Euler de França Belém
Euler de França Belém

Imprevidência de Trotski ajudou Ramón Mercader a matá-lo no México

Stálin infiltrou agentes entre os aliados de Trotski e conseguiu matá-lo até com certa facilidade, em 1940

Ramón Mercader matou Trotski, cumpriu pena no México e, ao voltar para a União Soviética, foi premiado com o cargo de general; mais tarde, mudou-se para Cuba

Exilado no México, Trotski incomodava Stálin com suas críticas corrosivas, desestabilizadoras — enquanto a intelectualidade de quase todo o mundo o elogiava, como pai do socialismo — e com a Quarta Internacional. De longe, sua residência parecia uma fortaleza inexpugnável; na prática, não era assim. Intelectual e líder político de matiz orientador, recebia estranhos para debater o socialismo e a política internacional.

Sabia-se que estava trabalhando numa biografia de Stálin, o que não agradava este e epígonos. Descui­da­do, permitiu que o agente soviético Robert Sheldon Harte se aproximasse, tornando-se um homem de confiança de todos no bunker. Em maio de 1940, ele facilitou a entrada do pintor David Alfaro Siqueiros e alguns aliados, a mando do Komintern, que fuzilaram a casa de Trotski. É provável que Trotski e a família não foram assassinados porque os atacantes eram amadores.

O coronel mexicano Leandro A. Sánchez, de cara, percebeu que um infiltrado havia facilitado a entrada de Siqueiros e sicários. Trotski não queria aceitar os fatos e, sublinha Robert Service, “essa recusa a enfrentar a possibilidade de uma infiltração estava prestes a ter consequências fatais”. Mas não era mesmo fácil conter a sanha assassina dos stalinistas.

Passada a refrega, Trotski retomou o projeto da biografia de Stálin e este permaneceu treinando pessoas para matá-lo, com o apoio do general Natan Eitingon. Este, amante de Caridad Merca­der, articulou para que seu filho, Ramón Mercader, matasse o revolucionário de 1917. No México, ele usava o nome de Jacson.

Para se aproximar de Trotski, Ramón Mercader começou a namorar com sua “secretária ocasional”, Sylvia Ageloff. Solícito e ingênuo, possivelmente acreditando que estava conquistando mais um discípulo, Trotski aceitou examinar um artigo do jovem stalinista. Natalia, a mulher do revolucionário, e outras pessoas do círculo trotskista desconfiavam do espanhol, menos aquele que estava sendo caçado.

No dia do crime, Natalia quis saber de Ramón Mercador “por que estava de capa de chuva num tarde ensolarada”. Mesmo sem uma resposta esclarecedora, o sicário entrou na casa carregando uma picareta de alpinista e um punhal no bolso. No escritório, enquanto Trotski lia um texto, o stalinista cravou a picareta no seu crânio. Pouco depois, o homem que ousara enfrentar Stálin (o político que elegeu o assassinato como razão de Estado) morreu num hospital, em 1940. “O Kremlin ficou radiante; o ‘Pravda’ anunciou a morte de ‘um espião internacional.”
Na década de 1980, Mikhail Gorbachev inocentou Trotski — caracterizando-o como um “bolchevique honrado”.

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