Euler de França Belém
Euler de França Belém

Jornal das Dez vai “despertar” o grande jornalista que Heraldo Pereira é

Dado o formato do Jornal Nacional, ele não teve chance de expor todas as suas qualidades. Na GloboNews terá mais espaço para analisar os fatos

Heraldo Pereira brilhou como repórter e apresentador do “Jornal Nacional” e agora vai emprestar seu talento ao “Jornal das Dez”

O novo apresentador do “Jor­nal das Dez” (da GloboNews), Heraldo Pereira, passa a impressão de que é tímido. Talvez até seja. Mas isto, se verdadeiro, não o atrapalha em nada. Formado na melhor “escola” do jornalismo, a dos repórteres que se formam trabalhando, trata-se de um jornalista sério, até sisudo demais, e bem informado sobre assuntos variados.

Se ocorrer uma pane no teleprompter, um apresentador comum, com escassa experiência e formação inadequada, certamente passará por um vexame se não for retirado do ar a tempo. Heraldo Pereira certamente não “engasgará” porque, dado seu preparo (inclusive intelectual), terá condições de narrar a notícia e, até, comentá-la. Ele entende com precisão aquilo que está dizendo aos telespectadores, porque não é mero leitor de teleprompter.
O “Jornal Nacional” criou uma escola da seriedade absoluta, com apresentadores glaciais — mais parecidos com alemães ou suecos —, mas está mudando aos poucos. Altamente profissional, de uma disciplina espartana, Heraldo Pereira seguiu o modelo, do qual William Bonner — disparado, o melhor apresentador da tevê patropi — é o principal representante.

Entretanto, o próprio William Bonner principia a romper com o modelo, chegando a brincar com Renata Vasconcellos — os dois começam a ter alguma sinergia, depois de um período de tensão e mal-estar — e com Maria Júlia Coutinho (Maju), a “moça do tempo” que também se tornou apresentadora no “Jornal Hoje”, como substituta, aos sábados, dos titulares.

Se William Bonner começa a se soltar, às vezes de maneira desajeitada, Heraldo Pereira permanece sisudo, durão, impoluto. Às vezes, olhando de longe, fica-se com a impressão de que se trata de um personagem. Mas não é. Porque o jornalista não é um robô; pelo contrário, é competente e apresenta as notícias com a maior correção e seriedade. Os telespectadores percebem o quão é confiável.

Não se deve confundir o “Jornal das Dez” com o “Em Pauta”, no qual o apresentador Sérgio Aguiar brinca muito com os participantes — Guga Chacra, Bete Pacheco, Sandra Coutinho, Eliane Cantanhêde, Gerson Camarotti (talvez o grande repórter do programa), Mônica Waldvogel (autora de comentários pertinentes em várias áreas, inclusive economia — apesar da voz com certa “tremura”) e Jorge Pontual (o mais elegante e criativo; chega a traduzir poemas). O “Em Pauta” é estruturado de maneira a conceder mais liberdade aos participantes — o que cria intimidade e interação entre eles e os telespectadores. O programa debate, instrui e, também, diverte. É uma graça, mas é sério.

O “Jornal das Dez” é um telejornal e exige um comportamento diferente — mais ponderado e sem espalhafato. Mesmo assim, com mais liberdade, e até tempo, Heraldo Pereira terá condições de apresentar e comentar as notícias, debatendo-as com outros jornalistas, como Merval Pereira, Cristiana Lobo, Natuza Nery e João Borges, entre outros. Sem deixar de ser profissional, o formato do jornal, que permite análises e críticas mais contundentes, contribuirá para “despertar” o jornalista inteligente e versátil que Heraldo Pereira é (nas suas memórias, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso diz que o jornalista é inteligente, e o sociólogo, quase sempre maledicente, inclusive a respeito de jornalistas, é econômico nos elogios).

Aos 56 anos, Heraldo Pereira vai aprender fazendo o “Jornal das Dez” — quem deixa de aprender morre em vida — e ensinar às novas gerações de jornalistas. É craque.

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