Euler de França Belém
Euler de França Belém

José Aldo parece repetir a “síndrome” de Júnior Cigano

“Mexer” na cabeça, superando a obsessão de que devem ser campeões a qualquer custo, talvez possa restaurar a autoestima dos dois lutadores

Há campeoníssimos que não podem perder uma luta que ficam desestabilizados. Parece ser o caso dos brasileiros Júnior Cigano (Júnior dos Santos Almeida, de Santa Catarina) e José Aldo (José Aldo da Silva Oliveira Júnior, manaura).

Fragmentos de Júnior Cigano

Júnior Cigano começou muito bem, demolindo todos os adversários, até sagrar-se campeão incontestável dos peso-pesados. Derrotou até o poderoso americano Cain Velásquez.

Parecia que o reinado de Júnior Cigano não seria breve. Mas bastou perder a revanche para Cain Velásquez para o lutador desmoronar. Perdeu a primeira e a segunda de maneira acachapante.

Cai Velásquez e Júnior Cigano: luta devastadora

Depois das duas derrotas para Cain Velásquez, Júnior Cigano nunca mais foi o mesmo. Antes, era um lutador ofensivo, de boxe afiado. O boxe bastava-lhe para derrotar os oponentes. Seu jiu-jítsu é como o Curupira: todos sabem que “existe” (as aspas não são aleatórias), mas ninguém nunca viu. O brasileiro se tornou um atleta defensivo, talvez seguindo orientação de treinadores, e nunca mais venceu um lutador de ponta de maneira convincente. Stipe Miocic fez o que quis com o corpo do brazuca.

Júnior Cigano piorou e os adversários melhoraram muito? Stipe Miocic está sempre numa forma extraordinária, parece, até, meio-pesado lutando como peso-pesado. O camaronês Francis Ngannou, que atropelou o holandês Alistair Overeem, dará trabalho na categoria. Só tem dois páreos: Cain Velásquez e Stipe Miocic.

Júnior Cigano e Stipe Miocic

O nível de Júnior Cigano não está muito abaixo do de Stipe Miocicm, Cain Velásquez e Francis Ngannou. Mas há alguma coisa na cabeça do lutador patropi que, quando entra no octógono, o faz pensar que é “inferior” aos rivais (sobretudo quando o oponente é um pouco mais agressivo).

Não recomendo mais treinos, porque a forma de Júnior Cigano é inquestionável, e sim, quem sabe, um psicólogo ou psicanalista (não há necessidade de medicamentos). Fica-se com a impressão de que o homem, como sinônimo de lutador, desconstruiu-se (ou foi descontruído) a partir de certo momento. Aos 33 anos, jovem ainda, Júnior Baiano tem condições de reunir seus “fragmentos” e voltar a ser um grande atleta. Aliás, é um grande atleta, o que falta é gana para se tornar, mais uma vez, um grande campeão. Não me surpreenderei com uma possível volta por cima, embora saiba que é muito difícil.

Fragmentos de José Aldo

José Aldo e Halloway: o brasileiro perdeu duas vezes

Não há a menor dúvida: José Aldo é um dos maiores lutadores de MMA. Observe-se que se usa “é” e não “era”. Aos 31 anos, é um grande campeão. Perdeu o título, mas não a majestade. É provável que, com a cuca em ordem (ou uma desordem iluminada), “reconstruída” por umas sessões de análise (que não são mágicas, claro), volte a ser campeoníssimo.

Tudo começou com Conor McGregor, “discípulo” de Muhammad Ali. O boxeador americano ganhava dos adversários primeiro fora do ringue. Falando o tempo inteiro, sugerindo que iria nocautear os rivais, quando entrava no ringue já era meio vencedor e seus oponentes meio-derrotados. Aconteceu assim com George Foreman, no Zaire, em 1974. Foreman tinha uma pegada fenomenal, mas era unidimensional — como Júnior Cigano, que, no chão, não luta muito bem — e acabou perdendo para um atleta mais completo e complexo.

McGregor não é tão extraordinário quanto Muhammad Ali — e mesmo Anderson Silva nos seus melhores momentos — mas usa suas táticas e estratégias para vencer duelos fáceis e difíceis. Deu certo contra José Aldo (mas não contra Floyd Mayweather, mas lutou no campo do americano, o boxe). No período pré-luta, o irlandês falastrão atacou o brasileiro de todas as maneiras, num amplo processo de intimidação. Poderia não ter dado certo, mas deu. Por que, exatamente, não sei. A timidez de José Aldo pode tê-lo afetado?

O fato é que José Aldo entrou no octógono irritado e, sobretudo, abalado. Abriu a guarda e foi nocauteado no primeiro round. Desde então, deixou de ser o José Aldo intimorato, que não temia ninguém e lutava bravamente. Tornou-se mais defensivo, passou a chutar menos. Há quem diga que passou a ter medo. Não é o caso. Não se trata de medo, e sim de receio de que, se for agressivo, pode ser nocauteado, e logo no início da luta. Precisa ser menos “afoito”, por assim dizer. Talvez seu treinador esteja dizendo que é preciso mais cautela em disputa de título (parece que estão cometendo o mesmo erro com a grande Amanda Nunes, que, na última luta, parecia tudo — menos Amanda Nunes. Excesso de orientação para lutadores excepcionais pode acabar piorando seu desempenho, deixando-o perdido no octógono).

Em seguida, José Aldo perdeu para Max Holloway, que, sim, é um lutador extraordinário, mas não tão superior ao brasileiro. Eles são parecidos, inclusive na agressividade, mas o americano parece mais astuto e, principalmente, confiante.

Na primeira luta, Holloway percebeu que José Aldo queria (e precisava) vencer a qualquer custo, mas estava cauteloso. O havaiano sacou seu nervosismo, sentiu que faltava poder ofensivo (embora o brasileiro tenha acertado golpes contundentes) partiu para o ataque e acabou vencendo.

Na segunda luta, José Aldo parecia cansado já no primeiro round. Estava? Não. Há lutadores que treinam tanto que ficam estressados e, no octógono, comportam-se como se estivessem cansados. Os apresentadores e comentaristas do canal Combate — Luciano Andrade é hors concours, supera até os comentaristas que são lutadores — costumam sugerir que o “psicológico” de alguns atletas pode contribuir para derrotá-los. Eles têm razão: quando a “cachola” não está bem, menos focada na luta e mais pensando que não se pode perder de maneira alguma, é muito difícil ganhar. Parece que isto acontecendo está com o ensimesmado José Aldo.

Observando o corpo de José Aldo, a maneira como luta, percebe-se que está em forma. Mas, se a cabeça não estiver legal, não dá para ganhar de lutadores que de fato são muito bons como McGregor e Holloway.

José Aldo deve se aposentar? De maneira alguma. Mesmo que não volte a ganhar título, poderá fazer grandes lutas. As melhores lutas de MMA nem sempre são aquelas em que há título de campeão em jogo. A luta de José Aldo e Holloway no sábado, 2, não foi a melhor do dia. Pelo menos duas lutas foram bem melhores.

Àqueles que recomendam mais treinos, e até a mudança de técnicos, fica a sugestão de que, como assinalam os narradores e comentaristas do Combate, talvez seja mais eficaz examinar o “psicológico” de José Aldo. Uma cabeça mais leve, menos obcecada com títulos, pode ajudar o atleta a restaurar sua autoestima. Ele é grande. Só precisa entender que as três derrotas não o destruíram…

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