Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Imprensa goiana, principalmente a esportiva, precisa se livrar do dogma do politicamente incorreto

“Brincadeiras” que não repercutiam décadas atrás hoje não são mais aceitas: viram infrações sujeitas a penalidades. É preciso entender isso

Alípio Nogueira (segundo na coluna à direita) faz “brincadeira” machista ao microfone com colega de rádio | Foto: Reprodução

Em dezembro passado, nesta mesma coluna, o tema foi a imprensa goiana, mais precisamente o rádio esportivo, e a forma às vezes não apropriada com que se dão algumas relações. À época, o caso mais explorado no texto foi o do presidente do Atlético Clube Goianiense, Adson Batista, que, em uma brincadeira na semana anterior, com o repórter Juliano Moreira, da rádio BandNews FM, tirou a máscara que o profissional usava durante uma coletiva após a vitória dos rubro-negros de Campinas sobre o Flamengo, então bicampeão brasileiro, por 2 a 0.

Tanto Adson como Juliano minimizaram o episódio, sendo que o dirigente admitiu que exagerou na irreverência naquele momento – o que, de certo modo, faz sentido, já que seu clube acabava de obter um resultado marcante.

Com esse fato e outros antecessores – por exemplo, em meados do ano passado, narrador e comentarista da Rádio Bandeirantes 820 AM fizeram piadinhas de cunho racial com o cabelo do jogador Celsinho, do Londrina –, o artigo, publicado na edição 2422, procurava ensaiar uma crítica construtiva ao meio, como no trecho:

“A imprensa [esportiva] goiana é profissional, não há o que se discutir. Há ótimos jornalistas em todos os veículos, mas, como em toda profissão, há também os que deixam a desejar. O fato de ser profissional, porém, não significa que a qualidade do profissionalismo esteja suficiente. Pelo contrário, é preciso repensar muita coisa e adequar o modelo aos novos tempos, que não permitem grosserias e preconceitos disfarçados de ‘irreverência’ ao microfone”.

Um dos papéis da coluna Imprensa é o de fazer provocações positivas sobre como o jornalismo e a comunicação social em geral são conduzidos nos dias atuais, especialmente em Goiás. Obviamente, tem quem goste e quem não goste dessa proposta.

Dessa segunda turma, teve quem não gostasse do texto e, mais, lhe respondesse com bastante adjetivos negativos ao autor do texto. Foi o que ocorreu na Rádio Bandeirantes 820 AM, especialmente por meio do radialista Nivaldo Carvalho, chefe da equipe Feras do Esporte, que defendeu a forma, digamos, “tradicional” de fazer o trabalho, ou seja, com uma irreverência com os colegas e demonstrações de intimidade com convidados que entram em uma zona cinzenta e polêmica.

Nivaldo é um comunicador bastante talentoso, que entende como poucos a linguagem do rádio e sabe traduzi-la a seu ouvinte. A questão que lhe pesa é ainda resistir a adaptar sua habilidade inata aos tempos atuais, em que a mídia passou a ter, no geral, parâmetros bem diferentes do que os de 30 anos atrás.

Um dos grandes desafios na cobertura esportiva em Goiás tem sido ultrapassar o estigma de que é preciso ser “politicamente incorreto” para ter – ou manter – audiência. Nesse sentido, fica difícil brigar com os números, que acabam dando razão aos argumentos de Nivaldo: o ouvinte – hoje internauta também – referenda o estilo, dando a liderança da audiência à emissora.

Só que há valores que não se medem por pontos nessa escala de popularidade. O machismo é algo incrustado na sociedade brasileira e que se mostra resiliente aos que o combatem. Onde o homem tem mais presença, isso ocorre de forma ainda mais exacerbada. É assim no meio militar, no meio político e também no meio futebolístico.

Hoje as mulheres estão tomando conta de seu espaço na imprensa esportiva. Cada vez mais. Nacionalmente, já ocupam toda a “cadeia de funções” na imprensa esportiva: produção, reportagem, apresentação, comentários, análise da arbitragem e, há alguns anos, venceram a última barreira: a narração de jogos. Desde a Copa de 2014, quando Renata Silveira venceu um concurso na Rádio Globo com 78 mulheres para narrar um jogo – Costa Rica x Uruguai –, a voz delas está presente nos grandes veículos de comunicação.

Hoje Renata Silveira está na televisão, na locução de jogos do canal Sportv. Não é raro, no entanto, ler nos grupos de WhatsApp reclamações quando descobrem de quem será a narração no jogo do clube. Quase sempre, isso se dá quando é ela a escalada: reclamam do timbre, do ritmo da narração, da (suposta) falta de conhecimento. Claro, quem é profissional sabe que precisa sempre melhorar, mas, no caso, as críticas ecoam bastante de um machismo velado, ou às vezes nem tanto.

A coisa muda também em Goiás. Se até a década de 90, eram poucas as mulheres que trabalhavam na imprensa esportivo nacional, na crônica de Goiás – “crônica”, aliás, é um termo que hoje soa bem anacrônico –, então, eram raríssimas. Uma das pioneiras foi Graça Torres, que durante muitos anos integrou várias equipes de esportes. Era a exceção que comprovava a regra.

Aos poucos, porém, elas ganharam mais espaço – mas que ainda hoje é menor do que o merecido, registre-se, no entanto. A produtora Ana Lívia, da equipe Feras do Esporte, é uma das mulheres que trabalham na imprensa goiana. Exercendo seu ofício, na segunda-feira, 24, ela foi surpreendida com o comentário ao microfone do colega Alípio Nogueira, no Esporte em Debate, programa de futebol da emissora da hora do almoço:

A legenda, para quem quiser acompanhar o que se diz literalmente no vídeo.

“Antes, deixa eu abraçar a Ana Lívia, que está aqui… hoje ela tá demais, não sei se você teve oportunidade de vê-la. (“já almoçou?”) Tá de minissaia hoje aqui que tá um negócio, assim… Por isso é que tem nego que vai para a delegacia da mulher, porque a moça vem vestida desse jeito aqui. O povo bate, agride, conversa fiado. Não é o certo, mas também não é certo ela vir com esse tipo de traje aqui, não!”

Quem conhece a crônica esportiva goiana sabe que o machismo, assim como a homofobia e o racismo, é algo enraizado e de difícil processo de desconstrução. Durante muito tempo isso fez parte de um certo espírito jocoso, “folclórico”. Alguns veículos, no entanto, já buscaram se adaptar aos novos tempos – ainda que haja um ou outro “tropeço” aqui ou ali. Boa parte, no entanto, ainda segue essa “irreverência” que não mais se concebe.

Como Ana Lívia não aparece na imagem – lembrando que, além da transmissão pelo rádio, o programa também está no ar pelo YouTube –, não se tinha noção do alcance da “brincadeira”, ou seja, se de fato a descrição que o autor fazia correspondia à realidade. O vídeo caiu nas redes sociais e Alípio Nogueira viu-se obrigado a se retratar.

Em resposta a um compartilhamento do vídeo no Twitter – rede social em que não manifestava desde setembro, ele se desculpou:

Por fim, Ana Lívia desabafou:

“Boa noite a todos, fui arrastada para um furacão na tarde desta segunda e confesso que estou triste por ter sido exposta e ver meus familiares também expostos. Porém, sei que o comentário sobre minha pessoa atingiu a milhares de mulheres no Brasil é reflexo de uma realidade que precisa ser combatida e mudada. Na ocasião, estava de calça, camiseta e tênis, me surpreendi com uma analogia desconexa com a realidade, lembrando que, mesmo se estivesse de fato de saia, seria descabido e machista. Gostaria de ser lembrada pelo meu trabalho, luta e história, e não por esse episódio lamentável. Quero agradecer de coração a postura de Nivaldo Carvalho – diretor de Esportes – e Bruno Daniel – coordenador –, que estão me dando todo carinho e suporte necessários para vencer esse momento de cabeça erguida. Destaco também o apoio dos meus companheiros de Feras do Espoprte, que se mostraram totalmente sensíveis e amigos.”

Nos tempos antigos, não se registrava nada do que se falava no rádio, a não ser para enviar para a Censura Federal. Os novos tempos vieram com a internet. Agora, a censora é a própria rede, já que os programas são exibidos nos canais do YouTube, por exemplo. Mais ainda: os programas ficam registrados ad eternum.

Em outras palavras: o que era aceito, ou ao menos tolerado, em décadas passadas, passa a não ter mais vez. Felizmente, os roteiristas de programas de humor, letristas de músicas e profissionais da comunicação em geral estão entendendo que certas expressões e comentários não podem mais coexistir com o respeito e a dignidade que todo ser humano merece. Quem não se adaptar vai ficar fora do mercado – não é questão de “se”, mas de “quando”.

Em nota oficial, a Rádio Bandeirantes, que terceiriza a cobertura de futebol para as Feras do Esporte, expôs seu repúdio e exigiu a demissão do comentarista.

Alípio Nogueira, um profissional veterano, competente quando exerce o que lhe compete – versátil, já cobriu Copas do Mundo como repórter, é bom narrador e entende de futebol –, perdeu o emprego por falar algo execrável e que nada dizia respeito a suas tarefas e seu ofício.

Uma resposta para “Imprensa goiana, principalmente a esportiva, precisa se livrar do dogma do politicamente incorreto”

  1. Avatar AURELIO FERNANDES ALONSO disse:

    O correto não seria machismo ao microfone? E não como saiu grafado neste comentário. Abraços

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