Jornais, revistas, emissoras de televisão e portais — a mídia — escarafuncham a vida de pessoas e empresas, às vezes de maneira implacável, com relativa frequência. Há sempre um problema a apontar, uma ressalta negativa a destacar. Porém, quando se trata de escancarar os próprios problemas, são de uma discrição ímpar. Na semana passada, ao comentar um processo movido pela jornalista Veruska Donato, a TV Globo informou que “não comenta ações judiciais em curso”. Como se sabe, ações judiciais em curso de outras empresas e indivíduos não são tratadas com o mesmo decoro. Seria o caso de sugerir que, na casa do ferreiro, o espeto é de pau?

No processo judicial, Veruska Donato cobra uma indenização de 13 milhões de reais. A jornalista relata que trabalhou 21 anos na Globo, entre 2000 e 2021. Primeiro, com carteira assinada, e, em seguida, pelo sistema de pessoa jurídica.

Embora fosse contratada como pj, de acordo com sua versão, Veruska Donato trabalhava da mesma maneira que outros funcionários contratados com base na CLT. A chamada pejotização é, no geral, um forma de empresas não pagaram impostos e terem menos compromissos trabalhistas e sociais com seus funcionários. Mas, a rigor, são trabalhadores como quaisquer outros. Era o caso da repórter, segundo ela.

Por ter síndrome de Burnout, Veruska Donato tirou licença para tratamento de saúde. Cinco dias depois de voltar ao trabalho, foi demitida — o que contraria a legislação, que garante estabilidade de um ano para trabalhadores que solicitam licença devido a doença ocupacional.

Há uma outra questão que não envolve apenas a Globo: a exigência de um modelo, digamos assim, de beleza que exclui pessoas gordas e mesmo nem tão gordas. Há uma pressão para que os profissionais sejam magros e jovens. É provável que algumas demissões, em empresas de comunicação, tenham a ver com a idade das pessoas, portanto com a beleza “perdida”. Competência e experiência — que quase sempre garantem mais qualidade ao jornalismo — nem sempre contam. Porém, me parece que ao menos na Globonews há uma certa distensão: há uma mescla de jornalistas mais velhos com mais novos — o que tem sido positivo. Há excelentes comentaristas com mais de 60 anos — como Jorge Pontual (74 anos), Mônica Waldvogel (68 anos, sempre precisa), Miriam Leitão (69 anos, além de comentarista de primeira linha, é uma repórter excepcional), Eliane Cantanhêde (70 anos), Demétrio Magnoli (65 anos). Os citados estão plenamente lúcidos e contribuem, no dia a dia, para manter a qualidade da GloboNews em alta. Hoje, prefiro acompanhar o jornalismo do canal por assinatura do que o “Jornal Nacional”, que, fora algumas reportagens especiais — quase todas de bom nível —, costuma ser o primeiro a chegar atrasado.

Durante anos, quem assistisse os telejornais brasileiros, ficava com a impressão de que o Brasil era um país apenas de brancos. O quadro está mudando: agora há mais repórteres e apresentadores negros, ainda que brancos ainda sejam hegemônicos. Maju Coutinho está no “Fantástico”, depois de ter passado pelo “Jornal Hoje”, e Aline Midlej, com um esplender de simpatia, apresenta o “Jornal das Dez” da GloboNews, que antes era apresentado por Heraldo Pereira, também negro. Parece visível que há uma política para incluir pessoas negras nos telejornais da Globo, tanto na reportagem quanto na apresentação (que é uma espécie de elite do jornalismo, dados os melhores salários e maior exposição).

No processo, Veruska Donato assinala que Cristina Piasentini, quando diretora de Jornalismo da Globo, enviou um e-mail com recomendação de que deveria usar “roupas comportadas” para evitar a exposição de “barrigas persistentes” e “estômagos avantajados”. Portanto, a jornalista, de 45 anos, teria sido vítima de etarismo, discriminação pela idade. A Globo contesta: “Não existe nenhuma orientação nesse sentido para nossos profissionais”. Pode ser que, sob orientação de advogados, a “norma”, exposta no email, tenha sido descontinuada.