Quarenta e sete anos… era a média de vida no século 19. No século em que viveram Hegel, Schopenhauer, Marx e Nietzsche, além de escritores como Dostoiévski e Machado de Assis (ambos epilépticos), não havia antibióticos e tantos outros medicamentos salvadores e prolongadores da vida.

Quarenta e sete anos… é quase meio século. Muito tempo, portanto.

No longínquo ano de 1975 (Ivan Lessa escreveu que, de quinze em quinze anos, o Brasil esquece os últimos quinze anos), depois de examinar uma série de jornais analíticos, como o “Opinião” (sobretudo) e o “Movimento” (fundado em 75), o jornalista Herbert de Moraes Ribeiro — que os mais próximos chamavam de Betinho (por sinal, ele não se entusiasmava com este diminutivo “de” Herbert) —, percebeu uma oportunidade.

José Maria e Silva, Patrícia Moraes, Jorge Taleb, Euler de França Belém, Nion Albernaz, Herbert de Moraes Ribeiro, Nanci Melo, Abadia Lima e Rogério Lucas | Foto: José Afonso/Jornal Opção

Herbert queria fazer um jornal parecido mas não igual ao “Opinião”. Parecido no sentido de ter uma equipe de jornalistas de primeira linha, que não fossem apenas “ajuntadores de fatos” — como ele se expressava nas reuniões de pauta (nas quais dizia que “a nível de”, “desempenho”, “racha”, “membro” eram palavras vetadas. Uma vez, ligou, bravíssimo, e disse: “Quem deixou sair essa história do ‘racha da deputada’?”) —, mas sobretudo analistas que soubessem conectá-los e, daí, apresentar um quadro amplo do que realmente estava acontecendo à luz do dia e, também, nos bastidores (onde quase tudo acontece e nem sempre é reportado). Ele costumava falar também sobre os colaboradores do jornal dirigido por Fernando Gasparian e editado por Raimundo Pereira — que Herbert admirava, em especial porque, além de entender de política, sabe muito de economia. Entre os colaboradores, o jornalista e economista, goiano de Rio Verde, costumava mencionar Antonio Candido, Antonio Callado, Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort (apreciava citar seu livro sobre populismo), Celso Furtado, Hélio Jaguaribe, Paulo Francis, Millôr Fernandes.

Darcy Ribeiro entrevistado, na redação do Jornal Opção, por Euler de França Belém e José Maria e Silva | Foto: José Afonso/Jornal Opção

“Opinião” era um jornal de esquerda, às vezes caminhava para o centro, sobretudo fustigava a ditadura (de 1972 a 1977). Herbert, pelo contrário, queria lançar um jornal mais plural, com espaço para todas as correntes, sem discriminá-las por razões ideológicas. A vida toda ele teve suas posições político-ideológicas, mais de centro, porém nunca impediu que opiniões diversas fossem publicadas. Porque sua ideia sempre foi a de fazer um jornal aberto, avesso à patrulha ideológica (frise-se que a abriu as páginas do jornal para a defesa da Anistia). Ele dizia, com frequência, que, se a tolice — com seu “tolicionário” — precisava ser contida, a inteligência deveria ser incentivada. Por isso decidiu que sua equipe precisava de jornalistas com formação intelectual ampla. Chegava a recomendar livros, como “Os Donos do Poder — A Formação do Patronato Político Brasileiro”, de Raymundo Faoro, e “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber. Ele não concebia jornalista que não lesse e não tivesse formação histórica. (Herbert, por sinal, gostava de ser visto mais como jornalista do que como empresário, e era leitor de Marx, o de “O Capital”. Kant e Nietzsche também eram lidos com atenção pelo intelectual. Lembro-me de ele recomendar o filósofo francês Gerard Lebrun como explicador de Kant. “Porque”, insistia, “Kant não é para amadores e diletantes”.)

Márcia Elizabeth, Helvécio Cardoso, Sebastião Nery, Euler de França Belém e José Luiz Bittencourt | Foto: Reprodução

Nos primeiros tempos do jornal pontificaram jornalistas, na redação ou como colaboradores, de primeira linha, como Anatole Ramos (escritor), Carlos Alberto Sáfadi (levou parte da equipe para o “Diário da Manhã”, o que desagradou Herbert), Antônio José de Moura (mais tarde, consagrado como escritor), Jayro Rodrigues, Luiz Carlos Bordoni, José Luiz Bittencourt Filho (excelente editor), Haroldo de Britto, Daura Sabino (colunista social) e Marco Antônio da Silva Lemos (que, em seguida, se tornou magistrado em Brasília. Herbert contava que só entregava os textos, brilhantes, mediante pagamento imediato). Mais tarde, assumiram a redação Euler de França Belém, José Maria e Silva, Afonso Lopes, Rogério Lucas, Cezar Santos, Marcio Fernandes, Britz Lopes, Léo Alves, Luiz Sérgio dos Santos, Abadia Lima, Rosane Lousa, Rodrigo Czepak, Edivaldo Cardoso, Robson Macedo, Guillermo Rivera (hoje, diplomata, radicado em Buenos Aires), Helvécio Cardoso, Laila Navarrete, Andréia Bahia, Miguel Jorge (primeiro editor do suplemento Opção Cultural), José Luiz Bittencourt, Sebastião Abreu, A. C. Scartezini (correspondente em Brasília, egresso da revista “Veja”), Lourival Batista Pereira (LBP), Helton Lenine, Clarissa Bezerra, Vitor Hugo Queiroz, Heloiza Amaral, Sici Adriana, José Afonso (repórter fotográfico),João Spada (na diagramação), Márcia Abreu, Danin Júnior, Clarissa Bezerra, Carlos Willian Leite, Augusto Diniz, Felipe Cardoso, Gonçalo Palácios (filósofo equatoriano e professor da Universidade Federal de Goiás, era colunista), Luís Estevam (economista, um dos principais colaboradores), Frederico Vitor Oliveira, Alexandre Parrode, Sarah Teófilo, Marcelo Gouveia e tantos outros.

Marcos Aurélio, Aline Bouhid e PH Motta: editores do Jornal Opção | Foto: Jornal Opção

Com sua dedicação e eficiência exemplares, Nanci de Melo, mulher de Herbert, era a diretora financeira e administrativa. (Nanci foi minha parceira quando colocamos computadores na redação e guardamos as máquinas de escrever. Um jornalista mais velho, não me lembro se Sebastião Abreu, chegou a chorar e tive de devolver, constrangido, a sua máquina Olivetti. Ele queria até pôr cadeado no teclado da máquina para ninguém usá-la. O mais entusiasmado com a informatização do jornal foi Herbert, que lia livros sobre o assunto e conversava com frequência com ases da computação, como Willian Barbacena e Adonai Andrade. Os dois garotos foram importantes para a formatação do jornal digital)

A equipe atual (em seus vários afazeres) é constituída por Aline Bouhid (editora do Online), Andréia Rocha (a faz tudo da equipe, há quase 30 anos), Cilas Gontijo (estagiário de jornalismo, está se tornando um articulista de alta qualidade), Eduardo Marques, Elder Dias (editor), Euler de França Belém (editor), Fabrício Vera, Fernando Leite (repórter fotográfico), Italo Wolff, Marcos Aurélio (editor), Nielton Santos, Patrícia Moraes (editora-responsável e proprietária), Pedro Moura, Hélio Rocha (colunista), PH Mota (editor do Online), Selma Inácio da Silva (nossa bem-humorada auxiliar geral), Stéfany Fonseca, Vilma Barbosa (secretária, há 25 anos no jornal), Irapuan Costa Junior (colunista), Jorge Jacob (colunista), Salatiel Soares Correia (resenhista), Mariza Santana (crítica literária), Nilson Jaime (colunista), Bento Fleury (colunista) e Gyovana Carneiro (colunista).

Eduardo Marques, PH Motta, Andréia Rocha, Nielton Santos, Marcos Aurélio, Vilma Barbosa, Pedro Moura, Selma Inácio, Cilas Contigo e Italo Wolff: parte da equipe atual do Jornal Opção | Foto: Jornal Opção

O detalhe é que o Jornal Opção criou um “conceito” na redação: a rigor, do ponto de vista da produção jornalística, não há a figura clássica do editor. Quer dizer, todos são repórteres e produzem tanto reportagens quanto artigos. Com o surgimento da internet, o Jornal Opção, que era semanário — Herbert dizia: “Nosso hebdomadário” —, se tornou diário. Então, a figura do editor-redator praticamente foi desaparecendo (antes, durante bom tempo, eu e José Maria e Silva perdíamos um tempão reescrevendo as reportagens; resultado: demorávamos a fechar a edição — era uma longa jornada madrugada adentro) e os repórteres escrevem direto no word press e, de imediato, postam seus textos (eles próprios fazem a edição e a diagramação). As correções são feitas, no geral, posteriormente, e não antes. Às vezes, um editor liga para um repórter (como Stéfany, que trabalha à noite), por exemplo às 23 horas, e pergunta sobre uma reportagem. A (ou o) jornalista responde: “Acabei de postar. Dê uma olhada”. É assim: o jornal não para (em outubro, o jornal obteve uma audiência de 8 milhões de acessos únicos). A produção contempla os sete dias da semana. Aline e PH — com o apoio de Marcos Aurélio, o guerreiro da redação, altamente eficiente, diplomático e maduro) —, com bom humor e competência, estão sempre “correndo” (de acordo com Eduardo Marques, “correndo atrás dos fatos, que são velocistas”). São editores e, ao mesmo tempo, repórteres. São adeptos da tese de que só há uma profissão no jornalismo — a de repórter. Editor é cargo.

Leitores às vezes perguntam: e a edição impressa? Pois sim: ainda existe e é publicada aos domingos, em média com oito ou doze páginas. Trata-se de uma edição analítica e, claro, está inteira na internet. O jornal é inteiramente free, nada cobra dos leitores.

A transição jornalístico-empresarial que deu certo

Há um aspecto pouco realçado quando se fala da transição do comando do jornal-empresa Jornal Opção. Herbert e Nanci (memória viva do jornal) são pais de três filhos: Ludmila Melo (médica bem-sucedida em São Paulo), Herbert Moraes Júnior e Patrícia Moraes Machado.

Herbert Moraes Júnior estudou Jornalismo em São Paulo e trabalha na TV Record há quase duas décadas (e foi colunista do jornal por vários anos), tendo sido um brilhante correspondente internacional em Israel por 15 anos. Ou melhor, em praticamente todo o Oriente Médio. Ele fez reportagens na Jordânia, Israel, Palestina, Líbia, Egito (chegou a ferir a mão durante a Primavera Árabe), Iraque, entre outros. Patrícia Moraes se formou em Jornalismo em São Paulo (estagiou no célebre “Notícias Populares”, uma máquina de produzir sensacionalismo e ótimos jornalistas, vários deles aproveitados na redação da “Folha de S. Paulo”) e fez estágio no “El País”, o mais importante jornal da Espanha e dos mais relevantes da Europa.

Ao voltar para Goiânia, Patrícia Moraes trabalhou como repórter e articulista. Herbert percebeu, de cara, que a continuidade do jornal dependia de a jovem profissional assumir a empresa como um todo. Aos poucos, ele foi se afastando e repassando a direção para a filha, ainda bem jovem.

Graças à decisão perceptiva de Herbert, que soube fazer a transição na hora certa, colocando Patrícia Moraes no comando, como diretora e editora responsável, o Jornal Opção nunca teve problema com sua ausência — ele faleceu em 2016, aos 73 anos. O jornal continua firme sobre a batuta de Patrícia Moraes, com o meu apoio e o de Marcos Aurélio, Elder Dias, Aline Bouhid e PH Motta.

Roberto Marinho era visto mais como o dono todo-poderoso do Grupo Globo (jornal “O Globo”, Rádio Globo e TV Globo). Entretanto, no fundo, era mais do que isto: vários furos de reportagem foram dados pelo repórter que no fundo o decano jamais deixou de ser. Com Patrícia Moraes ocorre algo semelhante. Ela cuida da empresa como um todo, ou seja, do aspecto financeiro ao jornalístico. Passa furos, sabe quase tudo o que está ocorrendo — e, quando não sabe, pergunta para os repórteres e editores — e articula politicamente com mestria. É das jornalistas mais atentas e ágeis que se conhece — uma verdadeira workaholic. E é exigente com a qualidade do texto e da apuração. Herbert várias vezes disse a um editor de sua satisfação pelo fato de a filha ter se tornado uma jornalista completa e, ao mesmo tempo, uma empresária de sucesso. Ela é tão pragmática quanto o pai, talvez até mais — e com uma percepção dos fatos surpreendente.

Hoje, o Jornal Opção é um dos veículos com mais audiência em Goiás e com repercussão nacional. Ao adicionar uma cobertura factual ampla, com a publicação diária de furos de reportagem — influenciando outros veículos (sua coluna Bastidores é um “deleite”, digamos assim, para as rádios e blogs de Goiânia e do interior) —, o jornal não deixou de manter sua capacidade analítica. Herbert apreciava falar de Raul Seixas e da “metamorfose ambulante”. Pois o Jornal Opção é assim: está sempre mudando, mas mantendo a sua principal identidade: a capacidade de analisar os fatos, conectando-os e, deste modo, publicando textos que contribuem para os leitores entenderem o que realmente está acontecendo e, assim, poderem se posicionar de maneira mais precisa. O Jornal Opção não tem o mínimo interesse em “fazer cabeças”. O que ele quer mesmo é ajudar os leitores a pensarem pela própria cachola e, daí, a fazerem seus próprios julgamentos. E “julgar”, como sugeriu a filósofa Hannah Arendt, é fundamental. Só não julga quem receia colocar seu dedo na história.

Livro e as entrevistas históricas do Jornal Opção

Jorge Amado, com Zélia Gattai, é entrevistado pelos jornalistas José Maria e Silva e Euler de França Belém e pelo advogado Pedro Sérgio dos Santos | Foto: José Afonso/Jornal Opção

Em 2025, o Jornal Opção completará 50 anos. Patrícia Moraes encomendou ao jornalista e escritor Iúri Rincon Godinho uma história — uma biografia, por assim dizer — do jornal. A rigor, o material jornalístico pode render vários livros (um deles só com suas entrevistas históricas).

De cara, Iúri Godinho ficou impressionado com a quantidade e qualidade das entrevistas publicadas pelo jornal. “Cara, é um verdadeiro tesouro inexplorado”, disse, entusiasmado.

José Sarney é entrevista por José Maria e Silva, Nasr Chaul e o então senador Demóstenes Torres | Foto: Jornal Opção

Foram entrevistados por seus repórteres: Darcy Ribeiro (que aconselhou um dos meus colegas de redação a bater panelas nas ruas, em sinal de protesto contra o governo e as iniquidades sociais), Jorge Amado (Zélia Gattai, ao perceber que eu conhecia a história do PCB, disse a Jorge: “É um dos nossos”. Não era, claro. Mas meu pai, Raul Belém, de fato era), Pedro Ludovico, Iris Rezende, Bernardo Élis (numa delas, disse que chegara a pensar em suicídio), Francisco de Britto, Luiz Costa Lima, Ely Camargo, Jarbas Silva Marques (guerrilheiro que resistiu à tortura), Isabel Câmara (a escritora e dramaturga que o jornal redescobriu em Goiás), William Agel de Mello (diplomata que traduziu a poesia completa do espanhol García Lorca), João Cezar de Castro Rocha, Carmo Bernardes, José J. Veiga, Bariani Ortencio, Irapuan Costa Junior, A. C. Scartezini, José Sarney, Manuel Porfírio (filho do famoso deputado e líder da Revolta de Trombas Zé Porfírio), Sebastião Nery (revelou que Fernando Henrique Cardoso era pai de um filho da jornalista Miriam Dutra; mais tarde, um exame de DNA comprovou que Tomás não era filho de FHC), Antônio Duarte dos Santos (oito páginas na edição impressa; ele, militar da Marinha, foi o responsável pela politização do Cabo Anselmo, com o qual rompeu. Viveu décadas na Suécia), Consuelo Nasser (uma entrevista bombástica, publicada em duas edições), FHC (entrevistei-o no Japão, na presença de Erivan Ribeiro, então secretário de Indústria e Comércio de Goiás), Mauro Borges (concedeu ao jornal talvez sua entrevista mais longa), Washington Novaes, capitão José Wilson da Silva (o Tenente Vermelho, que tentou fazer João Goulart reagir em 1964. Curiosamente, quando liguei o gravador, José Wilson ligou o dele), coronel da Aeronáutica Pedro Cabral (da Guerrilha do Araguaia), José Dirceu (talvez a primeira em que falou abertamente sobre sua vida em Cuba), Zezinho do Araguaia (a primeira grande entrevista do sobrevivente da Guerrilha do Araguaia), Siron Franco (a mais longa entrevista do pintor que encanta o país e o mundo). E há dezenas de outras, como uma de Olavo de Carvalho, na época em que era mais filósofo do que panfletário.

O Jornal Opção completou 47 anos na quarta-feira, 22.