Euler de França Belém
Euler de França Belém

Imprensa precisa entender o general Ramos como moderador no governo de Bolsonaro

O ministro-chefe da Casa Civil é democrata, não se alinha com golpismo, defende a vacinação e é um mensageiro da vida

A ditadura civil-militar de 1964, que durou 21 anos, até 1985 — mas estava semimorta desde 1982, quando políticos do MDB foram eleitos para os governos de seus Estados, como Tancredo Neves em Minas e Iris Rezende em Goiás —, fez um mal imenso às novas gerações de militares da Marinha, da Aeronáutica e do Exército. Nos últimos 36 anos, as Forças Armadas do Brasil foram remodeladas por militares de alta qualidade. Sobretudo, não parecem ter nostalgia pela ditadura — ao contrário do presidente Jair Messias Bolsonaro e seus filhos, notadamente Eduardo “Aicincozinho” Bolsonaro. Há uma vocação democrática no meio militar, que a imprensa às vezes deixa perceber, porque, no fundo, muitos jornalistas permanecem também como “viúvas” da ditadura.

Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Casa Civil do governo federal: “fator” de contenção dos arroubos autoritários de Jair Bolsonaro e família | Foto: Reprodução

Se há um presidente que foi capitão do Exército entusiasmado com a ditadura, não seria natural que militares de proa tivessem o mesmo entusiasmo? Pode até ser que alguns generais, almirantes e brigadeiros — pouquíssimos — tenham certo entusiasmo e saudosismo pela ditadura. Mas a maioria não quer saber disso. O presidente Ernesto Geisel disse que decidiu acabar com a ditadura porque era uma “bagunça”. A ideia de que é possível reinventar o mundo, começando do zero, é um dos mais poderosos enganos humanos. Os militares descobriram isto na pele. Se havia civis ruins, descobriu-se que também havia militares ruins. Não há puros e sujos só de um lado. A vida é mais misturada e menos limpa do que imagina a vã filosofia dos “puros da aldeia”. Entretanto, quando a ditadura acabou, os civis que a apoiaram reconstruíram suas histórias, bandeando-se, muitos deles, para o lado dos democratas, tornando-se “novos democratas” — casos de José Sarney, Antônio Magalhães e Marco Maciel. Com a história “recontada”, os militares ficaram com a imagem manchada e os civis (inclusive donos de jornais), que amaram o golpe de 64 e a ditadura, “limparam” suas imagens. A ditadura não foi apenas militar, portanto deve ser caracterizada como ditadura civil-militar. Até porque, sem o apoio de vários civis, como Magalhães Pinto e Carlos Lacerda, que prepararam o terreno para os militares darem o golpe, a ditadura talvez não tivesse sido possível. As vivandeiras convocaram os militares para o golpe mais do que os militantes convocaram as vivandeiras para o golpe.

Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos: generais e ministros do governo Bolsonaro |
Foto: Anderson Riedel/PR

Sabendo o tanto que uma ditadura corrói a imagem dos militares, como instituição — porque um Bolsonaro passará, como passaram tantos outros, como Jânio Quadros e Fernando Collor —, generais, brigadeiros e almirantes não querem saber de nenhum regime discricionário.

Na linha de frente dos que são democratas no governo de Bolsonaro está o general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Casa Civil da Presidência. Enquanto Eduardo Bolsonaro falava em fechar o Supremo Tribunal Federal, com um cabo e um soldado — que, certamente, não o acompanhariam —, Luiz Eduardo Ramos sugeriu a Bolsonaro que o caminho adequado, portanto institucional, era criar governabilidade a partir da articulação política.

Então, a opção pela política, a opção pela legalidade, se deu pela intervenção de um general moderado e agregador — Luiz Eduardo Ramos. Há quem critique a aliança entre Bolsonaro e o Centrão, mas, como entendeu o chefe da Casa Civil, é a saída política, que, entre outras coisas, garante a estabilidade democrática. O Centrão não é o que há de melhor na política, mas, sem a participação de seus integrantes — homens e mulheres reais, ainda que não ideais (seres ideais são ficções) —, não há como governar o país. Então, a aliança do presidente com o Centrão criou um caminho político, institucional, que tende a travar qualquer iniciativa golpista.

Luiz Eduardo, Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados Jair Bolsonaro e Rodrigo Pacheco, presidente do Senado: vivendo no mundo possível| Foto: Marcos Corrêa/PR

Entretanto, quem olha de fora, e com certa má vontade em relação aos militares, como os generais Luiz Eduardo Ramos e Braga Netto, parece avaliar que os generais que estão no governo Bolsonaro são “golpistas” e, portanto, “a favor da ditadura”. Se fossem, o país e a democracia estariam realmente sob risco. Em 1964, quando o país era mais “participante”, praticamente não houve reação articulada ao golpe de Estado. Cinquenta e sete anos depois, como seria a reação? Talvez até menor, exceto com discursos de praxe de parlamentares, Ordem dos Advogados do Brasil, Associação Brasileira de imprensa e editoriais de jornais. Mas é provável que parte da sociedade aplaudisse um golpe — o que seria lamentável.

Na verdade, Luiz Eduardo Ramos age, no Palácio do Planalto, como um dique contra os excessos de Bolsonaro. Bem, dirão: mas já está ruim. De fato, não está bom — tanto que temos quase 400 mil mortos por causa da pandemia do novo coronavírus, que o governo de Bolsonaro não soube ou não quis combater a tempo.

Recentemente, Luiz Eduardo Ramos disse que se vacinou escondido, porque há orientação no governo — leia-se Bolsonaro — para se vacinar escondido. Os machões de Marlboro, como o presidente, não se vacinam, ao menos não publicamente. O ministro-chefe da Casa Civil se vacinou e, ao contrário do presidente, disse que confia na ciência. Ademais, contou que está tentando convencer Bolsonaro, de 66 anos, a se vacinar. Admitiu o grau de letalidade da doença, que exacerba outros problemas no organismo, e disse que o presidente é jovem e não pode morrer.

Luiz Eduardo Ramos fará 65 anos em junho, ainda é um homem que tem muito anos pela frente, certamente. Ele informou que tem dois netos e uma mulher linda — o que revela sua sensibilidade para a vida. Portanto, ao contrário de Bolsonaro, não é um mensageiro da morte só porque trabalha ao lado do presidente. O general é um mensageiro da vida. É o seu recado. A imprensa tem de verificar o que se pode chamar de gradações. O militar é o que se tem de melhor — em termos de moderação política e decência pessoal — no governo de Bolsonaro (que ainda governará o país por um ano e oito meses). Convém não jogá-lo na vala comum. Por que se comportar de maneira intolerante com todos aqueles que cercam Bolsonaro?

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