Euler de França Belém
Euler de França Belém

Gil Castello Branco troca autor de frase-símbolo do romance O Leopardo, de Lampedusa

Autor da frase sobre mudar-para não mudar é Tancredi e não don Fabrizio Corbera

A República da Citação é uma das mais duradouras no Brasil bacharelesco. Para cada circunstância, há uma frase de efeito que parece explicar e sintetizar tudo. Há frases de escritores e filósofos que, mencionadas fora do contexto da qual foram retiradas, perdem sua força. Mas aqueles que as anotam acreditam, por certo, que dão mais energia e movimento às opiniões de seus artigos. Servem como introdução ou arremate.

Na edição de terça-feira, 20, do jornal “O Globo”, o economista Gil Castello Branco, fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas, escreveu: “O escritor italiano Giuseppe di Lampedusa, no romance ‘Il Gattopardo’ (‘O Leopardo’, em português), de 1958, comentou sobre a elite encastelada que dominava a Sicília e fazia de tudo para se manter no poder e evitar que o caos das ruas a afetasse. No trecho que se tornou clássico, um dos personagens, Don Fabrizio Corbera, o Príncipe de Salina, disse: ‘A não ser que nós tomemos medidas agora, eles irão nos forçar uma república. Se quisermos que as coisas continuem como estão, as coisas precisam mudar’”. O título do artigo é: “A República de Lampedusa”.

O que há de errado no comentário? A impressão que se tem é que o autor do artigo não entendeu que o romance narra, com mestria, a ascensão da burguesia e o entendimento de uma parte da aristocracia de que, para sobreviver, era preciso acoplar-se à classe social emergente. A maneira adequada era o casamento entre o nobre Tancredi e a burguesa Angelica, filha de Calogero. A nobreza “entregava”, por assim dizer, com seu charme e elegância, o que ajudaria a educar a burguesia. Como paga, a burguesia entraria com dinheiro e, ao se refinar, se tornaria uma espécie de aristocracia da bufunfa. A aristocracia sobreviveria na burguesia e a burguesia, se tornando hegemônica, conservaria os valores dos nobres. Se tornaria nobre. No lugar de “caos das ruas”, o que sugere um conflito mais profundo, o que resulta, ao menos no romance, é uma conexão (não inteiramente pacífica) entre classes sociais.

Há outro problema. Se tivesse lido ao menos uma das várias edições de “O Leopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Gil Castello Branco, possivelmente saberia que o autor da frase não é don Fabrizio Corbera, o príncipe de Salina, e sim seu sobrinho, Tancredi. Na página 57, na tradução de Marina Colasanti, publicada com o título de “O Gattopardo” (Record, 300 páginas), Tancredi diz para o tio, Fabrizio Corbera: “Se nós não estivermos presentes, eles aprontam a República. Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude. Fui claro?” Ao menos para Gil Castello Branco, Tancredi não foi nada claro.

Por fim, a partir do título do artigo, terá Gil Castello Branco compreendido o processo de unificação da Itália? Teria entendido que, apesar de um Garibaldi, havia um rei?

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Flávia

Muito boa análise e contextualização.