Euler de França Belém
Euler de França Belém

Imperícia em clínica de bronzeamento “natural” leva estudante de Direito goiana à morte em Brasília

A busca da beleza como o Graal da felicidade está matando mulheres e homens. Nara Farias Preto tinha 20 anos, era bonita, mas queria ser “perfeita”

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O belo é. Substantiva, a beleza existe — com e sem adjetivos e advérbios. Mas os belos não se contentam em ser belos e querem ser super belos. Ninguém quer ser John Malkovich, e sim, no caso das mulheres, todas querem ser Gisele Bündchen. Busca-se a beleza como se fosse o Santo Graal da felicidade.

Apesar das recomendações de médicos, é assim a vida real. Mulheres, mesmo quando magras, quase sempre se acham um quilo acima do peso que julgam ideal, só que o ideal, para elas, é inalcançável. O espelho (ninguém é tão cruel quanto um espelho indiscreto e realista, e piora quando se trata de um espelho do tipo “lente de aumento”) costuma dizer a Narciso (todos nós): “Você está bem, mas pode melhorar”. Estudante de Direito em Brasília, Nara Farias Preto era uma menina linda de 20 anos. Era. Nara morreu na quarta-feira, 14, depois de passar por uma sessão de bronzeamento “natural” que se pode chamar de selvagem.

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Nara Preto procurou a “clínica” Belo Bronze, na Asa Sul, em Brasília, que prometia quase um milagre: um pele bronzeada em pouco tempo. A pessoa entrava na clínica e, ao sair, era outra pessoa — com a cor desejada. Mais bonita. Mais admirada. Mais invejada. A garota ficou exposta ao sol durante quase quatro horas — a exposição supostamente adequada é de uma hora e trinta minutos — e sem tomar água. Mirian Faria, prima de Nara, informou à polícia: “Não orientaram a passar filtro solar, e a mulher [da clínica] não a molhava com frequência. Isso causou uma desidratação muito violenta”.

Levada ao Hospital das Forças Armadas, quando já estava bem debilitada, com diagnóstico de insolação, Nara Preto teve três paradas cardíacas e faleceu. O corpo da jovem foi enterrado em Mara Rosa, cidade do Norte de Goiás.

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Sociedade Brasileira de Dermatologia

Tudo indica que a Belo Bronze é tudo, menos uma clínica. Porque as orientações, sobretudo a falta delas, sugere que lá não há formação adequada para se dirigir uma clínica. Alega-se que o produto usado no bronzeamento, dito natural, é autorizado pela Anvisa. Mas, segundo a “Veja”, “a Sociedade Brasileira de Dermatologia adverte que, mesmo os produtos regulamentados e aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, devem ser utilizados sob prescrição médica e observados o modo de uso”.

A morte de Nara Preto, tudo indica, resulta da imperícia da clínica Belo Bronze. É o que certamente constatará o inquérito policial. O proprietário e quem fez o bronzeamento certamente serão indiciados por homicídio culposo (sem intenção de matar). A defesa da clínica, por certo, tentará responsabilizar a “falta de cuidados” da vítima. Desculpa que nenhum juiz aceitará. Os mortos são os culpados mais desejáveis, porque não podem se defender. Mas os fatos são fatos e a “clínica”, se clínica, não deu as informações precisas para a quase adolescente se recuperar de uma intensa sessão de bronzeamento, que, no lugar de “natural”, deveria ser chamada de selvagem.

O que os órgãos de saúde devem verificar é se outras clínicas — por vezes, “salões de beleza” que, para atrair incautos, usa o termo clínicas — estão oferecendo o mesmo “tratamento” e se as regras são parecidas com as da “clínica” Belo Bronze.

Ao fim, uma ideia para todos nós: sejamos belos, lutemos pelo belo, mas sem obsessão ou a com menos obsessão, aceitando que, se menos belos, mais vivos. Isto nos fará viver um pouco mais, quiçá menos tristes e depressivos. Com o apoio de maus profissionais, ou não, estamos nos matando em busca de uma beleza que, como dito, é inalcançável. Fica-se com a impressão, por vezes, que a busca da beleza nos induz a uma espécie de suicídio que não é visto como suicídio.

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