Euler de França Belém
Euler de França Belém

Joe Biden sabe que o maior “inimigo” dos EUA são os chineses e não os terroristas

O Afeganistão drenava recursos americanos e oferecia quase nada em troca. O democrata quer investir dinheiro no fortalecimento da economia americana

Xi Jiping e Joe Biden: os presidentes da China e dos Estados Unidos brindam de maneira civilizada (a realidade pode ser conferida na pintura abaixo) | Foto: Reprodução

Os Estados Unidos passaram anos caçando inimigos — “terroristas” — no Iraque e no Afeganistão, entre outros países. Torraram bilhões de dólares nesta guerra inglória e sem vencedores. É provável que o republicano Donald Trump tenha sido eleito presidente da terra da prosadora Joyce Carol Oates por ter se apresentado como “isolacionista” — “a América para os norte-americanos” — e por “rosnar” contra a China. Para muitos americanos, talvez a maioria, o país não tem de ser “polícia do mundo” e se envolver em guerras que, na prática, não são suas. As batalhas punitivas, como a perseguição implacável aos membros da Al-Qaeda — responsável pelo atentado às torres do World Trade Center, em que morreram milhares de pessoas —, ganhou o aplauso dos “filhos” da nação da poeta Marianne Moore. Entretanto, quando as lutas continuaram, sem um fim aparente, os americanos passaram a manifestar seu descontentamento — daí, sublinhando, Donald Trump. (Vale sublinhar que os democratas às vezes são tão falcões quanto os republicanos.)

Afeganistão sacrificado no altar da economia

Porém, se Donald Trump começou a preparar a retirada dos soldados do Afeganistão, o que teria feito se tivesse sido reeleito, o seu rosnado para a China não funcionou. O país de Mo Yan continua crescendo e ameaçando a hegemonia americana. Daí os americanos decidiram trocar o republicano pelo soft power do democrata Joseph Robinette Biden Jr., o Joe Biden, de 78 anos. Os americanos entenderam que, contra a China de Xi Jinping, de 68 anos, não basta rosnar e arrotar valentia à John Wayne e soldados invernais da Guerra Fria.

Joe Biden é um político realista, dos mais pragmáticos, e sabe que, para além das ações politicamente corretas — como ter uma mulher negra na vice, Kamala Devi Harris, de 56 anos, e combater o racismo (uma causa, evidentemente, tão coletiva quanto universal) —, é preciso recuperar a economia americana e mantê-la como a primeira do mundo. O líder democrata, por certo, não vai aceitar — se estiver ao seu alcance — que a China supere os Estados Unidos durante o seu governo. Por isso, anunciou um pacote de investimentos de trilhões de reais para alavancar a economia americana. Economistas ortodoxos postulam que aumentará o rombo fiscal. Mas os empresários sabem que, na prática, Joe Biden está tentando “salvar” o capitalismo americano para os capitalistas e para todos os ianques (que, claro, não são mais só os nortistas). Ao contrário do que alguns brasileiros parecem pensar, o político de Delaware nada tem de esquerdista. É um liberal com laivos socialdemocratas.

Pintura de Jeff Christense

A batalha contra a China é dura — a tecnologia 5G é uma faceta, quiçá a mais mencionada — e, no momento, os Estados Unidos, embora sejam o país mais rico e poderoso do mundo, começa a perdê-la. O governo de Joe Biden precisa concentrar recursos para fortalecer a economia americana, para mantê-la competitiva contra a China e também contra a União Europeia (sobretudo a Alemanha). Reduzir custos, como os “investimentos” — a, rigor, a “fundo perdido” — no Afeganistão, com a tentativa de implantação de uma espécie de democracia, para ampliar o crescimento econômico e robustecer o setor tecnológico, é crucial para os Estados Unidos e para o sucesso do governo do Partido Democrata.

Pode-se sugerir que Joe Biden sacrificou o Afeganistão no altar da expansão da economia americana. O presidente não é mau, não é bom, nem é mais ou menos. É um realista, e, insistindo, dirigente de um Império que não quer perecer. Questões humanitárias são importantes para parte significativa dos americanos, como intelectuais, e mesmo para Joe Biden. Mas a preocupação é manter o Império estável e forte. Para tanto, é preciso de dinheiro (capital). No governo, e entre o povo, há quem postule que os Estados Unidos estavam jogando dólares fora no país dos afegãos.

Terceira Guerra Mundial é econômica

O livro “A Caminho da Guerra — Os Estados Unidos e a China Conseguirão Escapar da Armadilha de Tucídides?” (Intrínseca, 411 páginas, tradução de Cássio de Arantes Leite), de Graham Allison, professor de Harvard, é uma excelente introdução ao que está acontecendo no momento.

Allison afirma que, ao longo da história, a potência hegemônica e a potência emergente acabam por levar as disputas comerciais e militares ao campo da guerra. A potência dominante quer manter o status quo. A potência emergente quer ocupar o seu lugar. Daí a guerra. É possível escapar da “armadilha”? É, afirma Allison, mas não é fácil. Joe Biden é leitor do mestre de Harvard e disse dele: “Allison é um dos mais perspicazes observadores das relações internacionais”. O historiador Niall Ferguson escreveu: “Graham Allison é um mestre da história aplicada. Tenham certeza de que os líderes chineses vão ler seus alertas sobre a Armadilha de Tucídides. Gostaria apenas de ter a mesma segurança quanto aos líderes norte-americanos. Todos os cidadãos bem-informados deveriam ter um exemplar.” Ferguson é professor da Harvard e leciona numa universidade chinesa.

Há quem acredite que a China é mera produtora de bugigangas, dessas que são encontradas nos camelódromos e lojas de todas as cidades. Mas não é bem assim. “A China viu sua parcela de valor agregado global em produtos de alta tecnologia aumentar de 7% em 2003 para 27% em 2014. A participação americana nesse mercado declinou de 36% para 29%. No campo da robótica, em 2015 a China não só registrou o dobro de pedido de novas patentes como também aumentou em duas vezes e meia o uso de robôs industriais em sua força de trabalho. A China é hoje líder mundial na fabricação de computadores e semicondutores e equipamentos de comunicações, bem como produtos farmacêuticos”, registra Allison. “Em 2015, a Universidade Tsinghua passou o MIT no ranking do U. S. News & World Report e virou a universidade número um do mundo em engenharia. Das dez principais faculdades de engenharia, quatro estão na China e quatro estão nos Estados Unidos. (…) Trezentos mil alunos chineses anualmente estudam em instituições americanas.” Deste investimento em educação resulta que a tecnologia chinesa é equivalente à americana, às vezes superando-a.

Afegãos tentam escapar do regime totalitário do Talibã | Foto: Reprodução

Alisson informa que “o supercomputador mais veloz do mundo não é encontrado no Vale do Silício, e sim na China. No ranking dos quinhentos supercomputadores mais rápidos do mundo, 167 são da China, dois a mais que os Estados Unidos. O melhor supercomputador chinês é cinco vezes mais rápido do que o computador americano que mais se aproxima dele”.

No lugar de se impor pela força, no sentido militar, a China está construindo uma hegemonia por intermédio da economia. “A China vem demonstrando um domínio único na utilização de instrumentos rígidos de ‘poder brando’”, assinala Allison. O país “é o maior parceiro comercial de mais de 130 países”.

Em 2015, a China criou seu próprio Banco Mundial, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura. Mais de 50 países — inclusive a Inglaterra, o maior aliado dos americanos — aderiram ao AIIB. “Eles disseram não aos Estados Unidos e sim à China na espera de obter empréstimos a taxas abaixo do mercado e financiamentos em contratos para grandes projetos de construção. Seus incentivos eram claros: antes mesmo da criação do AIIB, o Banco do Desenvolvimento da China havia ultrapassado o Banco Mundial como maior financiador de projetos de desenvolvimento internacional.”

Tentativa de fuga no aeroporto de Cabul, no Afeganistão | Foto: Reprodução

Lee Kuan Yew (1923-2015), que foi primeiro-ministro de Singapura, escreveu: “A China está absorvendo os países do Sudeste Asiático em seu sistema econômico graças a seu vasto mercado e crescente poder de compra. Japão e Coreia do Sul inevitavelmente também serão sugados. Ela simplesmente absorve os países sem ter de recorrer à força”.

Com um inimigo como a China, batendo à porta, sugerindo que está “invadindo” tudo — como “bárbaros-civilizados” —, os Estados Unidos de Joe Biden estão descartando aqueles, digamos, penduricalhos que drenam dólares de sua economia sem um retorno financeiro correspondente.

Nada é mais triste do que o lamento e o desespero dos afegãos — sobretudo das mulheres, as mais discriminadas e vilipendiadas — em relação ao regime totalitário do Talibã. A China possivelmente nada fará, pois estaria acordada com o novo regime, desde que impeça ações terroristas na sua fronteira e tem interesse em explorar cobre no país vizinho. A Rússia, entusiasmada com a “fuga” americana, talibanizou-se. Resta à União Europeia socorrer os afegãos. Mas a Europa é sempre lenta em suas decisões. Se o Talibã não se tornar valhacouto para a Al-Qaeda — que já estaria ajudando o novo governo —, garantindo a paz com os Estados Unidos, o governo de Joe Biden, fora a ajuda humanitária tradicional, certamente não fará interferência alguma no Afeganistão. Porque, repetindo o que se disse acima, o problema do país da excelente poeta Louise Glück não está no Afeganistão, no Iraque (os Estados Unidos derrubaram Saddam Hussein, que, bem ou mal, mantinha o país sob equilíbrio, sem incomodar o país de Abraham Lincoln, e o “entregaram” aos xiitas, que são aliados do Irã e não têm simpatia pelos americanos e por Israel) e Síria. Está na China da ótima escritora Xinran Rue. É provável que, daqui a cinquenta anos, o mundo estará falando mandarim, como segunda ou terceira língua, atrás apenas do idioma local e do inglês da Inglaterra e dos Estados Unidos… É praticamente certo, se não houver um cataclismo, que o século 21, tendo começado americano, terminará chinês…

À espera dos bárbaros
Poema de Konstantinos Kaváfis

— Que esperamos reunidos na ágora?

É que hoje os bárbaros chegam.

— Por que tanta abulia no Senado?

Por que assentam os Senadores? Por que não ditam normas?

Porque os bárbaros chegam hoje.

Que normas vão editar os Senadores?

Quando chegarem, os bárbaros ditarão as normas.

— Por que o Autocrátor levantou-se tão cedo

e está sentado frente à Porta Nobre da cidade

posto em seu trono, portanto insígnias e coroa?

Porque os bárbaros chegam hoje.

E o Autocrátor espera receber

o seu chefe. Mais do que isto, predispôs

para ele o dom de um pergaminho. Ali

fez inscrever profusos títulos e nomes sonoros.

— Por que nossos dois cônsules e os pretores saíram

esta manhã com togas rubras, com finos bordados de agulha?

Por que essas braçadeiras que portam, pesadas de ametistas,

e os anéis dactílicos lampejando reflexos de esmeralda?

Por que ostentam hoje os cetros preciosos,

esplêndido lavor de cinzel, amálgama de ouro e prata?

Porque os bárbaros chegam hoje,

e toda essa parafernália deslumbra os bárbaros.

— Por que nossos bravos tributos não acodem

como sempre, a blasonar seu verbo, a perorar seus temas?

Porque os bárbaros chegam hoje,

e eles desprezam a oratória e a logorreia.

— Por que de repente essa angústia,

esse atropelo? (Todos os rostos de súbito sérios!)

Por que rápidas se esvaziam ruas e praças

e os antes reunidos retornam atônitos às casas?

Porque a noite chegou e os bárbaros não vieram.

E pessoas recém-vindas da zona fronteiriça

murmuram que não há mais bárbaros.

E nós, como vamos passar sem os bárbaros?

Essa gente não rimava conosco, mas já era uma solução.

(Tradução de Haroldo de Campos)

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