Euler de França Belém
Euler de França Belém

A Grande Aposta é um filme brilhante sobre a crise financeira dos Estados Unidos em 2008

Os atores Christian Bale, Steve Carell e Ryan Gosling brilham em “A Grande Aposta”, filme que descortina, de maneira competente, a crise americana de 2008. Poucos perceberam o buraco negro do mercado financeiro

Os atores Christian Bale, Steve Carell e Ryan Gosling brilham em “A Grande Aposta”, filme que descortina, de maneira competente, a crise americana de 2008. Poucos perceberam o buraco negro do mercado financeiro

Cinema é como MMA: entretenimento — não é arte (o boxe é arte ou quase; com Joe Louis, Sugar Ray Leonard e Muhammad Ali). Mas há filmes excepcionais, como “O Poderoso Chefão”, e pelo menos uns dois ou três de Ingmar Bergman e John Ford e um de Woody Allen (“Crimes e Pecados”, pastiche dos bons de “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski). Não há dez filmes memoráveis (mas felizmente há pelo menos 50 livros memoráveis). “A Grande Aposta”, do diretor Adam Mckay, é um grande filme. Claro que para adultos, desses poucos que conseguem ficar sentados, concentrados, para ver coisas sérias sendo mostradas na tela do cinema. Cinéfilos “viciados” por certo vão dizer: “Isto não é cinema; é uma aula de economia com o uso de técnicas do cinema”. Talvez seja isto mesmo. O fato é que há muito tempo não via um filme inteligente e tão bem feito quanto “A Grande Aposta”.

O filme relata, de maneira didática mas não modorrenta, sem a chatice dos documentários acadêmicos, a história da crise americana de 2008. A crise imobiliária era, na verdade, uma grande crise financeira que afetou o país e, mesmo, o mundo. Explicar uma crise financeira, em pouco mais de 100 minutos, não é muito fácil. O mercado financeiro é assunto intrincado até para especialistas. Pois Adam Mckay, com um roteiro ágil e criativo, conseguiu o que parecia impossível: transformou um estudo de economia num filme ágil — apesar de certos momentos áridos — e perfeitamente assimilável. Cobra-se apenas um pouco de atenção do espectador.

Francis Ford Coppola pegou um livro mediano, de Mario Puzo, e o transformou num filme-ícone: “O Poderoso Chefão”. Adam Mckay teve sorte: teve em mãos o livro “A Jogada do Século — A História do Colapso Financeiro de 2008” (Best Business, 322 páginas, tradução de Adriana Ceschin Rieche), do jornalista Michael Lewis, formado por Princeton e com mestrado em economia pela London School of Economics. Até economistas gabaritados avaliam o livro como instigante e sua pesquisa como extremamente original. Antes que economistas e historiadores, com mais distanciamento, escrevessem a história da crise financeira, Michael Lewis ouviu as pessoas certas e conseguiu uma explicação convincente e original.

O livro de Michael Lewis consegue explicar as jogadas complicadas do mercado financeiro americano com extrema clareza e precisão

O livro de Michael Lewis consegue explicar as jogadas complicadas do mercado financeiro americano com extrema clareza e precisão

Michael Lewis escreve (e pensa) tão bem, explica assuntos áridos com tal clareza, que um escritor da qualidade de Tom Wolfe, que também busca abrir os escaninhos dos negócios das elites americanas, escreveu a seu respeito: “O melhor escritor americano da atualidade”.

Não satisfeito em explicar o que aconteceu em 2008, a alta “malandragem” dos gênios do mercado financeiro e a ala daqueles que contribuíram para desconstrui-la, Michael Lewis escreveu outro livro brilhante: “Flash Boys — Revolta em Wall Street” (Intrínseca, 238 páginas, tradução de Denise Bottmann). O livro relata o que aconteceu com o mercado financeiro depois da crise de 2008, quando banqueiros e investidores “mudaram” as regras do jogo — burlando, muitas vezes, as regras estabelecidas pelo governo — e continuaram ganhando muito dinheiro. Michael Lewis conta a história de alguns garotos de ouro de Wall Street e, aos poucos, vai mostrando como tomam consciência de como se ganha dinheiro — às vezes, fácil — no mercado financeiro. O espantoso é que nem mesmo as pessoas (elas admitem) do meio têm noção precisa de como se arma o jogo e não sabem explicar por quais razões determinados investidores ganham mais do que os outros. Linhas (telefônicas) de alta frequência, ultrarrápidas, são meios para comprar ou vender ações mais rapidamente. Devido a milissegundos, uns ganham e outros perdem mais.

Mas e o governo americano, com seus milhares de técnicos e grampos telefônicos? Está, ou estava, mais perdido do que cego em tiroteio de cegos. Num dos momentos em que interferiu, para pôr ordem na casa, avaliando que estava produzindo “igualdade” entre os investidores, contribuiu para aumentar a desigualdade. Por má-fé? Por falta de informação precisa do que é o mercado financeiro moderno, que mudou integral e rapidamente.

Os livros de Michael Lewis são pequenas obras-primas. Quem não estiver disposto a encará-los, por um motivo ou outro, não deve perder o filme “A Grande Aposta”. É um filme brilhante.

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