Euler de França Belém
Euler de França Belém

Fotografia de criança que se rendeu ao confundir câmera com arma é um grito contra a guerra na Síria

Foto que circulou pelas redes sociais mostra o menino Adi Hudea em campo no norte da Síria

As crianças sofrem e, ao mesmo tempo, divertem-se com a guerra. Muitas vezes nem entendem direito o que está acontecendo — aliás, como parte dos adultos. Porque algumas guerras não têm lógica e, deste modo, sentido. Louis Malle, com “Adeus, Meninos”, e John Boorman, com “Esperança e Glória”, mostraram, com rara felicidade, como meninos percebem o horror e, também, um certo esplendor da guerra — que tira todos da rotina e do conforto mínimo. Lembrei-me dos cineastas ao ver a fotografia de Adi Hudea (apresentado pela “Folha de S. Paulo” como menino e pelo G1 como menina), de 4 anos. Em 2012, quando o repórter-fotográfico turco Osmar Sagirli levantou a câmera para fotografá-lo, imediatamente a criança levantou os braços — em sinal de rendição —, com os lábios comprimidos e um olhar assustado (os olhos arregalados são perscrutadores e vigilantes), pois acreditava que se tratava de uma arma. Parece que não teve coragem nem mesmo de chorar.

O pai de Adi Hudea havia sido morto na guerra da Síria — entre governo, rebeldes e Estado Islâmico —, que já matou cerca de 250 mil pessoas.

A fotografia é de 2012, mas só agora se tornou “viral”, ao ser postada no Twitter pela repórter-fotográfica Nadia AbuShaban.

O que uma fotografia pode dizer? Sempre muito. Por exemplo, sobre a falta de civilidade entre os homens modernos. Pode dizer que, na luta pelo poder, as principais vítimas são inocentes — como crianças, que muitas vezes perdem a infância, quando não a vida. Por fim, o gesto de Adi Hudea, que confundiu uma máquina fotográfica com uma arma, e sobretudo seu rosto, triste, amedrontado e inocente, parecem dizer ao mundo que é preciso trabalhar pela paz — em todos os lugares. O olhar da criança é, de alguma forma, um clamor “silencioso”, um “grito” sobre a impotência dos que nada podem fazer — exceto temer inclusive uma simples máquina fotográfica.

Trecho de poema de John Donne

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

 

Deixe um comentário