Euler de França Belém
Euler de França Belém

Imprensa omite nome da professora da UFRJ que escravizou mulher negra por 41 anos

“Ana” tem 63 anos, está num abrigo da Prefeitura do Rio de Janeiro e fala de maneira ingênua sobre a doutora que a escravizou

Há histórias, fica-se com a impressão, que nem a Imprensa quer contar em sua inteireza. É o caso da mulher negra, de 63 anos, que foi escrava de uma professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Trata-se de um fato rumoroso, comentado nos corredores da Justiça e nas redações do Rio de Janeiro. Ainda assim, somente a revista “Época” decidiu registrá-lo.

Não se sabe o nome da mulher escravizada, pois “Época”, para preservá-la, a nomina de “Ana”. Por que a relutância em contar sua odisseia? Não se sabe. É preciso sublinhar que, com rica história em defesa da democracia — com importantes trabalhos acadêmicos dissecando, portanto criticando, a escravidão —, a Universidade Federal do Rio de Janeiro nada tem a ver com a história escabrosa. A responsabilidade é exclusiva da doutora que integra seus quadros. Mas é aterrador saber que uma mestra, que talvez pregue a igualdade e inclusive critique a escravidão em sala de aula, tenha feito o que fez. Trata-se da história de que, na prática, a teoria é outra.

Idosa negra escravizada |Foto: Alexandre Cassiano/Agência Globo

Não se sabe por qual motivo o nome da doutora está sendo preservado. Os jornalistas que estão fazendo as reportagens sabem seu nome. Talvez ela não queira falar, mas precisa apresentar sua posição, pois, ainda que seja indefensável, tem o direito de se defender. Ao cobrir outras histórias, a imprensa não tem se comportado com a mesma cautela, preservando o nome do “suspeito” ou do “acusado”.

Depois da primeira reportagem, “Época” retomou o assunto em outra matéria, “As marcas da mulher que viveu 41 anos trabalhado em condição análoga à escravidão”, publicada na sexta-feira. Dada a seriedade da revista, o texto é respeitoso, cuidadoso — ainda que lacunar.

Uma família sem crise de consciência

Na casa da professora — vamos chamá-la de “Jezebel” —, “Ana” era uma espécie de faz-tudo. Estava em pé às 7 horas, todos os dias da semana. Depois de cuidar dos seis cachorros, limpava e, às vezes, capinava o quintal e, em seguida, fazia as compras da casa. Como escrava, ainda que apresentada como empregada doméstica, “ajudou a criar pelo menos cinco crianças, hoje adultas, e deu assistência até a morte a dois idosos. Isso tudo sem ganhar nada em troca”. Não deixa de ser estranho que nenhuma pessoa da família tenha se posicionado contra a escravização de “Ana”. Não se fala, ao menos nas reportagens, em nenhuma crise de consciência.

Ana morava com a família que a escravizou na Abolição, um bairro do Rio de Janeiro. “Abolição”? Pois é. Agora, está num abrigo da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Uma denúncia anônima revelou a história de “Ana” e uma força-tarefa da Auditoria Fiscal do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho decidiu verificá-la. Era tudo verdade. A sra., idosa, vivia mesmo em “situação análoga à escravidão”. “Na casa, ela dormia num cômodo sem energia elétrica nos fundos do terreno, próximo aos canis dos cachorros”, conta “Época”. Era a “senzala” — longe da “casa grande”.

Idosa que foi escrava por 41 anos | Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo

“Ana” não recebia “comida suficiente e teria sido ouvida chorando, pedindo socorro”. Ao encontrá-la, o auditor Alexandre Lyra ficou chocado. “Nunca vivi uma experiência tão impactante como a dessa senhora. Não havia impedimento físico de ir e vir. Muitos ainda vinculam o trabalho escravo a isso. Mas há um muro invisível, que fazia com que ela não saísse daquele ambiente. Era sua única referência de vida e de trabalho, em condições indignas”, sublinha. Fica a pergunta: ir pra onde, aos 63 anos — sem dinheiro, sem instrução e sem contato com familiares?

Ao ser “contratada”, aos 22 anos, “Ana” recebeu a informação de que a patroa a registraria — teria uma carteira de trabalho. Na verdade, não há contrato nem qualquer registro em carteira de trabalho. Para cuidar da família de “Jezebel”, “Ana” teve de abdicar de tudo — não se casou, não tem filhos, não tem casa própria, não pôde fazer amigos.

No abrigo da prefeitura, “Ana” conversa com todos, e é apontada como uma pessoa “doce e meiga”. À repórter de “Época” Ludmilla de Lima, ela disse, com ingenuidade: “O marido da dona, quando ia assinar minha carteira, teve câncer e faleceu. Câncer é uma doença que esgota todo mundo. Ela disse que ia assinar minha carteira, mas teve muitos problemas. Tinha de pagar passadeira, faxineira e cozinheira. Ia ficar muito pesado. Porque ela dá aula na faculdade e o dinheiro dela é pouco. Então, me disse: ‘Não vai dar para pagar você nem assinar carteira, porque vou ter de pagar duas empregadas e passadeira. Não tenho esse dinheiro todo’”. Mas, pelo visto, não falta dinheiro. Ou melhor, faltava só para pagar “Ana”.

Como não recebia salário, “Ana” decidiu catar latinhas nas ruas, o que lhe rendia de 4 a 9 reais por dia. “Catava muita latinha e garrafa, e ela [a patroa] perguntava: ‘Ana, quanto foi a latinha? Você me empresta o dinheiro?’ Eu dava para ela, não emprestava. Sabia que ela não ia poder me pagar.” A força-tarefa chegou a flagrar “a idosa entregando o dinheiro que conseguiu com a venda de sucata à professora”.

“Ana” relata que a professora universitária “pagava todas as contas sozinha, tinha de comprar a ração dos cachorros e ainda tinha o vício do cigarro. Fazia um sacrifício danado, dizia que não tinha dinheiro, ir atrás de empréstimos. E eu fui ficando para escanteio”, conta, resignada. “A patroa sacou parcelas do auxílio emergencial em nome da doméstica”, diz “Época”.

Nos 41 anos em que trabalhou na casa da professora, “Ana” diz se lembrar que foi ao médico apenas uma vez. Possivelmente, nem foi ao médico. Porque, segundo conta, foi levada à Clínica da Família apenas para ser vacinada. A mãe de sua “ex-dona” — “Época” prefere “empregadora” — acompanhou-a.

A assistente social Thaiany Motta e a psicóloga Yasmin França — da Cáritas Arquidiocesana — estão acompanhando “Ana”.

“Construiu-se uma relação com essa família de dominação e de subordinação. É uma violência simbólica e sutil, de cunho psicológico. Ela só teve uma escolha na vida”, afirma Thaiany Motta.

Yasmin França sublinha que, ao deixar “Ana” sem uma rede de apoio — não há contatos com os irmãos —, a família de “Jezebel” cometeu um ato de violência. A família de “Ana” passou a ser aquela que a escravizava. É como se, sendo “da” família, sua única referência, podia-se fazer tudo com (contra) ela. “Entre os resgatados é muito comum essa ressignificação da experiência ocorrer depois. Com alguns é mais rápido, com outros há uma demora maior para entender que, sim, essa é uma situação de violência. Muitos desconhecem a lei, que o quadro em que se encontram caracteriza trabalho escravo”, analisa a psicóloga.

O psicólogo Diego Gomes, do abrigo, relata que, “a todo momento, ‘Ana’ se sente culpada de algo e pede desculpa”.

Alexandre Lyra, do MPT, sustenta que a professora “não demonstrou remorso”. O auditor contou à revista que a ex-patroa “tentou ‘desqualificar e desmerecer’ Ana, dizendo que, se deixasse dinheiro na mão da empregada, ela gastaria com ‘bobagens’”.

“Ana” pode receber 1,3 milhão de reais, a título de indenização por danos morais e materiais, se a recomendação do MPT for acatada pela Justiça. O MPT pediu também bloqueio dos bens da professora. “O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) já concedeu liminar determinando o pagamento pela empregadora de uma pensão mensal até a decisão final da Justiça”, anota “Época”. Mas cabe recurso.

A procuradora do MPT Isabela Maul afirma que “Ana” “não consegue benefício previdenciário porque não houve recolhimento do INSS”. Ela informa que a idosa “não tem condições de trabalhar.

“Ana” não soube dizer à repórter da revista qual será o seu futuro. Aos 63 anos, debilitada, certamente terá de ser protegida pelo Estado. Talvez seja o caso de localizar alguém de sua família.

No dia 13 de maio faz 133 anos que a  escravidão foi “abolida” no Brasil. As aspas são uma maneira de respeitar “Ana”, quer dizer, ainda há escravocratas no país. A reportagem da “Época” é correta, a revista teve coragem de enfrentar um tema delicado, mas, ao não publicar o nome da professora, sugere muito mais do que se pensa sobre a sociedade brasileira. É como se algumas pessoas, próximas dos “donos do poder” (e não se está falando apenas de poder político, pois há outros poderes, como o intelectual), apesar do horror que praticaram, merecessem algum tipo de proteção e condescendência.

11 respostas para “Imprensa omite nome da professora da UFRJ que escravizou mulher negra por 41 anos”

  1. Avatar Sandra Martins disse:

    Na realidade, 99% das matérias que denunciam racismo, discriminação racial, segregação, desumanização da pessoa humana, NÃO aparecem os réus, os autores de tamanha atrocidade com um igual. Não, não, não são iguais, os outros – pretos, pobres – são somente os outros a quem os do andar de cima defendem a submissão e o apartheid. A imprensa é conivente, escondem seu próprio interesse na manutenção desta condição de hierarquização da sociedade por raça e classe.

  2. Avatar Sandra Martins disse:

    Excelente reportagem!!! Parabéns por desnudar a hipocrisia seletiva.

  3. Avatar Glaucus Linx disse:

    O Brasil é uma enorme Senzala, apoiada pela imprensa, pelo executivo, pelo judiciário, pelo legislativo e pela elite que os controla. Simples e macabro assim!

  4. Avatar rodrigo disse:

    Racismo estrutural escancarado,é preciso expor o nome dessa professora,racismo é crime!!Que essa reportagem,consiga alcançar e punir com a prisão essa criminosa.

  5. Avatar maura vilar disse:

    Miserável quem fez isso…
    Escravocrata

  6. Avatar Zênia Maria da Cunha Galvino disse:

    Que seja derrubada essa blindagem!! Que o constrangimento, por essa longa exploração, seja constante e que seja submetida aos rigores da lei!!!

  7. Avatar Eliane da Silva disse:

    É DE CORTAR O CORAÇÃO, SE A JUSTIÇA BRASILEIRA, FOSSE SÉRIA NESSE PAÍS DE MERDA; OS ESCRAVOCRATAS PENSARIAM DUAS VEZES, ANTES DE COMETER CRIME TÃO ABSURDO.

  8. Avatar Cátia regina disse:

    Se a questão é denunciar , não entendi porque essa reportagem também não revelou o nome da criminosa… O furo de reportagem seria esse! Mas parece ser mais conveniente a branquitude proteger os seus

  9. Avatar Wanda de oliveira das Neves disse:

    Chega dar uma angustia pela falta de sensibilidade e impunidade de tanta podridão .A unica forma da gente ajudar a,esta senhora e compartilhando pode ser que aijustiça não fique tao constrangida de divulgar o nome des

  10. Avatar Júlio Franco disse:

    Muito reflexiva a matéria

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