Elder Dias
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Editor-executivo

Jornalismo e sacerdócio: livro de autor goiano expõe a interação desafiadora entre duas vocações

“Entre a fé e os fatos”, do padre e jornalista Rafael Vieira, mostra os dilemas vividos ao lidar com a comunicação religiosa em meio à hierarquia da Igreja

Rafael Vieira, jornalista e padre, expõe seus dramas internos no livro “Entre a fé e os fatos” | Foto: Rodolpho Carvalhaes / Divulgação

Numa animada roda de conversa sobre um assunto relacionado à Igreja Católica, um amigo jornalista quis me apresentar àqueles que não me conheciam na turma e, num misto de constrangimento e de revelação de segredo, saiu-se coma seguinte declaração sobre mim: ‘”u não sei se ele é um padre querendo ser jornalista ou um jornalista que se meteu a ser padre”. Sem querer, ele resumiu meu grande dilema existencial numa profissão e numa vocação.

O trecho acima é a introdução de Entre a fé e os fatos – histórias e conflitos de um padre que se tornou jornalista sem abandonar a batina (Máquina de Livros, Rio de Janeiro, 160 páginas), livro mais recente – e talvez o mais confessional – de Rafael Vieira, sacerdote redentorista ordenado aos 25 anos e profissional da comunicação desde cinco anos antes.

A Congregação do Santíssimo Redentor, a que se filiam os redentoristas, têm como uma de suas áreas de atualização na evangelização exatamente a comunicação social. No Brasil, os religiosos – sacerdotes e irmãos consagrados – são responsáveis por veículos como a TV Aparecida – sediada em Aparecida do Norte (SP), mas de alcance nacional –, a TV Pai Eterno (Trindade) e a Rádio Difusora AM, de Goiânia. Vários dos seus membros são também jornalistas de formação, como é o caso de Rafael Vieira.

Goiano de Mozarlândia, a 300 quilômetros de Goiânia, ele já sentia as duas vocações desde adolescente. Para se tornar padre, cursou Filosofia e Teologia, momento em que pediu permissão para fazer também a faculdade de Comunicação. Já aos 20 anos atuava na comunicação, pela Rádio Difusora, emissora católica voltada para o radiojornalismo e que já pertencia à congregação desde 1971.

Sua vida, como sacerdote e jornalista, pode ser dividida entre três “cidades base”: Goiânia, Brasília e Roma, mais precisamente no país que fica dentro da capital italiana – o Vaticano. Em todas as três, fez “de um tudo” em ambas as vocações. Durante muito tempo, entre a década de 1980 e a primeira deste século, integrou a equipe da Rádio Difusora Goiânia AM, da qual foi diretor de 2002 a 2009. Antes disso, havia sido integrante da equipe da Rádio Vaticano e, depois, foi assessor de comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília. Atualmente, pela TV Pai Eterno, ele exerce o papel de apresentador do programa Parlatório, em que entrevista personalidades nacionais do mundo político, artístico e acadêmico.

O livro é dividido e nominado, em seus cinco primeiros capítulos, de acordo com as etapas da produção jornalística – Pauta, Apuração, Redação, Edição e Publicação. Os dois últimos, Confessionalidade e Degredo, têm um caráter ainda mais próximo dos desafios da interação entre jornalismo e Igreja.

Em cada página há muito de revelação pessoal, como não poderia ser diferente em um livro que quer mostrar como são os conflitos internos entre duas dimensões, dois ofícios que teimam, muitas vezes, em intimidar um ao outro: afinal, como cobrir fatos, ser jornalista “da” e “na” Igreja Católica, com suas tradições milenares, sua hierarquia e suas normas de conduta, especialmente para o clero, diante do imediatismo comunicacional, notadamente neste século em que a informação circula em tempo real?

Em cada passagem de seu escrito, percorrendo várias cidades e países, com autoridades, personalidades e/ou celebridades diversas, Rafael Vieira conta historietas que mostram sua situação por vezes inusitada, por vezes desconfortável mesmo, com um entrevistado, um episódio, um fato inesperado. Padres e jornalistas – e seus colegas padres jornalistas – com certeza se identificarão em muitas delas.

O prefácio foi escrito por Gerson Camarotti, um dos destaques da cobertura política nacional pelo grupo Globo, especialmente na GloboNews. Comentarista do programa Em Pauta, no horário nobre do canal por assinatura, Camarotti ganhou notoriedade ao conseguir, em 2013, a primeira entrevista exclusiva mundial com o papa Francisco, então recém-eleito ao pontificado, durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio, em julho daquele ano. A aproximação com o padre Rafael Vieira se deu meses antes, na preparação para o conclave que escolheria o cardeal argentino Jorge Bergoglio como o primeiro pontífice sul-americano e para o qual ele foi um enviado da emissora.

Entre a fé e os fatos terá lançamento na quarta-feira, 27, em Brasília, na Livraria da Travessa (Shopping CasaPark) e no dia seguinte na capital goiana, no Museu de Arte de Goiânia, ambos a partir das 19 horas. “O livro é fruto de uma vontade antiga de esmiuçar os dilemas que me acompanham como padre e jornalista, sobretudo quando cubro algum assunto relacionado à fé, à religião ou especificamente à Igreja Católica”, resume Rafael Vieira.

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