Euler de França Belém
Euler de França Belém

Historiador francês diz que médico de Himmler salvou mais de 300 mil pessoas, a maioria judeus

Massagista do chefão do Holocausto, Feliz Kersten trocava o valor das consultas por vidas humanas. Espécie de super-Schindler, negociou a salvação de milhares de judeus

Livro revela a história de Felix Kersten, médico de Himmler | Foto: Divulgação

O historiador francês François Kersaudy lançou, recentemente, o livro “O Médico de Himmler — O Homem Que Salvou Milhares de Pessoas do Holocausto” (Taurus, 392 páginas, tradução de María Pons Irazazabal), inédito em português. A obra foi comentada no jornal espanhol “Abc”, no fim de março, por Manuel P. Villatoro. Adiante, vou mencionar o texto do jornal espanhol. Porém, antes, vou relatar como o historiador alemão Peter Longerich, professor da Universidade de Londres, examina Felix Kersten no cartapácio “Heinrich Himmler — Uma Biografia” (Objetiva, 911 páginas, tradução de Angelika Elisabeth Köhnke, Christine Röhrig, Gabriele Ella Elisabeth Lipkau e Margit Sandra Bugs). Trata-se do melhor estudo da vida do criador, ao lado de Adolf Hitler, do Holocausto.

Longerich diz que Kersten se tornou “massagista” de Himmler em 1939. Alemão do Báltico (Estônia), ele se naturalizou finlandês. “Kersten conseguia, mediante massagens intensivas, aliviar ao menos temporariamente as dores de estômago” do líder nazista. “Não se sabe se Himmler realmente permitiu a Kersten o acesso a uma visão mais profunda de seu mundo interior. (…) Kersten, especialmente na fase final da guerra, foi encarregado por Himmler de tarefas importantes no que dizia respeito à mediação de contatos com o exterior”.

Em março de 1945, ao perceber que o sistema nazista ruíra, Himmler abriu conversações com o exterior e acreditou na possibilidade de “negociar” a liberdade de judeus dos campos de concentração para tentar se safar. Nesse período, Kersten morava na Suécia e “ofereceu os seus serviços ao ministro do Exterior sueco como um intermediário”. Depois de uma conversa com o médico — que Longerich prefere tratar como “massagista” —, “Himmler realmente determinou aos comandantes dos campos a suspensão da matança de prisioneiros judeus e que, de modo geral, combatessem a mortandade quando se tratava de judeus”.

Felix Kersten (no círculo) e Heinrich Himmler | Foto: Reprodução

Ao retornar a Estocolmo, Kersten disse a Hiller Storch, do Congresso Mundial Judaico, que “Himmler se mostrara disposto a libertar 10 mil prisioneiros judeus para envio à Suécia ou à Suíça”. O aliado de Hitler, a respeito da libertação de prisioneiros, já vinha conversando, desde fevereiro de 1945, com o conde Folke Bernadotte, que negociava em nome do governo sueco”. Os dois se encontraram duas vezes, em fevereiro e março.

Prisioneiros escandinavos foram, de fato, levados para Suécia, em trens da Cruz Vermelha. “O trato de Himmler com Kersten para liberar 10 mil prisioneiros representava um importante avanço desse processo de negociação. Na prática, muito mais do que os 8 mil prisioneiros escandinavos seriam salvos — foram salvas mais de 20 mil pessoas”, registra Longerich

Kersten mostrou aos suecos uma carta de Himmler. “Trata-se de um dos documentos mais surpreendentes que Himmler redigiu em toda a sua carreira de Reichsfüher-SS. Na carta, comunica a Kersten oficialmente a liberação de 2.700 pessoas, entre homens, mulheres e crianças judaicas, para a Suíça.”

Os Aliados, evidentemente, não tinham simpatia alguma por Himmler. Ao saber da “transferência dos prisioneiros para a Suécia, o ministro do Exterior, [Anthony] Eden, escreveu para Churchill dizendo que ele não gostaria de tomar nenhuma atitude nesse caso, por uma única razão: Himmler estava por trás da questão. Churchill anotou no relatório ‘bom’, e, em outra anotação à margem, esclareceu: ‘Nenhuma ligação com Himmler’”.

Num terceiro encontro com Bernadotte, Himmler teria sugerido que “tinha consciência de que tudo estava terminado”. Longerich escreve que Himmler sabia “que na lista de criminosos de guerra dos Aliados ele era o nº 1”. Mesmo assim, sugeriu ao conde que, se Hitler ficasse vulnerável — Longerich se pergunta se o nazista estava propondo um golpe de Estado —, se era possível abrir diálogo com os Aliados.

Bernadotte disse que, se Himmler assumisse o poder na Alemanha e dissolvesse o Partido Nazista, estaria disposto a entabular negociações com os Aliados. “Mas Himmler continuou indeciso.”

Em abril de 1945, Kersten informou que Himmler queria conversar diretamente com um representante do Congresso Mundial Judaico. Hillel Storch enviou Norbert Masur para o encontro. A conversa ocorreu no dia 20 de abril, à noite, e participaram dela Himmler, Masur, Schellenberg, Brandt e Kersten.

Peter Longerich: historiador alemão e biógrafo dos nazistas da Alemanha Heinrich Himmler, Joseph Goebbels e Adolf Hitler | Foto: Reprodução

Himmler mentiu, de maneira “descarada”, assinala Longerich, sobre o número de judeus vivos em Auschwitz e Budapeste. Os britânicos já tinham informações sobre as mortes de judeus em Bergen-Belsen. O fato é que era tarde para Himmler tirar a cabeça da forca. “Himmler não manteve sua promessa de março, feita a Kersten, de entregar os campos de concentração com a chegada das tropas aliadas. De fato, Bergen-Belsen fora entregue, mas porque a erupção da epidemia de tifo não permitiu que se desse continuidade às ‘evacuções’. (…) Himmler comprovadamente instruiu a chefia dos campos de concentração de Dachau e Flossenbürg diretamente a não permitir que qualquer prisioneiro caísse vivo nas mãos dos Aliados. Por isso, nos dias seguintes, a liderança da SS se recusou a atender os pedidos da Cruz Vermelha de entregar os últimos campos de concentração. (…) Ele [Himmler] só estava disposto a salvar vidas se recebesse recompensas concretas de seu opositor [os Aliados]. Do seu ponto de vista, os prisioneiros continuavam representando capital humano, que ele pretendia aproveitar até o final nas negociações — por isso a decisão de levá-los junto com ele até os últimos pontos de recuo”, anota Longerich.

No livro O Holocausto — Uma Nova História” (Vestígio, 574 páginas, tradução de Luis Reyes Gil), o historiador britânico Laurence Rees informa que “o massagista e fisioterapeuta pessoal de Himmler, Felix Kersten, ajudou a fazer lobby em favor da libertação não apenas de prisioneiros escandinavos — tantos judeus quando não judeus —, mas também de grande número de judeus de outras nacionalidades”.

Adolf Hitler e Heinrich Himmler: os formuladores do Holocausto | Foto: Reprodução

O historiador alemão Nikolaus Wachmann, no livro “KL — Una Historia de los Campos de Concentración Nazis” (Crítica, 1100 páginas, tradução de Cecilia Belza e David León), trata de Kerten numa única linha: “O duvidoso massagista de Himmler”.

Super-Schindler
Felix Kersten salvou milhares de judeus

Agora, exposta a versão de três historiadores, sobretudo a de Longerich, passemos ao texto “El héroe olvidado que convenció al jefe de las SS para ‘cobrar’ em vidas humanas”, do “Abc”. Vale frisar que o livro de Kersaudy, “El Médico de Himmler”, é mais recente e, por ser uma pesquisa específica e detalhada, pode oferecer uma versão mais ampla de Kersten, que, de acordo com o historiador francês, salvou mais de 300 mil pessoas — maioria judeus.

No encontro de 20 de abril de 1945, entre Himmler e o representante judeu Norbert Masur, chegou-se a um acordo: o líder nazista decidiu liberar mil mulheres judias do campo de concentração de Ravensbrück (onde Olga Benario, mulher de Luiz Carlos Prestes, foi assassinada). “No final, o número foi sete vezes maior.” Mentindo, Himmler disse: “Quis fazer o correto nesta guerra, mas o Führer exigia outra coisa”. Na verdade, ninguém era tão entusiasmado com relação à matança de judeus quanto Himmler.

François Kersaudy: historiador francês, biógrafo do alemão Felix Kersten, do francês Charles de Gaulle e do britânico Winston Churchill | Foto: Reprodução

Kersaudy assinala que Kersten era a única pessoa com quem Himmler falava sincera e abertamente a respeito de alguns temas, durante as sessões de fisioterapia. O médico era “um fervoroso anti-nazista e, conversando com o arquiteto da solução final [ao lado de Hitler], conseguiu salvar a vida de 300 mil presos que seriam assassinados nos campos de concentração e extermínio. (O texto do “Abc” cita dois números: 300 mil e 350 mil pessoas.)

Kersten tinha uma vida “dupla”. “Por um lado, mitigava, com seus tratamentos, as horríveis dores que atormentavam o Reichsfüher. Em troca, ‘exigia’ que o paciente liberasse deportados dos campos de concentração”, sublinha Kersaudy.

Ao repórter do “Abc”, Kersaudy disse, rindo: “Você não havia lido uma história igual a esta. Nem eu tampouco havia lido. Escrevi 30 obras e esta é a mais impactante”. De fato, o Jornal Opção consultou cerca de 10 livros sobre o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial (de historiadores como Ian Kershaw, Antony Beevor e Richard Evans) e há escassas informações sobre Kersten, às vezes tratado de maneira jocosa, como no excelente livro de Nikolaus Wachmann.

Analisar Kersten não é fácil, pois o médico se encarregou de espalhar mitos sobre si. Mas no geral, segundo Kersaudy, não mente. Examinando uma infinidade de fontes e e documentos, o pesquisador diz que conseguiu distinguir o que é fato e o que é lenda sobre “o homem que domou a besta”.

Conde Folke Bernadotte | Foto: Reprodução

Himmler e Kersten se conheceram em 1939. Médico da aristocracia, Kersten era discípulo de um lama tibetano, o doutor Ko. Ao voltar ao Tibete, ele deixou sua agenda de clientes para o ex-aluno. Especializado no que chamava de “terapia fisionatural”, conquistou clientes importantes da elite alemã.

Com dores abdominais, tão fortes quanto frequentes, Himmler procurou Kersten para se tratar. “Tinha câimbras terríveis. A dor era tão intensa que pensava que ia morrer sempre que sofria um ataque”, diz Kersaudy. O historiador sugere que o nazista padecia do mal de Crohn (“uma doença inflamatória do trato gastrointestinal”).

No início, Kersten não queria tratar Himmler, mas, por medo, decidiu aceitá-lo como cliente. O nazista era o homem mais “perigoso” da Alemanha, ao lado de Hitler, e talvez até mais do que o poderoso chefão.

Aos poucos, as dores diminuíram e Himmler se tornou “refém” das mãos “milagrosas” do médico. Kersten não conseguiu curar o paciente, mas contribuiu para aliviar suas dores. Os dois acabaram ficando ligados umbilicalmente, embora fossem bem diferentes. “O hierarca, de caráter supersticioso e obsessivo por natureza, ficou obcecado e queria o finlandês sempre ao seu lado. Até lhe apelidou de ‘Buda Mágico’.”

Himmler “não se deu conta de que”, devido à necessidade de tratamento contínuo, “se convertia numa marionete do médico, que sabia ser indispensável” ao nazista.

Paulatinamente, Kersten se tornou confidente de Himmler, que contava seus segredos mais íntimos. O massagista se tornou, indiretamente, uma espécie de psicanalista do chefão do Holocausto. Por isso, postula Kersaudy, o médico tem de ser visto como uma “fonte única”. “Temos muito poucos documentos que nos mostrem como pensavam os gangsteres nazistas. Há tão só as conversas de sobremesa de Hitler, os três livros de Albert Speer e o diário de Goebbels. Nada mais”, declara Kersaudy. O médico, portanto, é uma testemunha privilegiada do que dizia um dos homens chaves do governo nazista.

Rapidamente, Kersten percebeu que Himmler era frágil, porém “perigoso ao extremo”. Um homem simples, mas “decidido”.

Certa feita, Kersten disse a Himmler que um jovem, que trabalhava para um amigo, havia sido detido pelos nazistas. “Depois da sessão, Himmler lhe disse que seus honorários eram muito caros. Kersten sacou um papel [do bolso] e lhe respondeu que podia pagar a liberdade do garoto.” Himmler aceitou. “Aquilo se convertou num costume, como admitiu um oficial das SS interrogado depois da guerra: ‘Kersten? Esse maldito doutor nos ‘tomava’ prisioneiros com massagens’”, conta Kersaudy.

Com base em informações dos comitês judeus escandinavos, Kersten elaborava listas e, em seguida, abordava Himmler. “Quando Himmler estava enfermo era muito influenciável. Se tinha uma crise, [Kersten] apresentava mais listas.” Os membros das SS não apreciavam a ação do médico. Reinhard Heydrich, um dos arquitetos do Holocausto e subordinado a Himmler, tentou atacá-lo, mas acabou não podendo fazer nada.

Em fevereiro de 1945, Kersten recebeu “a informação de que Hitler havia dado ordem para destruir os 30 campos de concentração mais multitudinários [com maior número de prisioneiros] do Reich para eliminar provas”, pontua Kersaudy. “Demorou oito dias, mas [Kersten] conseguiu que seu paciente não transmitisse a ordem” de Hitler. “Se contarmos com os presos que teriam sido mortos na destruição, o médico salvou umas 300 mil pessoas. A cifra é maior inclusive do que se pensava até agora”, sublinha o “Abc”, citando o pesquisador.

Em abril, na sua missão mais arriscada, Kersten negociou com Himmler a libertação de 20 mil presos de vários campos de concentração nas proximidades dos países escandinavos. Com Hitler isolado no bunker da Chancelaria, disposto a se matar, Himmler se preocupava com a própria salvação. Ficou acordado que veículos da Cruz Vermelha sueca seriam usados, secretamente, para retirar os presos. Os meios de comunicação não deveriam revelar, quando os prisioneiros estivessem em segurança, que eram judeus. Kersaudy sustenta que o médico foi o principal negociador da liberdade dos judeus, mas o conde Bernadotte ficou com a fama. Ele acompanhou o processo, mas a figura central da libertação dos judeus foi o médico do nazista.

Para Kersaudy, o médico Kersten foi um resistente que agiu nas sombras, daí o escasso reconhecimento. O historiador conta que, a pedido de Himmler, colocou o assassino nazista em contato com o judeu Norbert Masur. O “objetivo” era livrar o chefão do Holocausto da forca. Tentando se livrar do julgamento, o nazista fez uma série de concessões. (Como se sabe, mais tarde, ele acabou se suicidando.)

Tido como uma espécie de diplomata por Kersaudy, Kersten acabou caindo em desgraça — era, afinal, “o” médico de Himmler. Ninguém que estivesse perto do formulador do Holocausto poderia “prestar” e sair incólume. O conde Bernadotte ficou com a fama — justa — de protetor de judeus. Kersten ficou na história como o médico — ou massagista — “de” Himmler. Uma fama nada boa e, segundo o pesquisador, injusta. Seus méritos foram reconhecidos tardiamente. Morreu em 1960, aos 61 anos.

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