabalho de economia pode explicar de maneira mais detalhada e esclarecedora. Por que deu certo onde tantos falharam?)

Os sites das livrarias apresentam uma sinopse, possivelmente de autoria da Editora Nova Fronteira (que foi criada por Carlos Lacerda, político e jornalista que conspirou com o criador do império Globo): “‘Roberto Marinho: O Poder Está no Ar’ mergulha na vida do criador do maior império de comunicação da América Latina, o brasileiro mais poderoso de seu tempo. Ao herdar na juventude um jornal criado havia 23 dias pelo pai, Marinho buscou a sobrevivência do negócio que sustentava a mãe viúva e os irmãos menores. Era véspera da ditadura Vargas. Teve de aprender logo a se movimentar num Rio de Janeiro de agentes da repressão, espiões estrangeiros, militares afoitos, agitadores da direita e da esquerda, capitalistas em formação, lobistas, dançarinas de cassinos e compositores dos primeiros sambas. Aos 60 anos, criou a TV Globo sem apoio dos irmãos. Quando levou ao ar o ‘Jornal Nacional’, a 1º de setembro de 1969, tinha vivido bem de perto 18 golpes ou tentativas de tomada à força dos palácios do governo. Uma aventura épica para erguer e expandir, nas ventanias da instabilidade, a obra que até hoje desperta sentimentos distintos entre os brasileiros. Com documentos inéditos colhidos em arquivos do país e do exterior e depoimentos de figuras dos bastidores que por décadas se mantiveram em silêncio, o livro descreve a intimidade do biografado e o Brasil da transição do rural para o urbano, tempo de sucessivas rupturas das regras do jogo político”.

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