Euler de França Belém
Euler de França Belém

Gilmar Mendes enfrenta o populismo e o jornalismo linchador

Seria mais fácil alinhar-se com Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, que sentenciam de olho na plateia, mas o ministro enfrenta o justiçamento

Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes

Há uma carência de grandes magistrados e políticos no país, ao mesmo tempo que se procede a uma caçada aos políticos, mesmo àqueles que têm méritos. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, se vivessem hoje, apesar da grandeza de estadista, seriam atacados com frequência — dada a volúpia de parte dos brasileiros por sangue e justiçamento. Chega-se, no momento, a se atacar até mesmo advogados que, por dever da profissão — afinal, vive-se num país que está sob o Estado Democrático de Direito, com as liberdades asseguradas pela lei —, têm de defender suspeitos ou acusados de crimes.

O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes tem sido criticado, de maneira acerba, pela imprensa. Alguns jornais e revistas, como a “Veja” e “O Globo”, colocaram seus principais repórteres investigativos para vasculhar a vida do magistrado. As reportagens são longas, ricas em supostas nuances. Entretanto, quando lidas cuidadosamente e sem passionalismo, a única conclusão possível é de que estão, mais do que “distorcendo”, “forçando” os fatos (fraturando-os). Antes mesmo de se começar a reportagem, há uma tese: se Gilmar Mendes manda soltar alguns presos, em geral acusados de corrupção, há alguma coisa errada. Se há, então é preciso descobrir os fatos que comprovem uma possível falcatrua. Porém, se os repórteres não encontram provas, nem primárias nem cabais, e veículos sérios não pode forjá-las, o que fazer? Simples: publicar reportagens com insinuações — com ressalvas, para evitar processos judiciais — de que, apesar da existência de indícios, não há informações precisas e conclusivas. O jornalismo patropi está prestes a se tornar jacobino — “guilhotinando” indivíduos e reputações.

Luís Roberto Barroso e Edson Fachin: jogando para ao aplauso da plateia

Gilmar Mendes é de uma coragem inaudita. Porque enfrentar o populismo da intelligentsia, que começa a seguir as massas — no lugar de iluminá-las —, é tarefa quase para insanos. Pois o ministro, em defesa do Estado de Direito, está confrontando o populismo político e jurídico, com sagacidade e perspicácia raras. No percurso, corre o risco de ser destroçado. Se não for, quando os fatos se assentarem, certamente concluirão que sua luta foi heroica. Advogados sensatos, capazes de discernir para além do linchamento que se processa hoje no país, possivelmente já estão examinando as decisões do magistrado de maneira menos passional. Magistrados brilhantes e decentes, como Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, estão jogando, com mestria, para a plateia. Querem ficar bem com a sociedade, por isso seguem o que ela quer: o destroçamento dos indivíduos, mesmo quando as culpas não estão devida e realmente consolidadas. Celso Mello é o ministro por certo mais qualificado do Supremo, mas não tem a energia de Gilmar Mendes. Portanto, segue a maioria, ainda que, às vezes, coloque um molho individualizado nas suas decisões.

Há uma vibração geral com a sanha dos guilhotinadores — como na Revolução Francesa de 1789 (Robespierre mandava cortar cabeças e, no fim, teve a própria cabeça decepada). Mas quando a guilhotina começar a pegar não apenas políticos — reitores e professores de universidades federais começam a ser investigados e até detidos —, a chiadeira vai começar. O que contra os outros é “normal”, contra nós e os nossos é “autoritarismo”.

2 respostas para “Gilmar Mendes enfrenta o populismo e o jornalismo linchador”

  1. Avatar Ariel disse:

    “Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, se vivessem hoje, apesar da grandeza de estadista, seriam atacados com frequência — dada a volúpia de parte dos brasileiros por sangue e justiçamento”.

    Faltou só dizer que isso já acontece e a vítima se chama Luíz Inácio Lula da Silva.
    Talvez o jornalista seja tucanista e por isso não citou.

  2. Avatar joão disse:

    Com todo respeito ao nobre jornalista Euler Belém, a reportagem acima me parece, totalmente, distorcida, desfocada da realidade em que vive o Pais, dos recentes fatos envolvendo o ilustre ministro citado. Das duas uma: ou somos todos ‘justiçeiros’, ‘linchadores’ e ‘populistas’, ou melhor, alienados, ou o futuro do País está seriamente ameaçado pela falta de homens públicos comprometidos com a ética, moral e honestidade.

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