Alex Silveira é repórter fotográfico e, como tal, tem a obrigação de levar as melhores fotografias para a publicação na qual trabalha. Em 2000, quando fazia uma cobertura de uma manifestação dos professores da rede pública de ensino para o jornal “Agora”, foi atingido no olho esquerdo por uma bala de borracha disparada pela Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo.

Ao recorrer à Justiça com um pedido de indenização, Alex Silveira descobriu que, no Brasil, a vítima às vezes é a culpada. O Estado de São Paulo não precisa indenizá-lo. O desembargador Vicente de Abreu Amadei culpou Alex Silveira por ter ficado cego. Trecho da sentença do magistrado: “Permanecendo no local do tumulto, dele não se retirando ao tempo em que o conflito tomou proporções agressivas e de risco à integridade física, mantendo-se, então, no meio dele, nada obstante seu único escopo de reportagem fotográfica, o autor colocou-se em quadro no qual se pode afirmar ser dele a culpa exclusiva do lamentável episódio do qual foi vítima”.

Além de não receber a indenização e de ter ficado cego, o repórter-fotográfico terá de pagar as custas processuais e honorários do advogado do Estado. Kafka vive.