O deputado do PSC chamou o deputado do PSOL de “boiola” e levou uma cusparada na cara

Jean wyllis foto da agência o globo ele está cuspindo em Jair Bolsonaro

Na democracia é assim: cada um pode pensar como quiser e, se não infringir as leis, agir como desejar. O deputado federal Jair Bolsonaro, do PSC, tem o direito de defender a ditadura e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, apontado por historiadores como um dos torturadores do regime civil-militar. O que colide com as leis é se estivesse propondo a volta da ditadura, com projetos e movimentos organizados — o que não está fazendo. Nós não precisamos aceitar o que defende, mas ele tem o direito defender suas ideias, sobretudo de fazer apologia à história dos militares, de desdemonizá-los.

Se Jair Bolsonaro pode defender a ditadura, e seus representantes, o deputado federal Jean Wyllys tem o direito de “defender” o governo do PT e criticar os que apoiam o impeachment. Pode ser criticado por suas posições políticas, mas não se deve cobrar que troque suas ideias esquerdistas por ideias direitistas. No lugar de apresentar ideias como equivocadas, talvez seja mais adequado exibi-las como divergentes. Rigorosamente, os dois parlamentares defendem extremos que quase se tocam — os autoritarismos de direita e de esquerda.

Supostamente num ato de defesa — no domingo, 17, dia da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, na Câmara dos Deputados —, Jean Wyllys cuspiu em Jair Bolsonaro. O aspecto cômico é que o primeiro diz que acertou em cheio e o segundo fala em “apenas” 30%. O deputado do PSOL disse: “Nós estamos numa votação. Eu tenho direito político de fazer o voto que eu quero. Durante toda a votação eu não intervi no voto de ninguém. Não fui lá insultar ninguém. E, na hora que fui votar, esse canalha [Jair Bolsonaro] veio me insultar na saída e tentar agarrar meu braço, ele ou alguém que estivesse perto dele. Quando vi o insulto, devolvi cuspindo na cara dele, que é o que ele merece. Não temo enfrentar processo não. Processo tem de enfrentar quem é racista, quem é machista, quem provoca a violência, quem defende a memória de Brilhante Ustra [Bolsonaro fez sua defesa em seu voto a favor do impeachment], um torturador, quem defende a tortura neste país. Isso deveria escandalizar vocês, não um cuspe na cara de um canalha”.

Jair Bolsonaro teria chamado Jean Wyllys de “veado”, “queima-rosca” e “boiola”. “Tentou agarrar meu braço”, afirma o líder do PSOL.

Não há dúvida de que Jair Bolsonaro exagera, sobretudo nos “ataques” pessoais — diga-se que não está em jogo se Jean Wylls é homossexual ou heterossexual, e sim se é um deputado eficiente (é um deputado qualificado, goste-se ou não de suas ideias) —, mas o deputado do PSOL, ao “exigir” que não defenda a ditadura e Brilhante Ustra, comporta-se de maneira autoritária. É quase como se exigisse que há um comportamento político correto — o seu — e que todos devem segui-lo. Se há uma “incorreção moral” de Jair Bolsonaro, há uma “incorreção política” de Jean Wyllys.

Há quem mencione a cusparada de Jean Wyllys em Jair Bolsonaro como “nojenta” — é-se, nas sociedades modernas, higiênico por demasia. Mas uma cusparada é menos inadequada do que um murro ou um chute. Isto quer dizer que aprovo o gesto do deputado do PSOL? Não. Mas palavras às vezes são mais (ou tão) corrosivas do que golpes físicos.

Jean e Jair, com consoantes no início e no fim do nome, com vogais no meio, poderiam formar uma dupla sertaneja? Brincadeira à parte, os deputados devem encontrar um denominador comum; por exemplo, ficarem mais afastados um do outro ou então respeitarem suas ideologias. Estranhamente, eles se atraem — talvez seja o “amor” por ideologias autoritárias e, até, totalitárias.

(A fotografia de Diego Vara, da Agência Globo, é precisa. Capta o gesto de Jean Wyllys, aparentemente até a “viagem” do cuspe, e a “defesa” de Jair Bolsonaro)