A emissora está no ar há um mês e repete na TV a mesma fórmula governista utilizada no rádio e na internet

Ex-ministro Ricardo Salles e a bancada do “Morning Show”, programa da Jovem Pan News | Foto: Reprodução

No ar há um mês como TV por assinatura, a Jovem Pan News já mostrou a que veio: ser o veículo mais abertamente bolsonarista na comunicação de massa. Não por acaso, a JP tem espaço cativo para conhecidos defensores de Jair Bolsonaro e seu governo. Na grade da nova emissora é possível encontrar, por exemplo, o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, o qual protagonizou instantes insólitos no programa Morning Show, na quarta-feira, 24.

Participavam do programa, com ele, o apresentador Paulo Mathias e os comentaristas Joel Pinheiro, Adrilles Jorge e Zoe Martinez. Dos três comentaristas, apenas Joel não é bolsonarista. Adrilles e Zoe, ao contrário, se tornaram celebridades nos grupos de apoio do presidente e, a partir dessa posição, foram alçados à Jovem Pan, para compor o que o dono da nova rede, Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, chamou de “TV um pouco mais opinativa”.

Respondendo a uma questão sobre a entrada de Sergio Moro na política eleitoral, provavelmente como concorrente de Bolsonaro nas eleições de 2022, Salles “deu na canela” do ex-colega de ministério. “A política [de Sergio Moro] é a política da dissimulação, da traição. O cara aceitou ser político, aceitou ser ministro do Bolsonaro sabendo que não tinha nada a ver com o governo. Ele é de esquerda, é contra as armas, a favor de drogas. O Moro é comunista, lógico que é comunista”, disparou.

Imediatamente, os colegas de programa reagiram, às risadas. Chamar Moro de “comunista” pareceu algo sem noção até mesmo para os bolsonaristas do programa, que não medem palavras para defender o presidente e atacar seus adversários. Zoe falou em “centro-esquerda” e Salles emendou com o termo “tucano”.

O detalhe mais interessante foi para a expressão facial do ex-ministro do Meio Ambiente durante a discussão acalorada sobre a posição de Sergio Moro no espectro ideológico: um semblante de quem sabia que estava dizendo uma bobagem e fazendo uma provocação, acreditando tanto nas próprias palavras como na possibilidade de a Amazônia não sofrer com as queimadas porque é úmida.

A concessão pública de TV para a Jovem Pan foi alvo de muita controvérsia, com disputas judiciais e políticas até que a situação se resolvesse. De qualquer forma, a emissora hoje está claramente a serviço do governo, como uma extensão da Secretaria de Comunicação.

A respeito de Ricardo Salles, uma curiosidade irônica: ele foi para o governo Bolsonaro após ter sido secretário do tucano Geraldo Alckmin, em São Paulo.