Há cantoras e intérpretes. E há cantoras-intérpretes — este é o caso da maior delas, ao menos no Brasil: Elis Regina.

Uma música, depois de cantada por Elis Regina, se tornava outra. A música passava a ser do compositor e da cantora.

Elis Regina se apropriava, como poucas, das obras de seus parceiros. Mas não era nada ruim, porque, quando gravava uma música, a cantora consagrava os compositores, como Belchior.

Belchior se tornou um gigante nacional quando Elis Regina gravou “Como Nossos Pais”, um sucesso estrondoso. Ele já era bom, muito bom, mas se tornou muito “melhor” depois que a voz da cantora encorpou suas letras, dotando-as, não apenas de inteligência, sutileza e leveza da precisão vocal, mas de beleza e emoção (a dos afinados).

Belchior: o compositor que soube dialogar com a tradição musical brasileira | Foto: Reprodução

Na voz de Elis Regina — assim como quando ela gravou “O bêbado e a equilibrista”, de Aldir Blanc e João Bosco —, a música de Belchior ganhou “cores” de música lírica; de ópera, quiçá.

A Volkswagem, que chegou ao Brasil em 1953, no governo finalmente democrático de Getúlio Vargas, decidiu comemorar sua, digamos, senectude renovando-se, unindo o passado ao presente, com o apoio da inteligência artificial.

Durante anos, a Kombi, ao lado do Fusca e, depois, do Gol, se tornou sinônimo, mais do que da Alemanha, de Brasil. Um sucesso. Hoje conta até com colecionadores — gente que faz tudo para não vender seu, por assim dizer, “troféu” (o jornalista William Bonner não vende seu Gol de maneira alguma). Como o “martelo” em 1991, a Kombi foi-se em 2013, depois de sobreviver no mercado por quase seis décadas. Deixou muita gente saudosa. Porque, de alguma maneira, é um ícone.

Para se homenagear — além de divulgar a seleta (é para poucos; a edição é limitada) ID.Buzz, espécie de Kombi elétrica — e homenagear a cultura patropi, a Volkswagen convocou a agência AlmapBBDO e pediu uma publicidade criativa.

Pois a agência produziu uma publicidade tão inteligente e graciosa quanto a do primeiro sutiã, de anos atrás (“o primeiro sutiã, a gente nunca esquece”, de delicadeza ímpar).

A Kombi e a ID.Buzz (elétrica): entre o passado e o presente | Foto: Reprodução

Dentro de uma Kombi (Elis Regina) e de uma ID. Buzz (Maria Rita), a agência postou as cantoras Elis Regina e Maria Rita cantando “Como Nossos Pais”. Ficou belo, sensível e delicado. Não há pieguismo ou sentimentalismo na peça publicitária. Há aquela beleza de um quadro em que tudo parece que está no lugar certo. Até a música, seu conteúdo, foi bem escolhida.

Dirigindo, sem lenço nem documento, Maria Rita começa cantando a música de Belchior, com sua bela voz — menos cortante, dada sua suavidade vocal —, dirigindo uma ID.Buzz. Em seguida, aparece Elis Regina dirigindo uma Kombi. As duas emparelham os veículos e cantam juntas — num momento lindo (fico a imaginar o que diria meu pai, Raul Belém, que tinha todos os discos da Pimentinha e que sabia suas músicas de cor e salteado, assim como as de Chico Buarque). Pura epifania.

O comercial da Volkswagen é um sucesso de audiência (mais de 1 milhão de visualizações no YouTube e 650 mil no Twitter). A revista “Veja” colheu a opinião de Washinton Olivetto: “A publicidade brasileira estava precisando de um trabalho com essa pegada emocional, capa de encantar as pessoas”. De fato, não há cheiro de kitsch.

Como se fez o comercial? Empregando a técnica deep fake. “As expressões da cantora foram aprendidas e emuladas por um software, e depois aplicadas sobre o rosco de uma dublê”, registra a “Veja”.

O produtor João Marcelo Bôscoli, filho de Elis Regina, disse: “Foi tudo feito com carinho e respeito. Emocionou profundamente a Maria Rita e me emocionou também”. “Veja” relata que “a viagem nostálgica proporcionada pela IA teve o mérito, ainda, de reavivar a memória musical de Elis Regina, ampliando seu apelo junto à nova geração. Da noite para o dia, a procura pelos discos e canções da artista explodiu em serviços de streaming como o Spotify. Foram 3 milhões de audições em 24 canções — performance puxada por ‘Como Nossos Pais”.

Executivo da AlmapBBDO, Sergio Katz assinala que a publicidade “não é uma campanha para vender carro, é uma homenagem aos brasileiros, celebrando o passado e projetando o futuro”.

A publicidade mostra, além da Kombi e da moderna ID.Buzz, outros automóveis da Volks, como a Brasília, o Fusca e o primeiro Gol