Euler de França Belém
Euler de França Belém

Maio de 68 está na moda, mas dá pra revelar o Brasil sem Machado de Assis e Guimarães Rosa?

Os autores de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Vidas Secas e Grande Sertão: Veredas tornaram o Brasil contemporâneo da Alemanha, da Inglaterra e dos Estados Unidos

Os três livros contribuíram para forjar um novo Brasil, ao menos em termos culturais; há pouco, na literatura internacional, comparável aos romances de Machado de Assis, de Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa

Os brasileiros deveriam comemorar três datas — vá lá, de joelhos. São três revoluções que influenciam e definem a cultura nacional. Primeiro, 1881, ano da publicação do romance “Me­mó­rias Póstumas de Brás Cu­bas”, de Machado de Assis. A alta literatura patropi nasce com este livro, digamos, modernizador da nossa prosa (antes, como se sabe, uma índia, que nunca havia calçado um tamanco, acariciava a relva com seus pezinhos de pluma; suspeito que quebrava até espinho de tucum). Cinquenta e sete anos mais tarde, em 1938, o país produz sua segunda revolução literária, com o romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. Em 1956, dezoito anos depois, Guimarães Rosa, com o romance “Grande Sertão: Veredas”, é responsável pela terceira revolução. (Ah, esqueci de mencionar o sociólogo-pensador Gilberto Freyre — talvez o verdadeiro “gênio da raça”, e não, ao contrário do que pensava Glauber Rocha, Golbery do Couto e Silva — e a prosadora Clarice Lispe­ctor, admiráveis; fica para a próxima ou adiante.) Que eu saiba, ao contrário do pão de queijo — cujo excesso de sal faz mal para incréus e crédulos —, não se tornaram patrimônio material ou imaterial da humanidade.

As três datas não são feriados nacionais — por qual motivo, do marechal Deodoro da Fonseca ao civil Michel Temer, ninguém ousa explicar —, mas deveriam ser comemoradas anualmente. Como não vão, fica-se com o Maio de 1968 — mês e ano pra lá de barulhento. Para entendê-lo, ou curti-lo, há vários livros. “1968 — O Ano Que Não Terminou” (Obje­tiva, 312 páginas), de Zuenir Ventura, é uma delícia, uma das melhores travessias, com pontes adequadas. Depois, o jornalista lançou “1968 — O Que Fizemos de Nós” (Objetiva, 216 páginas).

Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa: os três aproximam-se de do inglês Shakespeare, do mexicano Juan Rulfo, do irlandês James Joyce e do americano William Faulkner. Não perdem para tais autores

A mais recente publicação é “1968 — Quando a Terra Tre­meu” (Vestígio, 304 páginas), de Roberto Sander. Não li, mas prometo ler e, se apreciar, comentarei. A sinopse da editora sugere alguma coisa: “1968 é um ano-chave para a história mundial e brasileira, repleto de episódios emblemáticos, como o Maio Francês e a Primavera de Praga, na Europa, e a Passeata dos Cem Mil e a imposição do temido AI-5, num Brasil subjugado pelo regime militar. A abordagem do jornalista Roberto Sander neste livro, contudo, não se limita aos acontecimentos políticos que tão profundamente marcaram o período. O painel de 1968 construído aqui é completamente novo. A narrativa avança mês a mês, tratando dos mais variados assuntos. O leitor é levado ora para a Guerra do Vietnã, ora para a primeira visita ao Brasil de um arredio Mick Jagger; para a África do Sul, em pleno Apar­theid, onde acontecia o primeiro transplante de coração bem-sucedido do mundo; para Havana, onde Fidel Castro fazia um expurgo no Partido Comunista cubano; e para as viagens espaciais que preparavam a chegada do homem à Lua. Em ‘1968 — Quando a Terra Tre­meu’, Roberto Sander explora histórias saborosas e surpreendentes sobre ciência, moda, comportamento, esporte e cultura em geral, daquele que foi um ano ainda mais complexo, assombroso e sedutor do que se sabe”.

A Terra pode ter tremido, a se aceitar que Maio de 68 provocou um terremoto, mas talvez seja possível sugerir, e não se trata de ironia, que, ao menos no Brasil, tudo tremeu com as obras capitais de Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Os três romances — assim como “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, “Formação do Brasil Contem­porâneo”, de Caio Prado Júnior”, e “Os Donos do Poder”, de Ray­mundo Faoro — modernizaram, atualizaram e, de certa forma, mudaram a maneira de o Brasil pensar e agir.

O que os três autores fizeram, praticamente sem conexão uns com os outros — até porque, embora hermanos, são literariamente diversos (não totalmente, é claro; Machado de Assis bebeu em Laurence Sterne, que, aqui e ali, é um dos pais de Joyce, e este é um dos pais de Guimarães Rosa); frise-se que o autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” morreu no ano em que o criador de “Grande Sertão: Veredas” nasceu —, os prosadores e poetas da Semana de Arte Moderna não conseguiram: inseriram o Brasil, por meio da literatura, no mundo. Tais autores tornaram o Brasil contemporâneo dos demais países, ao menos em termos culturais, e por isso são cada vez mais estudados na Inglaterra, na Alemanha, nos Estados Unidos e noutros países. Machado de Assis é, por assim dizer, o nosso Shakes­peare, o inventor do homem moderno, na versão exacerbada de Harold Bloom. Graciliano Ramos é uma resposta — se resposta é — melhorada a, entre outros, Juan Rulfo. Sua secura e sua falta de sentimentalismo contêm algo da prosa de William Faulkner. Guimarães Rosa funde, como poucos, James Joyce, Goethe e Faulkner.

Livros que resgatam a “energia” de 1968 tanto no mundo quanto no Brasil: movimento dos jovens provocou um terremoto comportamental em várias partes da Terra. Zuenir Ventura e Roberto Sander fazem balanços

Talvez seja um paradoxo: a Semana de Arte Moderna so­brevive, não graças aos seus es­critores, como Mário de An­dra­de e Oswald de Andrade, os mais emblemáticos e barulhentos, e sim aos seus filhos, algo rebeldes e melhores, por assim dizer: os poetas Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. É provável que, sem Drum­mond de Andrade e João Cabral, a Semana de Arte Moder­na teria sido — e temo ser injusto (porque aprecio Mário de Andrade, o Ezra Pound verde-amarelo, e me divirto com as “molecagens” de Oswald de Andrade, a quem o outro Andrade mandou à triputa que o pariu) — um retrato na parede de, quem sabe, Graça Aranha ou de (um integrante da família de) Paulo Prado. Não deixa de ser um paradoxo que os filhos, Drummond de Andrade e João Cabral, tenham mais importância, como criadores artísticos, do que os pais — Mário de Andrade e Oswald de Andrade.

Espera-se que as editoras publiquem 1968 livros sobre Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Drummond de Andrade e João Cabral — os verdadeiros hexacampeões da cultura brasileira. Dá para revelar o Brasil aos brasileiros sem seus pais-fundadores — com o acréscimo de Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Cecília Meirelles, Adélia Prado, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Raymundo Faoro, Darcy Ribeiro, Wilson Martins, Antônio Cândido, Erico Verissimo (sua literatura é uma interpretação do Brasil, o do Sul), Osman Lins, Ferreira Gullar, Haroldo de Campos? Claro que não.

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