Euler de França Belém
Euler de França Belém

Homem quer a morte de Guga Chacra e da democracia

O selvagem que gostaria de ver o comentarista da GloboNews “morto a paulada” planeja sufocar a divergência, mas foi contido pela pronta ação do jornalista

Guga Chacra, comentarista da GloboNews: ameaça de morte

Há atos antidemocráticos entre muitos do que cobram “mais” democracia nas redes sociais. O que se quer, na verdade, não é convivência de contrários — com um enfrentamento aberto e não violento pela hegemonia —, e sim o sufocamento da divergência, a anulação do outro que não pensa como nós.

Quando um homem diz que gostaria de ver o jornalista Guga Chacra “morto a paulada” não se trata de metáfora e brincadeira. Na verdade, é o que ele quer, na sua selvageria possibilitada às vezes pelo anonimato. Porque pode-se ter contas falsas no Twitter e no Facebook. “O covarde que me ameaçou apagou a conta no Twitter. Mas segue a foto. Não vai escapar. Já foi denunciado às autoridades.”

Guga Chacra fez muito bem ao denunciar o agressor à polícia. Com algum trabalho, se a conta não for falsa e se tiver sido aberta a partir de um computador pessoal, será possível localizá-lo e, em seguida, processá-lo.

Na semana passada, um “amigo” escreveu no in box do Facebook, como se estivesse me alertando: “Jornalista, você sabia que a TV Globo está associada ao PT, notadamente ao ex-presidente Lula da Silva, para atacar o governo do presidente Jair Bolsonaro?” No caso, trata-se de ignorância mesmo. Porque a rede da família Marinho não é porta-voz do petismo e de Lula da Silva. Tampouco as críticas a Bolsonaro e ao seu governo são ideológicas. Estão, na realidade, no limite do jornalismo que se deve fazer, inclusive ouvindo as partes, quando as partes querem falar. Pode-se criticar a Globo por várias coisas, menos por não ouvir as pessoas envolvidas nas questões. Governos, na verdade, não apreciam jornalismo crítico. Só jornalismo que é a cárie da sociedade e o sorriso do poder. Mas os cidadãos, de direita, centro e esquerda, deveriam aceitar e recomendar o jornalismo crítico. Porque, se é assim, está defendendo a sociedade, quer dizer, os cidadãos.

O Grito, de Edvard Munch

O que incomoda em Guga Chacra não é exatamente que seja um crítico dos equívocos dos governos, no Brasil ou no exterior — sua especialidade é Oriente Médio. O que incomoda é que pensa pela própria cabeça e, acima de ideologias — que exigem adesão e engajamento —, posiciona-se com frequência. É um crítico consequente do terrorismo, mas observa as questões árabes de maneira nuançada, sem preconceitos e limitações meramente ideológicas. É sua liberdade de pensar, de expor seu pensamento de maneira aberta, que deixa telespectadores radicalizados “chateados” e com vontade de, se não matá-lo diretamente, vê-lo “morto a paulada” (uma defesa notória do linchamento).

Correspondente e comentarista da GloboNews, Guga Chacra faz um bom trabalho, o mais multifacetado possível, mas não se furta a apresentar suas opiniões. Daí a ira contra ele. Há risco de que, morando nos Estados Unidos, alguém o mate? Nunca se sabe. O que se sabe, pelos vários exemplos — John Kennedy, Bob Kennedy, John Lennon, papa João Paulo 2º, Ronald Reagan, Olof Palme e Jair Bolsonaro —, é que malucos e nem tão malucos andam à solta por aí. A atitude destemida e rápida do jornalista, que não teve receio de divulgar a notícia e de denunciar o selvagem à polícia, pode levar outros selvagens a se conterem.

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