Euler de França Belém
Euler de França Belém

Jornal Nacional fez a melhor cobertura do caso Fabrício Queiroz

O que o jornalismo da maior rede de televisão do país está mostrando é que o submundo e a política do Rio de Janeiro se tornaram uma coisa só

Leitores escrevem e perguntam: “A cobertura do ‘Jornal Nacional’ a respeito da prisão de Fabrício Queiroz não foi excessiva?” Parece, mas não foi. Pelo contrário, poucas vezes uma rede de televisão cobriu tão bem um fato, de maneira tão exaustiva e precisa.

Flávio Bolsonaro, senador, e o militar aposentado Fabrício Queiroz : uma amizade estranha e que precisa mais bem explicada pelos dois| Foto: Reprodução

O “JN” deu a história da prisão, explicou que Queiroz é mesmo um homem-bomba, exibiu a história do advogado do presidente Jair Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro, Frederick Wassef (parece apreciar a história do violento mafioso de “Scarface”, mas falta-lhe a inteligência e a discrição do “conselheiro” Tom Hagen, personagem de outro filme, “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola). Está mostrando a conexão dos “negócios” de Queiroz com os “negócios” do senador pelo Rio de Janeiro. No lugar de expor opinião, a Globo conectou fatos, mostrou entrevistas, por exemplo aquela concedida a Andreia Sadi, na qual Wassef disse que não sabia de Queiroz, quando o ex-primeiro-amigo de Flávio Bolsonaro estava escondido em sua casa, em Atibaia, São Paulo.

É provável que Wassef, de “Anjo”, pode acabar se tornando “Lúcifer” — uma montanha no meio do caminho — tanto para Jair Bolsonaro quanto para Flávio Bolsonaro.

A Globo fez jornalismo, inclusive ouvindo as partes contrárias, quando quiseram se explicar. Deu um banho na concorrência e, certamente, ecoou a opinião da maioria dos brasileiros. Os adeptos de Bolsonaro certamente não apreciaram, mas muitos deles, fanatizados, talvez nem percebem direito o que está ocorrendo nos bastidores. Bastidores que, cada vez mais, estão vindo à tona. A preocupação de Bolsonaro com a Polícia Federal sugere, mais uma vez, que não tem a ver com razões de Estado, e sim motivos familiares. Mas não dá para controlar todas as polícias, e inclusive a PF, cujos profissionais são sérios e obedecem à lei, e não acatam pressões, nem mesmo do presidente da República.

Frederick Wassef: advogado de parte da família do presidente Jair Bolsonaro e ex-protetor de Fabrício Queiroz | Foto: Reprodução

Há um detalhe que a imprensa explorou, mas não muito bem. O fato de o presidente Jair Bolsonaro aparecer confusa (parece ter perdido as orientações) e imediatamente, para tentar defender Queiroz, tachando sua prisão de “espetaculosa” — na verdade, todos os ritos legais foram cumpridos —, deixa-o mal. Por que um presidente da República decidiu defender um homem envolvido com o submundo do crime? Claro que a defesa de Queiroz é mais uma forma de proteger Flávio Bolsonaro. Mas a instituição Presidência da República não é o indivíduo Jair Bolsonaro — a distinção precisa ser feita, e com urgência. A instituição Presidência não pode servir para proteger coisas aparentemente “escusas”, para sugerir que são “limpas”.

Frise-se que as denúncias não foram “criadas” ou “inventadas” pela Globo. A maior rede do país está apenas reportando os fatos, da maneira mais clara possível. Parte da imprensa patropi, ao longo da história, operou para ser o sorriso do governo e a cárie da sociedade. A Globo está se tornando a cárie do governo e o sorriso da sociedade. O mundo mudou, e muito, mas várias pessoas, e não só os bolsonaristas fundamentalistas — com sua irracionalidade premeditada —, continuam raciocinando por modelos mentais antiquados.

Queiroz vai falar? Vai falar o quê? Se falar, dependendo do que falar, daqui a pouco o clã Bolsonaro e sua militância de estimação vão começar a chamá-lo de “mentiroso” e “canalha” — “#Queiroz lixo!”. Entretanto, mesmo que não abra o bico, o “rastro” do dinheiro, que pouco a pouco vai sendo apontado, vai revelar muita coisa sobre o cruzamento do submundo com a política no Rio de Janeiro. Aliás, submundo e política se tornaram “irmãs gêmeas” no Estado. São uma coisa só. Os Bolsonaro trabalham para “devastar” o governador Wilson Witzel, mas, no processo, podem acabar se “destruindo”.

Frise-se que, até o momento, não há nada que desabone Jair Bolsonaro, do ponto de visto ético — em termos de corrupção —, mas o presidente precisa entender que não pode e não tem como “encobrir” possíveis malfeitos de Flávio Bolsonaro. Os militares, decentes e sempre pensando como estadistas — é raro o militar, quando preparado, que não tem certa grandeza —, não embarcarão em nenhuma aventura golpista para “salvar” envolvidos em corrupção.

Uma resposta para “Jornal Nacional fez a melhor cobertura do caso Fabrício Queiroz”

  1. Euler Belém continua afiado. Bem afiado. Parabéns, caro ex chefe de redação, editor… Minha mente simplória de diagramador sofrível e vida atribulada, aliada à falta de educação de qualidade sempre me mantiveram à margem segura da intelectualidade que sempre, sempre quis. Agora é tarde. Fracassei. Mas gosto de admitir pra mim mesmo que poderia ter sido melhor. Me alivia saber que, em certas ocasiões e pensamentos, tenho bom gosto. Oloares citou você no programa jornalístico que apresenta com sucesso merecido. Você não será esquecido! Cotovelo protegido e carinhoso pra você! Para uma pessoa com um cérebro tão privilegiado só desejo o melhor para sua família e vida longa e feliz para você! Meu apelido: Fumanchu.

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