Não há a menor dúvida de que as mudanças globais, que transformaram a comunicação, pegaram nós, jornalistas e empreendedores da comunicação, mais ou menos de surpresa. Veja-se o caso da TV Globo — e não só dela, é claro.

A Globo não tem mais a audiência de outrora e isto não tem nada a ver com a queda de qualidade — porque o grau de excelência da rede tem sido mantido — ou com a “briga” com o ex-presidente Jair Bolsonaro e o bolsonarismo, que, a rigor, são detalhes, e menos importantes do que muitos imaginam. É provável que, numa galeria de presidentes como Rodrigues Alves, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva, Bolsonaro ganhe um rodapé, quiçá com a seguinte informação: “Bolsonaro foi o presidente que quis, mas não conseguiu ser ditador”.

Pintura de Tommy Ingberg

A audiência da Globo caiu porque as comunicações — como, de resto, tudo no mundo — mudaram. Antes, há pouco tempo, o mundo chegava à nossa porta por intermédio da Globo e dos jornais que mantinham correspondentes no exterior. Hoje, com a internet e outras vias, o mundo chega à casa dos brasileiros praticamente sem intermediários.

Então, com “excesso” de informações e entretenimento — um verdadeiro assédio —, além das redes sociais, que capturam parte da atenção do público, os meios de comunicação tradicionais continuam relevantes, dada a seriedade do que divulgam, mas perderam audiência e leitura. Não é que ficaram para trás, como comumente se sugere, e sim que a competição cresceu.

Na dura batalha por audiência e leitura, as emissoras de televisão e os jornais, mesmo os melhores e os seriíssimos, têm de, diariamente, ceder ao “vulgar”. Têm mesmo? Se quiserem audiência, são compelidos a publicar notícias, digamos assim, popularescas.

Pintura de Igor Morski

Jornais que publicarem só coisas sérias, por exemplo a respeito de política, acabarão ficando para trás, em termos de audiência. Podem manter a credibilidade, por causa da confiabilidade do que publicam, mas o mercado começará a comentar que está perdendo terreno.

Portanto, o desafio, o grande desafio, é manter a qualidade — com um jornalismo analítico, que saiba conectar e interpretar os fatos —, mas cedendo, aqui e ali, às notícias sobre celebridades e, sim!, escândalos. O conflito entre o ex-casal Luana Piovani e Pedro Scooby é de uma chatice ímpar, mas não sai dos jornais. Alguém sai perdendo? Talvez ninguém, exceto os fanáticos por este tipo de briga que parece mise-en-scène típica dos novos tempos. A guerra entre Jojo Todynho e o ex-marido Lucas Souza ganha um novo capítulo diariamente, com o real e o irreal se misturando de tal forma que não se sabe o que é “verdade” e o que é “publicidade”. Quanto mais exposição, mais seguidores e, quem sabe, mais dinheiro.

Se você acha que dá para escapar do “vulgar” — daquilo que não se gosta, mas se costuma olhar e até ler —, então não deve se preocupar com audiência. Jornais que almejam publicar só coisas “sérias”, de amplo interesse público, devem se contentar com uma audiência baixa ou relativamente baixa.

Pintura de Costa Pinheiro

Sugiro que o leitor deste texto faça um pequeno teste. Levante-se cedo e observe os jornais e revistas sérios durante o dia, ou pelo menos em parte do dia. Por certo, perceberá que as notícias sérias — a respeito do PIB e da Reforma Tributária — ganham destaque, as manchetes, mas poderá verificar que o material de apoio, para render audiência, tem a ver com algumas reportagens, em geral curtas, que são sensacionalistas ou beiram ao sensacionalismo. “Veja”, “Folha de S. Paulo”, “O Estado de S. Paulo”, “O Globo”, “Correio Braziliense”, “Zero Hora”, Metrópoles, entre tantos outros, persistem respeitáveis, com a prevalência do jornalismo de primeira linha.

Mas as notícias policiais — algumas sem pé nem cabeça (comumente, não se menciona nem o nome dos criminosos e das vítimas, e, quando questionados, os repórteres culpam a polícia, que não forneceu os dados básicos. E este é um problema: a polícia está fazendo o trabalho que, antes, era dos repórteres) —, sobre animais, notadamente gatos e cachorros, a respeito de plásticas “milagrosas”, maratonas, grupos de ciclistas e cidades e “refúgios” turísticos (apresentados como edênicos) ganham cada vez mais espaço. Por quê?

Pintura de Wilfredo Lam

Porque rendem leitura, muita leitura (há repórteres especializados em “caça-cliques”), e, às vezes, puxam leitores para outras matérias, as ditas sérias. Na semana passada, um advogado conceituado criticou o Jornal Opção por ter dado espaço a um neto de Iris Rezende que foi aprovado no vestibular para Engenharia. Na opinião do profissional do Direito o que se publicou como notícia não o era. Pois bem: a reportagem resultou num acesso impressionante. Noutras palavras, os leitores definiram a matéria como de interesse público. Textos sobre animais (cachorros e gatos “sorridentes”, baleias, golfinhos, papagaios falantes, aves raras, cobras, sobretudo as imensas sucuris) — “fofos”, como se diz — invariavelmente resultam em acesso gigantesco (na casa dos milhares, às vezes milhões).

Aqueles que vivem no passado, que são prisioneiros do “velho” e do moralismo, sem entender a diversidade dos tempos atuais, vão continuar cobrando que os jornais publiquem “só coisas sérias”, de “amplo interesse público”. Mas tais pessoas não poderão cobrar acesso ampliado. Me incluo entre os que avaliam que é preciso destacar aquilo que é realmente de interesse público, ainda que o grande público se preocupe mais com escapismo. Porém, a duras penas, tenho sido convencido que é preciso abrir espaço para aquilo que, se não nos agrada, é apreciado pelos leitores. Eu e Patrícia Moraes, como editores do jornal, estamos sempre conversando a respeito: sobre manter a qualidade editorial e ampliar o acesso, mas sem perder a especificidade do Jornal Opção, que é analisar os fatos e apresentar um quadro geral, mais compreensível, para os leitores.

O jornalismo mudou. Está mudando. E vai mudar muito mais. E talvez fique até pior. Mas acredito que é possível manter a qualidade — como o caráter analítico de alguns textos (não todos) e reportagens factuais mais bem pesquisadas e escritas — e, ao mesmo tempo, abrir algum espaço para o mundo do espetáculo.

O que não se pode, e isto é crucial, é permitir que o espetaculoso (e a “recortagem”) domine toda a linha editorial dos jornais. Aí, sabemos, a imprensa, a séria, morrerá. Por mais que alguns avaliem que imprensa e entretenimento se tornaram “hermanos”, é preciso “recuar” e não aceitar o caráter totalizante deste tipo de interpretação. Assim, é inaceitável a ideia, ainda não dominante, de que os textos devem ser, todos eles, superficiais e cópias fiéis uns dos outros. O que não se pode é excluir, em nome da seriedade editorial, assuntos mais amenos, como “refúgios” turísticos, peixes “estranhos” e textos sobre crianças e animais “fofos”. Quem deixar de lado aquilo que atrai o interesse dos leitores ficará para trás, de maneira irremediável.