Euler de França Belém
Euler de França Belém

Igreja Católica equivoca-se quando diz que o casamento entre gays é uma derrota da humanidade

O casamento homossexual aprovado pela maioria do povo da Irlanda significa, no máximo, uma derrota da Igreja Católica

Por que os crimes do comunismo são, em tese, mais “perdoáveis” do que os crimes cometidos pela direita? As aspas sugerem que o autor deste texto não concorda com a tese, mas, durante anos e talvez ainda continue em parte assim, os crimes de Stálin, Mao Tsé-tung e Fidel Castro foram “perdoados”, mesmo por quem não era e não é de esquerda, porque os líderes esquerdistas “estavam” colaborando para “melhorar” a Humanidade. O Mal era feito em busca do Bem. O Inferno — o fim da democracia e a perseguição implacável, inclusive com assassinatos sistêmicos — era um meio para se chegar ao Paraíso, que, evidentemente, não foi “redescoberto”. Ocorre que correntes políticas não podem ser confundidas, por ideologia ou má-fé, com a Humanidade. Os crimes da esquerda e da direita são equivalentes e, portanto, não podem ser perdoados. São crimes cometidos em nome de uma ideologia, comunismo e nazismo, mas em defesa da Humanidade.

Agora, ante o referendo da Irlanda que permitiu casamentos entre pessoas do mesmo sexo, o cardeal Pietro Parolin [na foto com o papa Francisco) disse, na Rádio Vaticano, que a aprovação da população da Irlanda — 62% dos votos foram favoráveis — significa uma “derrota da Humanidade”. “Não foi uma derrota para os princípios cristãos, foi uma derrota para a Humanidade”, sublinhou o religioso. A parolagem de Parolin, tido como um homem notável da Igreja Católica, se torna mais importante porque se trata do principal auxiliar do papa Francisco. “Fiquei muito triste com o resultado. A Igreja precisa levar em consideração esta realidade, mas no sentido de reforçar seu compromisso na evangelização”, frisou. Noutras palavras, a aprovação se teria dado, não devido à abertura mental dos irlandeses, e sim à deficiência da pregação da Igreja Católica.

A opinião do cardeal Parolin deve ser ouvida, pois não se trata de uma voz não- civilizada. Mas há um equívoco: a aprovação do casamento homossexual não é uma derrota para a Humanidade. No máximo, é uma derrota para a moralidade da Igreja Católica.

A homossexualidade não é doença, não é anomalia. E, se a população avalia que os casamentos gays podem e devem ser feitos, por que não aceitá-los? A democracia pode desagradar a Igreja Católica e os conservadores em geral. Porém, costuma-se dizer que a luta dos homossexuais pelo casamento é produto de um sentimento das minorias. O caso da Irlanda mostra que a maioria — 62%, insista-se — aprova o casamento entre homossexuais.

As igrejas e regimes políticos, como o comunismo e o nazismo, sempre se dão mal quando pretendem atuar como “legisladores” e “retificadores” do comportamento humano. Legislar sobre o sexo e o amor — fora do básico (como penalizar estupros e violência sexual em geral) — é praticamente impossível. Como disseram, qualquer forma de amor vale a pena — desde que as partes queiram. O sexo e o amor, por mais que queiram “estatizá-lo”, são revolucionários permanentes e, assim, incontroláveis.

Em 2013, o papa Francisco, um homem e religioso admirável — talvez a pessoa mais influente do mundo hoje, acima de Barack Obama —, assinalou: “Se uma pessoa é gay e busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?” Os que não comungam com as ideias da Igreja Católica insistem que, apesar da declaração, o papa manteve a desaprovação sobre o casamento homossexual e não mudou a doutrina que considera os atos homossexuais como “pecado”, ainda que o homossexualidade “em si não”. Na quarta-feira, 27, Francisco disse “o casamento é a união entre um homem e uma mulher”. Ora, uma instituição militar como a Igreja Católica não vai mudar rapidamente e sob um único papado. Por isso a declaração de 2013 do papa Francisco deve ser vista, sim, como símbolo de um avanço.

O papa Francisco é um homem que está iniciando a modernização da Igreja Católica — inclusive em termos comportamentais —, mas sabe que não poderá fazer tudo de uma só vez. As mudanças em instituições milenares são graduais, precisam ser assimiladas interna e externamente. Senão, por incrível que pareça, a Igreja e a vida dos cristãos viram uma bagunça. Entretanto, voltando ao ponto inicial, a Igreja Católica não pode se considerar como a Humanidade. No máximo, é parte — jamais o todo. A vida dos homens é mais rica e fértil do que a vida dos religiosos-doutrinadores.

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