A rede atendia aeroportos, como o de Congonhas, e ficou no mercado por 71 anos

Um mago teria dito que, quando uma livraria fecha as portas, o Diabo acende uma vela no Inferno e lágrimas caem das faces dos anjos no Céu. Por certo, é o único momento em que Lúcifer e os anjos “compartilham” alguma coisa. A Livraria Laselva fechou as portas na terça-feira, 6. Restavam, das 83 lojas dos tempos áureos, apenas quatro unidades — duas no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, uma em Fortaleza e uma em Recife. O juiz Marcelo Barbosa Sacramone, de São Paulo, decretou a falência da rede que, durante décadas, atendeu leitores nos aeroportos do país e noutros locais, como o Shopping Iguatemi e a Daslu.

A Laselva, com dívidas de 120 milhões de reais, pediu recuperação judicial em 2013. No entanto, não conseguiu atender os credores — dado o valor, tido como impagável, das pendências.

A administradora do processo de recuperação judicial, Joice Ruiz, do escritório Satiro e Ruiz Advogados Associados, afirma que a Laselva não vinha cumprindo os prazos de pagamentos concedidos pelo plano estabelecido na Justiça. Os credores anunciaram que estavam sendo prejudicados — daí a confirmação da falência pela Justiça.

A falência era anunciada, mais do que anunciada.

71 anos no mercado

O empresário Onófrio Laselva fundou a Laselva em 1947 — há 71 anos. Os exigentes, talvez com certa razão, dirão: a empresa vinha sendo mal administrada. Mas manter uma livraria por tanto tempo, num país com um número de leitores ainda pequeno, não é nada fácil. Portanto, uma lágrima para a Laselva, que, ainda que não fosse um primor, era uma livraria. O que são as livrarias senão templos dos pagãos (e também dos religiosos)?

Ser livreiro no Brasil é um ato heroico.