Euler de França Belém
Euler de França Belém

Hélio Pólvora traduziu romance de Faulkner com mestria insuperável

Hélio Pólvora, prosador: traduziu Faulkner mas sem “desentortá-lo”

Hélio Pólvora, prosador: traduziu Faulkner mas sem “desentortá-lo”

Quem leu William Faulkner em português sabe que as traduções de Hélio Pólvora são de excelente qualidade. Sua versão de “Enquanto Agonizo”, um dos mais importantes romances do escritor americano, mantém, com rara precisão, a linguagem enviesada da obra. Por que o escritor, tradutor e crítico baiano transcreveu a complexa história de Addie Bundren, uma Ulisses em busca de sua Ítaca — só que morta, mas com a história tornando-a mais viva do que nunca, e com os vivos (o marido e os filhos) parecendo fantasmas numa procissão —, com tanta felicidade? Primeiro, óbvio, porque tinha domínio total das línguas de partida e de chegada. Segundo, porque, como escritor e crítico, conhecia bem literatura, notadamente a literatura moderna, tipo James Joyce, Guimarães Rosa e Faulkner.

Sente-se, na leitura de “En­quanto Agonizo”, que Faulkner está “vivo” em português. A tradução é tecnicamente irrepreensível e, ao mesmo tempo, é ricamente literária. A tradução de Wladir Dupont não é ruim, também é precisa, mas falta alguma coisa, sabe-se lá o quê. Numa formulação imprecisa, talvez seja possível sugerir, mais do que afirmar, que a versão de Hélio Pólvora é mais literária e captura os vieses de Faulkner de maneira mais milimétrica. A precisão de Wladir Dupont, quiçá derivada de sua formação jornalística, é fato, mas há uma secura talvez excessiva no texto. Sua versão, embora muito boa, é mais solene, por assim dizer. Não é preciso desentortar Faulkner para torná-lo legível.

Hélio Pólvora faleceu no dia 26 de março, aos 86 anos, com escassa repercussão na imprensa. Tinha câncer e morreu de uma parada cardiorrespiratória.

Ele era escritor, autor de “Os Galos da Aurora”, “Inúteis Luas Obscenas”, “Don Solidon”, “Memorial de Outono” e “Contos da Noite Fechada”. Sua literatura foi traduzida em vários idiomas, como espanhol, inglês, francês, italiano, alemão e holandês.

Era jornalista — escreveu na “Veja”, no “Jornal do Brasil”, no “Correio Braziliense” e em “A Tarde”. No último, escrevia editoriais e crônicas no “Caderno 2”.

Trecho de “Enquanto Agonizo”

Cash, personagem de “Enquanto Agonizo” (página 191), diz: “Às vezes eu me pergunto se alguém tem o direito de dizer se um homem está maluco ou não. Às vezes eu penso que nenhum de nós é inteiramente louco ou inteiramente são, até que a maioria nos identifica de uma ou de outra maneira. Não importa muito a maneira como um homem age, e sim a maneira como a maioria das pessoas olha-o enquanto ele age”. (Página 191)

[“Enquanto Agonizo“, de William Faulkner. 212 páginas, Expansão Editorial, 1978, tradução de Hélio Pólvora]

Trecho do prefácio de Hélio Pólvora para “Enquanto Agonizo”

“A tradução requer algumas palavras. O estilo de Faulkner, aqui, é direto, extremamente condensado, como se ele pretendesse carregar uma frase ou uma palavra do maior número possível de significações. O tradutor optou pela versão quase literal do texto, somente a ela fugindo quando forçado pela necessidade de clareza. O outro critério possível neste caso seria traduzir literariamente a linguagem de Faulkner; o texto ficaria mais bonito, mais fluente, mas não teria a rudeza, o coloquialismo e a feroz condensação do original. O leitor não afeiçoado a este universo deve nele procurar penetrar munido de paciência: a cena vai se esclarecendo aos poucos, à medida que falam as personagens. Certos trechos permanecerão obscuros, porque, em alguns casos, as personagens não sabem o que dizer ou como dizer. Conforme observou o próprio Faulkner, ‘ninguém procura ser obscuro só pelo prazer de sê-lo. Mas, em certos momentos, o escritor é simplesmente incapaz de encontrar um meio mais eficaz de contar a história que busca contar’”. (Página 13)

 

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Xavier

Pois Hélio Pólvora também traduziu o grande romance-contos Desça, Moisés! de William Faulkner, em 1981, lançado pela editora Expressão e Cultura.