Jornal francês revela a história do jornalista que espionou para comunistas da Tchecoslováquia

O francês Jean Clémentin espionou para o serviço secreto tchecoslovaco, do lado soviético, por 12 anos, de 1957 a 1969

Candice Marques de Lima

Especial para o Jornal Opção

Jean Clémentin na capa do “L’Observateur” | Foto: Reprodução

O jornal francês “L’Observateur” conta com exclusividade a história do espião e jornalista do hebdomadário “Canard Enchaîne” Jean Clémentin, baseado em 1500 páginas de arquivos secretos que se tornaram públicos recentemente.

O francês Jean Clémentin espionou para o serviço secreto tchecoslovaco, do lado soviético, por 12 anos, de 1957 a 1969, e parou somente depois que percebeu que estava sendo observado por um carro perto de sua casa por várias horas. No jornal satírico “Canard Enchaîne”, ele utilizava o pseudônimo de Jean Manan, mas era também chamado por seus colegas de trabalho de Tintin. Clémentin trabalhou nesse jornal até 1989.

Para o serviço secreto era importante recrutar jornalistas espiões do lado ocidental, para recolher informações confidenciais e preparar operações, especialmente em Paris, por causa da Otan. Clémentin tinha boas relações em diferentes ministérios, como com o exército francês. Também havia entrevistado Jawaharlal Nehru (1889-1964), o primeiro-ministro indiano, e conhecia pessoalmente Bao Dai (1913-1997), ex-imperador do Vietnã, e membros do Sdece, o serviço secreto francês.

Jean Clementin: jornalista e espião do serviço secreto tcheco | Foto: Sophie Bassouls/Sygma via Getty Images)

O codinome de Clémentin no StB era Pipa, que significa “torneira” em tcheco. Em 12 anos de serviço secreto, Clémentin deu por volta de 300 informações para o StB, além de produzir notícias falsas e publicá-las no jornal a pedido do serviço de espionagem tcheco. Chegou a ser enviado a Londres pelo serviço secreto em busca de informações. E o dinheiro que recebeu possibilitou que comprasse uma casa em Meudon, uma região burguesa da capital francesa.

O ex-espião ainda é vivo e tem 98 anos, mas não quis dar declarações ao “L’obs.”. O jornal entrou em contato com seu filho, Bruno Clémentin, que teria dito que conversaria com o pai a respeito. Mas, no dia seguinte, informou que essas informações dos anos 1960 não interessariam a ninguém.

A primeira operação de desinformação, como diz o serviço secreto, de Pipa foi em 1963 e se chamava Narciso. Tinha o objetivo de causar divisões dentro do CDU, o partido conservador da Alemanha Ocidental.  O alvo seria o ex-chanceler Konrad Adenauer (1876-1967).  A forma que encontraram foi de produzir um falso testemunho político de Adenauer a favor dos franceses. Para isso, enviaram Clémentin-Pipa a Bonn, na Alemanha, onde uma suposta fonte teria lhe entregue o documento.

Assim, no dia 19 de setembro, um agente entregou a Clémentin no Café Pasteur o falso testemunho e as diretrizes de Praga. Após alguns dias, Clémentin foi a Bonn para fazer um acordo com Franken, de um jornal local. Quando retornou a Paris, Pipa submeteu um primeiro rascunho de seu artigo ao agente secreto para aprovação de Praga.

Assim, no dia 2 de outubro de 1963, com o título “O testamento do meu Konrad”, assinado por Jean Manan, foi publicado no “Canard Enchaîne” o texto que seria como um longo memorando, uma espécie de testamento político em terceira pessoa, com informações críveis por quem conhecia Adenauer, para o novo chanceler Ludwig Erhard (1897-1977), também do CDU.

Em Bonn, Franken também publicaria as mesmas informações, acreditando serem verdadeiras. Clémentin também tentou convencer seu amigo Jacques Nobécourt, do “Le Monde”, um grande especialista em Alemanha, mas foi em vão.

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