Euler de França Belém
Euler de França Belém

História de um livro sobre jornalismo e guerra que seu primeiro leitor lapidou e reformatou para futuros leitores

Comprei livro sobre coberturas de guerra pelo jornalismo e descobri que seu ex-dono era um grande leitor. Além de comentários, acrescentou artigos esclarecedores 

Comprei este livro “super especial” pelo site Estante Virtual. Seu provável primeiro leitor, além da leitura criteriosa, criou uma espécie de livro dentro do livro, com a inclusão de recortes de jornais e breves comentários

Comprei o ótimo livro “A Primeira Vítima” (Nova Fronteira, 562 páginas, tradução de Sônia Coutinho), do jornalista Phillip Knightley, pelo portal Estante Virtual. O subtítulo brasileiro é: “O correspondente de guerra como herói, propagandista e fabricante de mitos, da Crimeia ao Vietnã”. Há histórias fabulosas e a obra, portanto, é obrigatória para jornalistas ou interessados em jornalismo. Mas o que quero contar é outra coisa.

O Estante Virtual reúne os principais sebos do país, de Norte a Sul, e seus serviços são de excelente qualidade. Tive um único problema: pedi um livro e o sebo enviou dois, alegando que não tinha mais a obra encomendada, um romance da escritora canadense Elizabeth Smart. Um dos livros era de Paulo Coelho, autor que não me interessa. “A Primeira Vítima” chegou certo, sem problemas. O que me impressionou foi o volume em si.

Seu antigo proprietário era, depreendo, um leitor visceral de política internacional. Alguém, não sei se ele, escreveu na primeira página: ‘“A Primeira Vítima’ é um livro super especial. Não se desfazer dele” (o texto é publicado como está no livro). A tinta é azul. Em seguida, com caneta de tinta preta, outra pessoa — a letra é diferente — acrescentou, depois de “desfazer dele”, a palavra “nunca”.

O autor do livro fez uma série de anotações sobre política internacional, atualizando o livro, que é de 1975 — a edição brasileira é de 1978 —, inclusive sobre o ataque da Al-Qaeda às torres gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001. Criando uma espécie de livro dentro do livro, o leitor consciencioso escreveu no final do índice: “Artigo de Paulo Francis — 144 e 562. Fui lá verificar. De fato, ele tirou cópias de artigos de Paulo Francis — sobre Stálin e ditaduras (não colocou o título), de 1980, e um segundo, com o título “Há 40 anos, Dia D selou sorte de Hitler” (“Folha de S. Paulo”, de 6 de junho de 1984) — como complemento para se entender o livro de Phillip Knightley. Dentro do livro há uma série de recortes de jornais, com artigos interessantíssimos publicados na “Folha” e no “Estadão”. Um dos artigos, “Militares vencem a guerra contra a imprensa” (“Estadão”, domingo, 2 de abril de 2000), é de Phillip Knightley.

O homem (sim, não era mulher) que leu “A Primeira Vítima” era culto, atento, cuidadoso e detalhista. Era muito bem informado. Não se contentou em ler o livro de Phillip Knightley. Estudou-o e acrescentou informações, ampliando e atualizando as histórias contadas pelo jornalista. A obra custou 50 reais, mas, dada a leitura do proprietário anterior, que avalio tenha sido o primeiro, tornou-se, para mim, muito valioso.
Comovido com o cuidado do leitor, e acreditando que, se vivo, não venderia o livro, que se tornara uma coisa íntima, uma preciosidade — um diamante para o cérebro, que ele ajudara a lapidar, com o acréscimo de informações —, anotei seu nome e procurei informações na internet. Parece que morreu em 2010. Uma pena.

Li o capítulo no qual Phillip Knightley comenta a cobertura jornalística durante a Guerra Civil Americana, entre 1861 e 1865. Era um jornalismo de baixíssimo nível, com falsificações grosseiras. Americanos do Sul e do Norte e ingleses distorciam os fatos abertamente. Ao grifar os trechos que considero mais importantes, até para facilitar a redação de um comentário, faço-o com cuidado, pensando no que diria o dono anterior, que, apesar de colar textos e rechear o livro com artigos soltos, tratou seu exemplar com o máximo de cuidado.

Os papéis velhos dos jornais me fazem espirrar, me deixam alérgico. Mas, não sei por quê, não consigo retirá-los do livro. Penso em arranjar uma caixa para guardá-los, como lembrança de um homem que era bom leitor, que sabia como ler um livro e reformatá-lo, com acréscimos úteis e perceptivos. Ao mesmo tempo, hesito: acho que devo deixá-los lá. Não sei o que farei, mas começo a amar o livro, e não apenas pelas grandes histórias.

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Um leitor em extinção.

JOSÉ ALVES FRAGA

Euler,
Algo semelhante aconteceu comigo. Há algum tempo comprei um livro também pelo site Estante Virtual. O autor havia feito uma dedicatória do exemplar para outro grande escritor do ramo. Deixo de relatar os dados por se tratar de livro maçônico, tema que, seguramente, não é sua praia.

Carlos Spindula

Muito bom ler e estudar um livro sobre um assunto que gostamos e acrescentar algo ainda à posteridade, o que esse leitor-autor fez ! Ainda bem que foi cair nas mãos certas após seu provável falecimento. A leitura e a reflexão também nos traz muito prazer e alegria !