Euler de França Belém
Euler de França Belém

Historiador inglês mostra que a barbárie não acabou na Europa com o fim da Segunda Guerra Mundial

Keith Lowe mostra que o término da batalha, em 1945, reacendeu novos conflitos e a matança, no lugar de parar, continuou

Keith Lowe: historiador britânico documenta que brutalidade da guerra continuou por mais alguns anos

A Europa, a velha civilização, morreu entre 1939 e 1945, com o nascimento de sua idade das trevas. O continente estava irreconhecível, ficava-se com a impressão de que todos estavam loucos, entorpecidos pela incompreensão do que a história havia sido, do que estava sendo e do que poderia ser. Em 1945, depois de milhões de mortes, sobretudo de russos — além do massacre brutal de judeus, ciganos e homossexuais —, a Europa parecia ressurgir dos escombros da barbárie. Porém, em meio à esperança, havia sombras, e fartas. É o que conta o livro “Continente Selvagem — O Caos na Europa Após a Segunda Guerra Mundial” (Zahar, 504 páginas, tradução de Paulo Schille, Rachel Botelho), do historiador britânico Keith Lowe.

Um dos mais categorizados historiadores da Segunda Guerra Mundial e, talvez, o mais confiável biógrafo de Adolf Hitler, o nazista-mor, Ian Kershaw assinala a respeito da pesquisa de Keith Lowe, de 47 anos: “História vívida e assustadora de vinganças assassinas, represálias terroristas e da feroz limpeza étnica que varreu a Europa logo depois — e muitas vezes como continuação direta — da Segunda Guerra Mundial. O excelente livro de Keith Lowe pinta uma imagem pouco conhecida e aterrorizante de um continente mergulhado na ilegalidade, no caos e na violência sem limites”. O que, de algum modo, Ian Kershaw e Keith Lowe sugerem é que a Segunda Guerra Mundial não acabou inteiramente em 1945. A barbárie, até que os anjos da civilização descessem de novo, para a aceitação de que as regras institucionais são incontornáveis e não têm substitutas adequadas, aos poucos cedeu. Às custas de milhares de mortes.

Sinopse fornecida pela editora como cardápio de entradas aos leitores: “Retrato chocante de uma Europa consumida por vingança, ressentimento e ódio. Lembrado como um momento em que multidões encheram as ruas celebrando a paz, o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa foi bem diferente na realidade. Em todo o continente, mais de 30 milhões de pessoas haviam sido mortas, com cidades inteiras arrasadas, paisagens devastadas e instituições totalmente ausentes. Em ‘Continente Selvagem’, o premiado escritor e historiador inglês Keith Lowe descreve uma Europa onde alemães e colaboradores foram caçados e executados sumariamente, um violento antissemitismo renasceu, minorias foram perseguidas e dezenas de milhões de pessoas foram expulsas de suas terras ancestrais. Com base em documentos originais e pesquisa em diversos idiomas e países, o livro cobre os anos de 1944 a 1949, num arco temporal que vai do final da guerra ao estabelecimento de um equilíbrio ainda instável no fim da década de 1940. Vencedor do prêmio PEN Hessell-Tiltman e na lista dos dez mais vendidos do ‘Sunday Times’, esta é a história definitiva da Europa nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial”. O leitor certamente deverá retirar apenas a palavra “definitiva”, que é publicitária. Há livros de história que se tornam clássicos, que não morrem, mas definitivos não há nenhum (exceto, quem sabe, a Bíblia, que, a rigor, é um dos melhores livros de ficção e de não ficção; quer dizer, é uma obra que trata a realidade de maneira imaginativa, literária. O livro é tão real quanto ficcional). Aliás, talvez a palavra definitivo caiba apenas para livros literários…

O “Washington Post” escreveu a respeito da obra: “Um relato acachapante da desolação moral e física que assolou a Europa no final dos anos 1940. Com autoridade e embasamento, porém nunca árido, ‘Continente Selvagem’ derruba os mitos tranquilizadores e reconfortantes da unidade nacional e da vitimização — uma tarefa dolorosa mas necessária, realizada de maneira extraordinária”. “Kirkus Reviews” sublinha: “Minuciosamente pesquisado e escrito de modo rigoroso e objetivo, desde já um dos livros do ano”.

Um trecho do livro pode ser lido na internet, no site da Editora Zahar.

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