Euler de França Belém
Euler de França Belém

Glenn Greenwald acerta ao divulgar história de Moro e Deltan

Bobbio frisa que os meios podem corromper os fins. No caso, corromperam? Fisgar corruptos, fazê-los devolver dinheiro ao Erário, compensou os deslizes do ex-juiz e do procurador?

Sistemas mafiosos, que organizaram uma corrupção sistêmica, altamente entranhada nos poros da administração pública e com raízes privadas, tendem a ser mais bem combatidos por estruturas sistêmicas — com participação ativa da polícia, promotores e magistrados. O descortinamento da corrupção na Itália, um feito da Operação Mãos Limpas, só foi possível graças a uma forte aliança dos setores que rejeitavam o acordão entre políticos, empresários e mafiosos. Sem a aliança não há como vencer a articulação criminosa — de longe, vista como legal —, que, sendo poderosa, contamina quase tudo e vence seus adversários, por vezes com o apoio dos melhores escritórios de advocacia. Os que cobram a pureza-pura, por idealismo, má vontade ou interesses contrariados, certamente vão condenar a Lava Jato, e, se conseguirem destruí-la, vão derrubar um trabalho de grande envergadura para reduzir a corrupção. Destroçar Deltan Dallganol e Sergio Moro, porque “atuaram” conjuntamente, não é o objetivo do advogado e jornalista Glenn Greenwald, mas de muitos que, de repente, reganharam a decência perdida.

Glenn Greenwald e Lula da Silva, ex-presidente que está preso por corrupção: o jornalista faz revelações fortes sobre a Lava Jato | Foto: Reprodução

Posta a questão acima, pergunta-se: é lícita, do ponto de vista do jornalismo — quer dizer, da verdade —, a divulgação das conversas entre o procurador Deltan Dallagnol e Sergio Moro? É. Qual jornalista não obtuso divulgaria tais diálogos, independentemente das consequências para a Lava Jato. Vale a pena ler a entrevista de Glenn Greenwald à competente Pública — Agência de Jornalismo Investigativo, publicada na terça-feira, 11.

Greenwald afirma que, embora tenham direito à privacidade, Sergio Moro e Deltan Dallagnol, porque “estão usando o poder público, (…) precisam ter transparência”. “Exatamente o que eles fizeram quando interceptaram e divulgaram conversas privadas do Lula.” A agência e o jornalista não ressalvam: havia autorização judicial para o registro das conversas e a divulgação se deu com base também numa decisão de um magistrado, no caso, Sergio Moro.

“A grande mídia”, no entendimento de Greenwald, estava “trabalhando para a Lava Jato”. A exceção, frisa o repórter, foi a “Folha de S. Paulo”. “A Folha manteve uma distância, uma independência, estava criticando, questionando… Mas a Globo, ‘Estadão’, ‘Veja’, o tempo todo estavam simplesmente recebendo vazamentos, publicando o que a Força-Tarefa queria que eles publicassem”. Depois do que o Intercept publicou, registra o jornalista, “a grande mídia está reportando o material de forma mais ou menos justa, com a gravidade que merece”, mas há uma exceção, a Globo. No caso anterior, a independência da “Folha” teria a ver com o fato de que quase sempre era a primeira a chegar atrasada, tendo sido furada pela concorrência — “Veja”, “O Globo” e “Estadão”? Greenwald não estaria confundindo Janio de Freitas (e mais um ou dois) com a “Folha”? Mas uma coisa é certa: o que parecia jornalismo investigativo, fruto de um esforço imenso de repórteres, era mesmo resultado de vazamentos estruturados.

Deltan Dallagnol e Sergio Moro: o procurador e o juiz aturam juntos para penalizar corruptos

Num editorial, o “Estadão” chegou a postular, menciona Greenwald, que Sergio Moro deveria renunciar ao cargo de ministro da Justiça e Deltan Dallagnol ser afastado do cargo de procurador. A Globo, afirma o jornalista, “está quase tratando a história somente como um crime — e o único crime que interessa é o da nossa fonte. Eles não têm quase nenhum interesse nas gravações e no comportamento de Moro, do Deltan. Eles estão falando sobre o comportamento da fonte e, na realidade, eles não sabem nada. Mas é interessante porque isso é comportamento de governo”. O editor do Intercept tem razão: toda a imprensa, não só a Globo, está no escuro — nada sabe além do que o portal vem divulgando. Os jornais, assim como não processavam as informações da Lava Jato — se tornando meramente veículos para divulgá-las —, estão fazendo o mesmo agora: repercutindo o que o Intercept expõe. Greenwald substituiu Deltan Dallagnol e Sergio Moro.

“A Globo e a força-tarefa da Lava Jato são parceiras. (…) A Globo foi para a Força-Tarefa da Lava Jato aliada, amiga, parceira, sócia. Assim como a Força-Tarefa da Lava Jato foi o mesmo para a Globo”, denuncia, corajosamente, Greenwald. “Os documentos mostram como Moro e Deltan estão trabalhando juntos com a Globo. (…) É impossível para todo mundo que está lendo esse material defender o que Moro fez.” Por certo, o tempo (sinônimo de história) dirá quem tem razão: se o ex-juiz e o procurador ou Greenwald.

Gleen Greenwald e Sergio Fernando Morro: revelações divulgadas pelo primeiro deixam mal o segundo | Fotos: Reproduções

Na interpretação de Greenwald, um advogado, “Moro não quebrou uma regra uma vez, mas o tempo todo estava mostrando que não se importa nem um pouco com essas regras. Ele achou que era totalmente acima da lei e das regras, e é impossível ter alguém como juiz ou como ministro da Justiça com essa mentalidade”. Seria mesmo um caso raro… no mundo real? Vive-se 100% de acordo com o que “exige” o mundo institucional? O filósofo italiano Norberto Bobbio frisa que os meios podem corromper os fins. No caso, corromperam? Fisgar os corruptos, fazê-los devolver dinheiro ao Erário, compensou os deslizes do ex-juiz e do procurador? A descoberta de que Sergio Moro e Deltan Dallagnol trocavam ideias invalida toda a investigação da Lava Jato? Greenwald estaria exagerando?

“Moro não é uma pessoa contra a corrupção mas uma pessoa que faz corrupção quando quiser”, afirma Greenwald. De fato, a corrupção não é apenas financeira — pode também ser moral. Mas o comentário, exceto se tiver sido mal formulado, parece excessivo. Porque Sergio Moro, tudo indica, é uma pessoa contra a corrupção. Sobre sua corrupção, o jornalista deveria ter explicado do que se trata, de qual tipo é.

No balanço geral, o trabalho de Greenwald é meritório? É, e muito. Porque expõe uma parte da história que pertencia ao mundo secreto. A história nunca — nem a daqueles que acertam quase sempre — é totalmente edificante. Mas é importante que seja o mais completa possível. Na busca para pôr corruptos na cadeia e para retomar o dinheiro (ou parte dele) que afanaram, comete-se deslizes — graves ou não? Por que não apontá-los? A resposta da Globo a Gleenwald, publicada abaixo, sugere que, na vida, ocorrem coisas que não se revela, e portanto tendem a ser reveladas por outros. Nem o jornalista escapou ao “secretismo” dos seres humanos.

O que quer Glenn Greenwald: soltar Lula da Silva e destruir a Lava Jato? Talvez queira apenas fazer jornalismo.

Leia a íntegra da entrevista

Glenn Greenwald: “a Globo e a força-tarefa da Lava Jato são parceiras”

Réplica

Globo revela que Gleen Greenwald tentou parceria

Após a publicação da entrevista da Agência Pública com o jornalista Gleenwald, do The Intercept Brasil, a Globo reagiu na quarta-feira, 12, e enviou uma resposta.

A íntegra da nota da Globo

“Segue esclarecimento da Comunicação da Globo sobre a entrevista de Glenn Greenwald, publicada por seu veículo.

Glenn Greenwald procurou a Globo por e-mail no último dia 29 de maio para propor uma nova parceria de trabalho. Em 2013, a emissora já havia dividido com ele o trabalho sobre os documentos secretos da NSA referentes ao Brasil.

Greenwald ficou ainda mais agradecido por um gesto da Globo. Nas reportagens que a emissora divulgou, em algumas frações de segundo era possível ver nomes de funcionários da agência americana, que não trabalhavam em campo, mas em escritório. Mesmo assim, tal exposição poderia levá-lo a responder a um processo em seu país natal, os Estados Unidos. A Globo, então, assumiu sozinha a culpa, declarando que, durante a realização da reportagem, Greenwald se preocupava sobremaneira com a segurança de seus compatriotas. Tal atitude o livrou de qualquer risco.

Ao e-mail do dia 29 de maio seguiram-se alguns telefonemas na tentativa de conciliar agendas (ele estava viajando) para um encontro, finalmente marcado. Ele ocorreu na redação do Fantástico no dia 5 de junho. Na conversa, insistindo em não revelar o tema, ele disse que tinha uma grande “bomba a explodir” e repetiu que queria voltar a dividir o trabalho com a Globo, pelo seu profissionalismo. Mas, antes, gostaria de saber se a emissora tinha algo contra ele, sem especificar claramente os motivos da pergunta, apenas dizendo que falara mal da Globo em algumas ocasiões. Provavelmente se referia a um artigo que seu marido, o deputado David Miranda, do PSOL, tinha publicado no Guardian com mentiras em relação à cobertura do impeachment da presidente Dilma Rousseff. O artigo foi rebatido por João Roberto Marinho, presidente do Conselho Editorial do Grupo Globo, fato que deu origem a comentários desairosos do próprio Greenwald.

Na conversa de 5 de junho, ele afirmou que “tudo estava no passado”. Prontamente, ouviu que jamais houve restrição (de fato, David Miranda já foi inclusive convidado para entrevista em programa da GloboNews). Greenwald ouviu também, com insistência, por três vezes, que a Globo só poderia aceitar a parceria se soubesse antes o conteúdo da tal “bomba” e sua origem, procedimento óbvio. Greenwald se despediu depois de ouvir essa ponderação.

A Globo ficou aguardando até que, na sexta-feira à tarde, Greenwald mandou um e-mail afirmando que não recebeu nenhuma resposta da Globo e que devia supor que a emissora não estava interessada em reportar este material. Como Greenwald, no e-mail, continuava a sonegar o teor e origem da “bomba”, não houve mais contatos. Não haveria como assumir qualquer compromisso de divulgação sem conhecimento do que se tratava.

No domingo, seu site, o Intercept, publicou as mensagens atribuídas ao ministro Sergio Moro e procuradores da Lava-Jato, assunto que mereceu na mesma noite destaque em reportagem de mais de cinco minutos no Fantástico (e depois em todos os telejornais da Globo).

Na segunda, uma funcionária do Intercept sugeriu que o programa Conversa com Bial entrevistasse um dos editores do site para um debate sobre jornalismo investigativo. Como o próprio site anunciou que as publicações de domingo eram apenas o começo, recebeu como resposta que era conveniente esperar o conjunto da obra, ou algo mais abrangente, antes de se pensar numa entrevista.

Por tudo isso, causam indignação e revolta os ataques que ele desfere contra a Globo na entrevista publicada na Agência Pública. Se a avaliação dele em relação ao jornalismo da Globo e a cobertura da Lava-Jato nos últimos cinco anos é esta exposta na entrevista, por que insistiu tanto para repetir “uma parceria vitoriosa” e ser tema de um dos programas de maior prestígio da emissora? A Globo cobriu a Lava-Jato com correção e objetividade, relatando seus desdobramentos em outras instâncias, abrindo sempre espaço para a defesa dos acusados. O comportamento de Greenwald nos episódios aqui narrados permite ao público julgar o caráter dele.”

Tréplica

Glenn Greenwald responde à Globo no Twitter

Na quinta, 13, Glenn Greenwald respondeu à réplica da Globo.

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Amanda

Não há nada comprovado contra o presidente Lula. Agora todos temos absoluta certeza de que o processo foi uma grande armação.

Eliane Flores Sampaio

O Juiz Sérgio Moro condenou o sacripanta com base em provas legais/lícitas. Nenhuma prova é ilícita; é só consultar os autos. Crime é invadir a privacidade, publicar e muitas ações orquestradas serem executadas ao mesmo tempo. José Dirceu deu a dica quando voltou pra cadeia – viram o vídeo? Que artigo tendencioso!