Gripe espanhola em Goiás: primeira cidade atingida foi Ipameri. Morreram 38 pessoas em 17 dias

A cidade de Catalão também foi atingida. Porque a estrada de ferro “trazia” crescimento econômico e vírus

Eliézer Cardoso de Oliveira

Especial para o Jornal Opção

Em tempos de coronavírus, não custa relembrar a passagem de uma outra epidemia — muito mais letal — pelas terras goianas: a gripe espanhola de 1918. Nenhuma epidemia matou tanta gente em um espaço de tempo tão curto. As estatísticas conservadoras estimam os mortos em 20 milhões, as mais ousadas postulam o assustador número de 100 milhões de vítimas. Numa infeliz coincidência, bem no final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a onda de gripe se espalhou pelo globo, atingindo os lugares mais inusitados, como as ilhas do Pacífico Ocidental, povoados esquimós canadenses, aldeias indígenas na floresta amazônica e os pequenos núcleos populacionais do Estado de Goiás, no centro do País. Em Goiás, a doença provocou a desestruturação dos serviços públicos, alterou a rotina da população, afetou a produção agrícola e provocou a convalescença e morte de um grande número de pessoas.

Rodrigues Alves , presidente da República, morreu em 16 de janeiro de 1919 | Foto: Reprodução

A gripe, também conhecida na época como influenza espanhola, chegou ao Brasil em setembro de 1918. Até o mês de novembro, já havia se espalhado por grande parte do território nacional, provocando a morte de mais de 300 mil pessoas. Uma delas foi o presidente eleito Rodrigues Alves, que, convalescente, nem chegou a tomar posse, falecendo em 16 de janeiro de 1919, aos 70 anos. A morte do presidente, na opinião de Cláudio Bertolli Filho, autor do livro “A Gripe Espanhola em São Paulo, 1918” (Paz e Terra, 393 páginas, 2003), ajudou a provocar a ilusão de que a letalidade da gripe era democrática, atingindo igualmente ricos e pobres.

Em Goiás, os relatos indicam que a epidemia se tornou visível no mês de novembro de 1918. A primeira localidade atingida foi Ipameri, município que, desde 1913, estava passando por uma grande euforia de crescimento econômico pela chegada dos trilhos da estrada de ferro. Ironicamente, os trilhos que prometiam progresso trouxeram a gripe espanhola. Em um telegrama, datado de 11 de novembro, o intendente municipal informava que “metade da população” estava prostrada, por causa da “insidiosa influenza espanhola”, sendo dois casos fatais.  No dia 28 de novembro, o telegrama de Luiz Vieira, juiz municipal, informava que, apesar de haver 1800 pessoas atingidas pela gripe e 40 mortes, a epidemia estava declinando. Se os dados estiverem corretos, em um período de 17 dias, 38 pessoas morreram atingidas pela gripe.

Em Ipameri, durante a epidemia da gripe espanhola, aconteceu algo atípico. Diante da falta de recursos financeiros para combater a doença, o intendente municipal conseguiu que os contribuintes antecipassem o pagamento de impostos que venceriam no ano de 1919.  É um caso raro de pagamento de imposto antecipado, um louvável ato de cidadania dos ipamerinos, compreensível apenas no contexto da dramaticidade acarretada em tempos de epidemia.

Catalão

Catalão, município próximo a Ipameri, também situado junto à ferrovia, teve casos de gripe em novembro. No dia 13, um alferes comunicava, num telegrama, que todo o destacamento militar, inclusive o comandante, estava “guardando leito”, por causa da gripe. Em virtude da estrada de ferro, a epidemia atingiu precocemente as cidades de Catalão e Ipameri. Nas outras localidades goianas, a espanhola só seria percebida no início de 1919.

Alertada da situação de Ipameri e Catalão, a administração municipal da Cidade de Goiás, capital do Estado na época, tomou uma série de medidas para impedir, nas palavras do jornal “Correio Oficial”, que a “calamidade batesse em nossas portas”. Ainda no mês de novembro de 1918, foi distribuído desinfetante às “classes pobres” e montada uma barreira, nos arredores da cidade, para impedir a entrada de doentes. Percebe-se que as autoridades vilaboenses procuravam combater a gripe, utilizando práticas antigas, como a quarentena (utilizada para evitar epidemias de varíola) e a teoria higienista (utilizada para combater a febre amarela). As medidas foram ineficazes, sendo que o próprio chefe do serviço sanitário da capital, o médico Alípio Alpino da Silva, contraiu a doença, vindo falecer no ano seguinte.

O mês mais crítico para a população da Cidade de Goiás foi o mês de janeiro de 1919. Apenas na terceira semana, houve 19 óbitos por causa da gripe. Até o mês de fevereiro, mais de 80 pessoas foram vitimadas pela doença, um número elevadíssimo para uma população de menos de 8 mil habitantes. As autoridades procuraram minimizar os efeitos da epidemia, criando postos extras de atendimento médico e distribuindo remédios e alimentos à população pobre. O jornal oposicionista, “O Goyaz”, denunciou que os remédios gratuitos foram insuficientes, enquanto o governista “Correio Oficial” rebateu, afirmando que a denúncia tinha motivação política. Sem condições de avaliar objetivamente o debate, cabe ao historiador apenas descrevê-lo, embora no íntimo permaneça a sensação de que, em casos como esses, a oposição quase sempre tenha razão.

Também em janeiro de 1919 a epidemia atingiu Anápolis. O coletor da cidade justificou o atraso na escrituração, afirmando que fora acometido pela gripe, assim como centenas de seus conterrâneos. Foi também em janeiro que a gripe atingiu a cidade de Rio Verde, onde o jovem médico Pedro Ludovico Teixeira, que depois se tornaria famoso como o construtor de Goiânia, era o inspetor sanitário encarregado de tratar dos doentes. Na Vila de Caldas Novas, o professor da escola primária masculina, um tal de Adolpho de Almeida, informou que nove de seus 37 alunos não compareceram às aulas no mês de janeiro, vitimados pela gripe. Em Jaraguá, uma professora justificou a sua longa ausência ao trabalho, entre 15 de fevereiro e 10 de março, por ter sido acometida pela gripe espanhola.

É provável que praticamente todas as localidades goianas, em maior ou menor grau, tenham sido atingidas pela gripe. O padre redentorista alemão Francisco Wand, que percorreu a região, registrou, em suas memórias, o nefasto efeito da gripe nas aldeias indígenas do Norte de Goiás (atual Tocantins). Segundo ele, os indígenas de uma aldeia próxima ao Rio Tocantins “atacados pela febre alta, muitíssimos, em procura de alívio, lançam-se nas águas frias do rio e lá encontram morte instantânea”.

Em Goiás, a gripe espanhola não provocou cenas dantescas como as registradas nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, onde pessoas eram enterradas em valas coletivas e corpos insepultos ficavam por longo tempo expostos nas ruas. No entanto, não se pode subestimar o impacto da epidemia no cotidiano da população. Num ambiente em que predominavam pequenas cidades e povoados, as vítimas eram, geralmente, pessoas conhecidas, quando não, parentes ou amigas. O sombrio badalar dos sinos das igrejas católicas anunciando o sepultamento era detalhista o suficiente para especificar uma sonoridade que distinguia quando o finado era “anjinho”, “adulto”, “homem” ou “mulher”. O badalar ressoava a mais de cinco quilômetros de distância, ampliando a apreensão da população, naqueles janeiros em que era o raro o dia em que o sino não tilintava.

Para Jeanet Farrell, autora do livro “A Assustadora História das Pestes & Epidemias” (Ediouro, 2003), o efeito sociológico mais pernicioso das epidemias é transformar “o medo da doença em medo do outro”. Com isso a solidariedade social que permeava as relações de vizinhanças em pequenas comunidades foi abalada ou até suprimida. Eduardo Souza Filho presenciou a situação de “famílias em que todos os membros ficaram acamados, sem ter quem acudisse um ao outro”.  No livro “Molecagens em Vila Boa” (Agepel, 2000), há um diálogo que demonstra o teor moralizante da epidemia na Cidade de Goiás: “Você sabe quais as pessoas que mais morreram recentemente com a influenza hespanhola? Os cachaceiros! Principalmente os cachaceiros inveterados!” Esse uso moral da epidemia comprova a tese do livro de Susan Sontag “A Doença Como Metáfora” (Edições Graal, 2002) de que as doenças são mais do que eventos biológicos, sendo também metáforas dos medos e preconceitos sociais.

O ano de 1919 foi um ano extraordinariamente difícil para a população goiana. Nele coincidiu a carestia, a epidemia de gripe e a chamada Chacina do Duro.

As comunidades tradicionais não têm como meta o acúmulo da produção excedente para a comercialização. Por isso, qualquer transtorno social pode gerar uma crise na produção. Foi o que ocorreu com a gripe espanhola em Goiás. Como chegou entre novembro e fevereiro — meses destinados às atividades relacionadas ao plantio e à colheita —, desestabilizou a oferta de alimentos.

O cronista Eduardo Souza Filho relatou que, na Cidade de Goiás, “como a espanhola atacara violentamente a zona rural, poucos lavradores fizeram colheita generosa. Deu batedeira nos porcos, desenvolveu peste entre as aves e a aftosa atacou os rebanhos. O toucinho, a carne, o leite faltaram!”. Além disso, houve escassez e encarecimento dos produtos essenciais para a sobrevivência, como arroz, feijão e farinha de mandioca.

Para piorar a situação, em janeiro de 1919, o governo de Goiás estava enfrentando uma guerra com os coronéis no Norte do Estado, que culminou na chamada “Chacina do Duro”, quando a polícia chacinou parentes do poderoso coronel Abílio Wolney. A chacina, imortalizada no romance de Bernardo Élis “O Tronco” e no filme homônimo de João Batista de Andrade, teve repercussão nacional.  Portanto, 1919 foi o ano em que os Quatro Cavaleiros do Apocalipse galoparam pelo sertão goiano, espalhando a guerra, a peste, a fome e a morte.

Depois de provocar mortes, sofrimentos e muitos outros transtornos, a gripe espanhola foi gradativamente perdendo a sua força em Goiás. Até que, por volta de meados de 1919, desaparecera por completo. Em julho desse ano, numa solenidade em que se comemorava a construção da primeira estrada para automóvel, na pequenina Rio Verde, o jovem médico Diógenes Magalhães proferiu um discurso que expressa o alívio geral pela provação enfrentada naquele ano. Vale à pena relembrar algumas de suas palavras: “Rio Verde! Foi nas horas trágicas da desgraça, que, faz longos meses, te batia às portas mal seguras; foi nos dias incertos e tristes em que o furacão epidêmico rugia por sobre os tetos das tuas casas em séculos de dúvidas e incertezas; foi, enfim, na imensidade da tua dor inexprimível que auscultei o teu peito e senti, no entrechocar de suas vibrações interiores, o quanto és altiva e és forte nos negros instantes de amargura acerba”.

Por trás da bonita oratória do jovem médico, há o orgulho de uma comunidade, que, como muitas outras existentes em Goiás, sobreviveram a uma terrível provação. Em meio ainda a lembrança daqueles que pereceram, os rio-verdenses, assim como outros goianos, foram fortes o suficiente para construir uma nova estrada e trilhar novos caminhos futuros.

Eliézer Cardoso de Oliveira, doutor em Sociologia, é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG).

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