Euler de França Belém
Euler de França Belém

Goiana de Pirenópolis foi casada com aliado do terrorista Carlos Chacal   

Antonio Expedito Carvalho Perera, que militou na VPR, foi casado com a goiana Nazareth Oliveira. Na Itália, ele era conhecido como o “psicólogo” Paulo Parra

Quanto mais sinistra é a vida, mais absurda é a morte.” — Paul Nizan

A história da ditadura civil-militar e da resistência pacífica (MDB e PCB) e armada (ALN, VPR, MR-8, entre outras correntes) tem sido contada tanto por historiadores — entre eles, os brasilianistas, como Thomas Skidmore e Alfred Stephan — quanto por jornalistas, como Elio Gaspari. Mesmo tendo sido um acontecimento bem próximo — a ditadura se torna quarentona no próximo ano —, a documentação é farta e, portanto, há registros competentes, não puramente análises ideológicas. Mas há muito por contar e há personagens que sequer foram explorados pela historiografia, exceto, ligeiramente, pelo jornalismo. É o caso do gaúcho Antonio Expedito Carvalho Perera (não é Pereira), que começou na direita, como advogado em Porto Alegre, caminhou para a extrema esquerda, em São Paulo, trafegou pelo terrorismo, na França, e morreu na Itália, em 1996, aos 65 anos, como eurocomunista. A história quase surrealista desse político é contada no excelente “O Homem Que Morreu Três Vezes — Uma Reportagem Sobre o ‘Chacal Brasileiro’” (Record, 335 páginas), do jornalista Fernando Molica.

Fernando Molica divide o livro em três movimentos: o primeiro conta a vida de Antonio Expedito Perera, o direitista; o segundo relata a vida de Antonio Carvalho Perera, o esquerdista no Brasil e o terrorista na Europa; o terceiro rastreia a vida de Paulo Parra, o nome final de Perera, na Itália. Advogado, congregado mariano, integrante do Partido Democrata Cristão (PDC), Perera apoiou o golpe civil-militar de 1964, dedurou alguns “amigos” como comunistas, defendeu o assassinato de Leonel Brizola, mas se deu mal, pois perdeu o cargo público, sob acusação de ter falsificado atas das Lojas Vídeo. Em desgraça em Porto Alegre, Perera muda-se para São Paulo, em companhia da mulher, Nazareth Antonia Oliveira, goiana de Pirenópolis (“Eu me criei no palco. Desde menina eu escrevia peças e atuava na escola e no teatro de Pirenópolis”, conta Nazareth).

Antonio Expedito Carvalho Perera, em Porto Alegre | Foto: Álbum de família

Advogado, simpatizante e guerrilheiro

No início, em São Paulo, Perera integrava a Ordem Rosa-Cruz e, segundo Nazareth Oliveira, fazia planos de ingressar na maçonaria. Fernando Molica mostra que o camaleão não muda inteiramente de nome, mas exclui o Expedito, tornando-se apenas Antonio Carvalho Perera e aproxima-se, primeiro como advogado, de militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Sem avisar a mulher, esconde em seu apartamento o principal teórico da VPR, Ladislas (hoje, Ladislau) Dowbor, que usava os nomes de guerra de Nelson e Jamil, Valdir Carlos Sarapu, o Braga, e o capitão Carlos Lamarca, o César. Como advogado, trabalhou com Annina Alcântara de Carvalho (que defendeu o goiano Tarzan de Castro, este também ouvido por Fernando Molica), que, mais tarde, tornou-se sua amante.

Num trabalho de pesquisa primoroso, Fernando Molica sugere que o primeiro contato de Perera com a VPR (grupo que nasceu em 1968) se deu por intermédio do ex-sargento do Exército Onofre Pinto (personagem da guerrilha que merece um livro à parte, por ser mais misterioso do que o Cabo Anselmo, de quem era amigo). As fontes do jornalista são, nesse caso, Valdir Sarapu, Roberto Cardoso Ferraz do Amaral, Diógenes Oliveira, Maria do Carmo Brito e Renata Ferraz Guerra de Andrade. No começo, Perera era simpatizante da VPR, mas não um militante. “A análise dos processos arquivados no STM reforça a versão de que Perera não era um integrante da VPR, pelo menos até seu banimento do Brasil, em janeiro de 1971”, escreve Fernando Molica. Izaías do Vale Almada garante que ele era um colaborador da corrente guerrilheira.

Antonio Expedito Perera e sua mulher, Nazareth, em 1966, no Rio de Janeiro | Foto: Álbum de família

Fernando Molica mostra que, embora enfrentasse forças policiais organizadas e muito bem armadas, o improviso substituía o planejamento na guerrilha, o que prova a seguinte história: “Um dos homens mais procurados do país, Lamarca se viu obrigado a sair do prédio da Rua das Palmeiras, em Santa Cecília [em São Paulo], agachado no banco traseiro do fusca ao lado de [Joaquim] Câmara Ferreira, um dos dirigentes máximos de outra organização guerrilheira [a Ação Libertadora Nacional]. Ambos cobertos por travesseiros e almofadas”. “Ficamos rodando por quatro horas, das dez da noite às duas da madrugada, para saber onde iríamos colocar o Lamarca”, revela Benedicta Savi, a Ditinha. No final, Lamarca ficou escondido no apartamento da atriz Lílian Lemmertz (mãe da atriz Júlia Lemmertz, que faz o papel de Noêmia, na novela “Celebridades”). Perera, já então uma espécie de “advogado oficial” da VPR, também escondia seus militantes, principalmente os ex-militares, como Onofre Pinto. “Em fevereiro [de 1969], dois outros homens são mobilizados para garantir a segurança de Onofre e seus companheiros: o capitão reformado do Exército Afonso Cláudio de Figueiredo, que servira com Lamarca em 1962, no mesmo quartel de Osasco, e Antonio Expedito Carvalho Perera”, aponta Fernando Molica. Mais tarde, “decidiu-se então que Lamarca e Onofre não voltariam para o esconderijo de Santo Amaro: seriam levados para outro endereço, para o apartamento 61 do edifício Buriti, onde Perera vivia com a família. Apartamento que deixara de ser uma típica residência de classe média para transformar-se em um aparelho da VPR, local de abrigo para alguns dos homens mais procurados do país. Perera rapidamente evoluíra da condição de advogado para a de simpatizante e, depois, para a de colaborador da organização”.

Túmulo do dr. “Paulo Parra”, no cemitério de Bettola, na Itália | Foto: Imagem de José de Arimateia/TV Globo

Em março de 1969, Onofre Pinto deixa o apartamento de Perera e sai para um encontro com Diógenes de Oliveira, o Luís, e é preso. “Eu vi ele sendo preso”, relata Ladislas Dowbor. Diógenes (como Roberto Cardoso Ferraz do Amaral) já estava preso e abrira o ponto. Perera, Lamarca, Sarapu e Ladislas tentam resgatar o companheiro, mas não conseguem. Na madrugada, soldados do Exército invadem o apartamento de Perera. Os militares levaram Onofre Pinto, que estava ajoelhado e muito machucado. Ele havia sido torturado por mais de 12 horas seguidas. Demorou a abrir a informação do apartamento para possibilitar a fuga de Lamarca e Perera. No quartel do exército, Nazareth “é recebida com um murro. Ao levantar-se, leva outro soco, e mais outro. É chamada de comunista, de terrorista, de puta”. A mulher de Perera, que nem sabia que César era Lamarca, “leva choques por todo o corpo”. “Como se recusasse a dar uma pista do paradeiro daqueles dois homens [Perera e Lamarca], é colocada nua e, em seguida, pendurada de cabeça para baixo — seus tornozelos tinham sido amarrados a cordas que pendiam de roldanas presas no teto”, diz Fernando Molica.

Comparações de imagens: Expedito Perera envelhecido e com barba (à esquerda) e a foto do túmulo de Paulo Parra | Foto: Imagem de José de Arimateia/TV Globo

O relato de Nazareth: “Num dado momento vi o Waldemar, digo, Onofre, se aproximar, rastejando, nu, com as mãos algemadas para trás, pois não conseguia ficar de pé, de tanta tortura que sofrera, chegar perto de mim e dizer: ‘Ela é inocente, vocês estão fazendo a pior injustiça com essa senhora. Eu sou culpado, mas ela não’. Imediatamente, um dos caras deu-lhe um pontapé e o atirou longe dali, como não se faz a um cão”.

Mesmo intensamente procurados, Perera e Lamarca, depois de dormirem na casa dos pais do advogado, vão para o manjadíssimo escritório do primeiro. Lamarca sai primeiro e escapa. Perera é preso e levado para a Polícia do Exército. Seu relato ao Conselho Permanente da 2ª Auditoria da 2ª Região Militar, em 1970, quase um ano depois: “(…) que foi levado à PE, onde encontra Augusto [Onofre], nu e pendurado num canto, com a cabeça para baixo, e tendo vários fios ligados ao corpo; que, sem qualquer interrogatório prévio, o interrogando foi despido, molhado, e colocado no lugar de Augusto, ao mesmo tempo em que apanhava e sofria choque elétrico; que após cinco horas de sevícia, o interrogando perdeu os sentidos e foi posteriormente socorrido pelo sargento Verdramine, que o tratou muito bem (…)”. Ele foi torturado por Brito, Perrone, Caetano, Valmor, Piere Braga, capitão Pivato, tenente Agostinho e o delegado Quoaiss. Os torturadores introduziram “um cassetete eletrizado no ânus” de Perera. O advogado foi torturado, numa das vezes, na frente de sua mulher, que o chamava de Tônio.

Onofre Pinto, sargento da guerrilha: relacionamento político com Expedido Perera | Foto: Reprodução

Fernando Molica assinala que, “mesmo sob tortura, Perera pouco falou”. Mas acrescenta que ele sabia muito pouco das entranhas da VPR. Há suspeitas de que Perera tenha sido infiltrado na guerrilha, mas Fernando Molica apresenta depoimentos que não sustentam a tese. “Vi o cara ser trazido, carregado para a cela. Quebrado, torturado, com o rosto inchado. Fui testemunha ocular da história e ele resistiu bravamente à tortura. Não consta que ele tenha falado”, afirma Diógenes de Oliveira. Outra versão, de Alfredo Sirkis: “Não era muito politizado, não tinha uma história na organização, era malvisto. Tinha gente que achava que ele era da CIA”.

Por que Perera, um homem de comportamento aristocrático, que fumava cachimbos ingleses e pretendia ser o Onassis brasileiro, aderiu à guerrilha? É um mistério que Fernando Molica não desvenda, mas aponta um caminho, baseado num depoimento do ex-sargento Darcy Rodrigues: “Para ele [Darcy], Expedito buscava posicionar-se para garantir um lugar de destaque entre aqueles que representavam uma ‘alternativa de poder no Brasil’”. Como a ditadura não o quis, acusando-o de corrupto, Perera saltou para a esquerda.

Danda Prado, filha do historiador Caio Prado Júnior, foi companheira de Expedito Perera, em Paris, de 1971 a 1973 | Foto: Imagem de Gilmário Batista/TV Globo

Doleiro do Onofre Pinto queria matar Delfim Netto

Com base num depoimento de Nazareth Oliveira, entrevistada em Pirenópolis e Nova York, Fernando Molica relata que Perera manteve envolvimento com falsificadores de dólares. “Ele [Perera] era o doleiro do Onofre”, conta José Ibrahim, que militou na VPR e foi presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. “Quem controlava o Expedito era o Onofre”, sustenta Quartim de Moraes, que foi expulso da VPR.

No presídio Tiradentes, Perera torna-se muito próximo do historiador Caio Prado Júnior, autor do célebre livro “História Econômica do Brasil” e dono da Editora Brasiliense. “Ele parecia um grande burguês. Ficava de robe de chambre, fumava um cachimbão, gostava de passear com uns chinelos folgados”, diz Izaías Almada. No presídio, Perera aproxima-se afetivamente da advogada de presos políticos Annina Carvalho (belga de nascimento).

Em dezembro de 1970, o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher é sequestrado pela VPR. Perera figura na lista da VPR para ser banido. “Eu nunca mais tive notícias dele. Ele foi para o Chile na época do [Salvador] Allende”, diz Nazareth Oliveira, que tem uma filha com Perera, a bailarina Teresa Cristina. No Chile, Perera continuou envolvido com a VPR, com o grupo de Onofre Pinto, o amigo do Cabo Anselmo (que traiu os companheiros, passando para o lado do delegado Sérgio Paranhos Fleury).

Fotos de Expedito Perera em documento do governo militar no qual se registrava todos os banidos no sequestro do embaixador suíço | Foto: Divisão de Arquivo do Estado de São Paulo

No Chile, ele convence Onofre Pinto a, digamos assim, nomeá-lo como “embaixador” da VPR na Europa. Ele recebe uma carta de Yolanda Cerquinho da Silva Prado, a Danda Prado — hoje, Editora da Brasiliense — convidando-o para morar em seu apartamento em Paris. Perera e Danda Prado se tornam, rapidamente, um casal. A advogada Annina ficou enciumada, mas Perera manteve o romance com Danda. A filha de Caio Prado Júnior revelou a Fernando Molica, em 2002, que o grupo de Perera chegou a propor o justiçamento de Annina. Embora não quisesse voltar para o Brasil, Perera e seu guru Onofre Pinto defendiam a volta dos banidos. “Ele [Perera] era considerado um dos responsáveis pela vinda da Pauline Reichtsul. Convenceram a moça a vir para o Brasil. Ele [Perera] armou isto”, diz Luiz Alberto Sanz, ex-integrante da VPR. Perera “foi um dos que ocultaram informações sobre o Anselmo”, garante Luiz Sanz. Pauline Reichtsul, delatada pelo Cabo Anselmo, foi assassinada em Pernambuco.

Danda Prado contou a Fernando Molica que, “apesar de não trabalhar”, Perera “não se queixava de falta de recursos”. “Os dólares roubados da casa de Santa Teresa [o dinheiro era do político Adhemar de Barros] proporcionariam a Perera uma vida confortável. Segundo Quartim de Moraes, o ‘lado mundano’ do exílio parisiense do representante internacional da VPR se tornou notório na comunidade de brasileiros”, conta Fernando Molica. “Nas viagens, ele sempre ia de primeira classe”, atesta Danda Prado. “Ele era extremamente fechado, mas muito sedutor no contato pessoal”, acrescenta Danda Prado. “Ele [Perera] planejava matar Delfim” [Netto, então ministro da Fazenda], revela a filha de Caio Prado Júnior.

Em 1972, por intermédio de Armênio Guedes, Perera se aproxima do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão. “Demonstrou vontade de deixar a ultra-esquerda e vir para o partido”, disse Armênio Guedes a Fernando Molica. No Chile, para onde viajava sempre, conheceu o jornalista francês Francis Pisani, que o teria apresentado a grupos terroristas. Perera não foi muito bem recebido por parte da esquerda. “Ele chegou na Europa como infiltração”, diz Mauro Leonel Junior. Em 1972, uma facção da VPR propôs seu justiçamento, segundo Vera Sílvia Magalhães.

Terrorista internacional e parceiro de Carlos-Chacal

Ilich Ramírez Sánchez, Carlos o Chacal, em três momentos. Ele era aliado do brasileiro Antonio Expedido Perera | Foto: Reproduções

A partir de 1973, Perera afasta-se dos brasileiros e começa a conversar com grupos árabes e palestinos. Como não falava francês nem inglês, Danda Prado era sua intérprete. “Havia um problema de armas”, relata a socióloga. Perera “tinha uma vida dupla”, admite Danda Prado. “Sei que ele teve contato com os palestinos, com o Baader-Meinhoff, com o Exército Vermelho Japonês”, relata Mauro Leonel. “O sonho deles era a construção de uma internacional guerrilheira.” A versão de Alfredo Sirkis: “[Perera] Fez contatos com palestinos; depois, com a esquerda libanesa, chegou a ir para Beirute, que era a capital da guerrilha na época. Havia um pessoal muito mafioso neste processo de luta armada na Europa”. João Carlos Bona Garcia, outro exilado, confirma as ligações internacionais de Perera: “Sei que ele teve contatos com grupos ligados ao Khadafi [Muammar al-Khadafi, que assumiu o poder na Líbia em 1969]. Quando fui morar na França, em 1975, soube que ele estava ligado a grupos árabes”.

Uma das revelações mais interessantes do livro de Fernando Molica é que a ditadura brasileira estava muito bem informada sobre os passos da esquerda na Europa, inclusive dos passos de Perera. Inclusive, sobre suas ligações com terroristas japoneses, como Yamada Yoschiaki (cujo pseudônimo era Furuya Yutaka). No Livro de Identificação dos Terroristas Japoneses, do SNI, o JRA (que, na página 190, Fernando Molica confunde com o IRA) “era” apontado como “ligado à Frente Popular para a Libertação da Palestina”.

Esta fotografia de Vera Sílvia Magalhães e Fernanda Gabeira foi encontada na casa de Paulo Parra Expedito Perera) em Bettola, na Itália. No verso, a identificação de ambos acompanhada da sigla da Organização à qual pertenciam, o MR-8 | Foto: Arquivo de Maurício Körber

Takahasi Takemoto, “provável chefe da rede europeia do JRA”, segundo o SNI, contou que “havia recebido armas de um brasileiro chamado ‘Acmene1’”, na verdade, Perera, que entregou dólares falsificados ao grupo terrorista japonês. O inglês David Yallop garante que a operação para libertar Yoshiaki, em 1974, “foi articulada com os palestinos e contou com as participações de ‘Carlos’ [o Chacal] e de Perera. O ex-advogado da VPR foi, segundo ele [Yallop], responsável pelo transporte das armas até a Holanda. (…) Ainda segundo Yallop, Perera foi encarregado do aluguel de um carro que levou dois dos japoneses até a embaixada” invadida, a francesa, em Haia.

A revista francesa “Le Point”, em 1976, aponta Perera como “o fornecedor de armas”. “Hoje se sabe quem é ele. É um brasileiro, seu nome verdadeiro é Perera Carvalho. Ele nunca foi preso”, reporta a revista. No Brasil, o Centro de Informações da Marinha (Cenimar), em outubro de 1976, apurou: “Antonio Expedito Carvalho Perera, que tem ligações estreitas com o terrorista internacional Illich Ramires Sanches (Chacal), inclusive teria participado de ações de sequestro, por estar sendo procurado por autoridades policiais francesas, foi obrigado a abandonar a Europa, indo radicar-se em Lima/Peru”. O Cenimar erra o nome do terrorista venezuelano Illich Ramírez Sánchez, Carlos, o Chacal (hoje, com 54 anos), e é improvável que Perera tenha ido para Lima.

Carlos-Chacal (que não deve ser confundido com aquele que se tornou personagem do romance de Frederick Forsyth e do filme de Fred Zinnemann “O Dia do Chacal”, no qual tenta matar o presidente francês Charles de Gaulle. Este Chacal foi encontrado, na década de 90, no Paraguai, pelo repórter Domingos Meirelles, da TV Globo) aproximou-se da Frente Popular da Libertação da Palestina (FPLP), que era liderada por George Habash e Wadi Haddad. Ele era aliado dos palestinos, do Exército Vermelho Japonês, da Fração do Exército Vermelho da Alemanha (Baader-Meinhoff) e do Exército Republicano Irlandês.

Audaz, Carlos-Chacal baleou, em 1973, o líder judeu inglês Joseph Sieff, da família proprietária da cadeia de lojas Marks & Spencer. Carlos-Chacal é tido como responsável por entre 80 e 90 mortes. “Detido em 1994, no Sudão, foi condenado em dezembro de 1997 e cumpre prisão perpétua em Paris.”

Repórter ousado, Fernando Molica conseguiu entrevistar Carlos-Chacal, por intermédio da advogada Isabelle Coutant Peyre, mulher do terrorista. Perguntado sobre Perera, ele diz: “Nós lutamos pelas mesmas causas”. E esclarece que Perera deve ser visto como o “sucessor do capitão Carlos Lamarca, ele é um patriota e um líder revolucionário internacionalista”. Uma revista francesa, segundo Danda Prado, “publicou uma reportagem dizendo que Perera era ‘mentor intelectual e espiritual do Carlos’”.

Perera se torna o psicólogo Paulo Parra. Na Itália

Para não ser preso, Perera foge para a Itália, onde adota novo nome, Paulo Parra, e uma nova profissão, a de psicólogo (e psiquiatra) — envolvido com psicocibernética. Continua na esquerda, mas agora eurocomunista, quer dizer, um comunista moderado (a corrente influenciou, no Brasil, sobretudo o Partidão e seus intelectuais, como Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder, gramscianos).

Numa reunião, em Roma, participaram, ao lado de Perera, os bispos dom Tomás Balduíno (da Cidade de Goiás) e dom Pedro Casaldáliga (de São Félix do Araguaia), da Igreja Católica. Dom Tomás Balduíno contou a Fernando Molica que ficou sabendo que Parra era “meio esquisito, falsário mesmo, havia algumas suspeitas sobre ele”.

Paulo Parra hospedava Luiz Carlos Prestes em sua casa, na Itália, segundo Maria Ribeiro, viúva do esquerdista brasileiro. Fernando Molica revela que Parra era o representante do PCB na Itália, na década de 1980. “Depois da anistia, quando nós voltamos para o Brasil, ele ficou responsável pela organização partidária em Milão”, conta Givaldo Siqueira, ex-dirigente do Partidão. Armênio Guedes, como outras fontes de Fernando Molica, confirmaram que Parra era mesmo Perera. “Ele não fazia muito sigilo sobre o fato de ter sido o Perera. Ter outro nome não era nenhuma anormalidade para nós”, diz Armênio Guedes. Como editor, Parra-Perera publicou as memórias de Gregório Bezerra na Itália, sob o título de “I Giorni Dell’Oppressione. Memoire 1900-1945”.

A operação para revelar a história de Parra-Perera é incrível, mas deixo esta parte para aqueles que querem consultar este belíssimo livro, que deve causar inveja nos historiadores, tanto pelo rigor quanto pela leveza do texto. Produto de uma pesquisa exaustiva, o livro daria um grande filme. Ao final da história, não se sabe se Expedito Perera-Paulo Parra trabalhou também para a ditadura, como o Cabo Anselmo. Tudo indica que a investigação de Fernando Molica não está encerrada e que, com a publicação do livro, novos fatos podem vir a público. É provável que, talvez numa próxima edição, outros dados sejam divulgados.

Resenha publicada no Jornal Opção na edição de 23 a 29 de novembro de 2003

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