Euler de França Belém
Euler de França Belém

Frederick Forsyth, mestre das histórias de espionagem, garante que não vai publicar mais livros

O escritor britânico escreveu romance sobre a fuga de nazistas para a América Latina

Frederick Forsyth: escritor britânico que é uma verdadeira máquina de produzir best sellers de qualidade

Frederick Forsyth: escritor britânico que é uma verdadeira máquina de produzir best sellers de qualidade

Há autores da literatura “B” que são quase tão bons quanto os da literatura “A”. São os casos de Graham Greene, John Le Carré, Georges Simenon e Frederick Forsyth. A prosa dos quatro tem uma virtude: é legível. Todos escrevem muito bem, sobretudo Greene e Simenon. Este escreveu em excesso, mas seus livros têm uma qualidade média impressionante. Greene escreveu, na sua própria versão, livros de entretenimento e livros sérios (“O Poder e a Glória”, por exemplo). Na verdade, sua prosa, a para entreter e a “séria”, é excelente, assim como a de Simenon. Le Carré e Forsyth ficam um pouco atrás, mas são escritores, embora considerados do segundo time, que escrevem muito bem, conseguindo segurar a nossa atenção do leitor da primeira a última linha. Suas histórias, que resultam de pesquisas às vezes exaustivas, divertem e, ao mesmo tempo, instruem. Há autores que dão sono — Le Carré e Forsyth nos tiram o sono.

Li vários livros de Forsyth, quase todos muito bons. “Dossiê Odessa” sobre a organização que “traficou” nazistas da Europa para a América Latina, notadamente para a Ar­gentina, é de rara excelência. Ressalve-se que a Ratline (Linha dos Ratos) teria sido a principal organização que de fato retirou nazistas da Europa e levou-os para a Argentina e, daí, para o Paraguai (em seguida, Josef Mengele, Franz Stangl e Gustav Wagner “esconderam-se” no Brasil. O judeu Stanislaw Szmajzner, que participou da revolta do campo de extermínio de Sobibor, fez o reconhecimento da dupla; na época, ele morava em Goiânia, onde foi entrevistado pela jornalista Gitta Sereny). A história de Forsyth é bem arquitetada e, por isso, convincente. Resultou num filme com o mesmo título.

Agora, segundo o repórter Dario Thuburn, da France Presse (a reportagem foi traduzida por Roberto Muniz, para “O Estado de S. Paulo”), Forsyth está dando adeus à literatura. “Estou cansado e não consigo ficar no escritório e escrever histórias românticas. Quantos padeiros fazem pão depois dos 78 anos? Não tenho mais nada a dizer.”

Aos 78 anos, Forsyth viajou à Somália para escrever o romance “A Lista da Morte”. Antes, dada a idade avançada, decidiu pesquisar sobre o país na internet. Encontrou muita informação, mas não aquilo que torna sua prosa viva, sempre em movimento — parecida com um filme de James Bond. “Havia informações estatísticas, mas não o que eu queria, que era o ambiente.” Mas sua mulher foi decisiva para a aposentadoria ao dizer: “Você está muito velho, esses lugares são perigosos e você não corre como antes”. Se é perigoso para quem corre, por ser mais jovem, imagine para o encanecido escritor. Trata-se de um argumento quase irretorquível.

Nas suas memórias, “The Outsider” (que está na minha lista de leitura), Forsyth revelou que trabalhou para o MI6, a agência de espionagem da Inglaterra, “na África e no bloco soviético durante a Guerra Fria”. O escritor conta “que apresentava rascunhos de seus romances à agência de espionagem para assegurar-se de que não estava divulgando detalhes sensíveis ou secretos. Os rascunhos eram devolvidos com anotações e parágrafos sublinhados”. Isto não quer dizer que seus romances resultam de relatos oficialescos de informações da espionagem britânica.

Forsyth não era um espião mercenário e, portanto, não cobrava do MI6 por suas informações, privilegiadas ou não. “Simplesmente, tratei de ajudar meu país.” É o que diz. Como jornalista, Forsyth trabalhou para a Reuters e para a BBC na França, Nigéria e Alemanha Oriental.

Como aprecio a prosa de Forsyth, espero que, sob pressão de seus milhares de leitores, diga adeus ao adeus que deu à literatura.

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