Florença 40 Graus e as questões climáticas e sociais

Ante o desastre ambiental, há grupos de elite que saberão se eximir de qualquer responsabilidade e se protegerão do populacho desesperado com muros e fortaleza

Halley Margon

De Barcelona

Florença, cidade italiana onde nasceu Maquiavel e Dante | Foto: Reprodução

O calor era tanto que até a majestosa (e bela) estrutura do domo de Brunelleschi para Santa Maria dei Fiori parecia estalar. Para o morador do Rio 40 graus pode ser pinto, mas não para os do Norte da Itália e da Europa em geral. Mesmo assim, a boa gente dali e das redondezas (franceses, alemães, suíços, eslovenos, nórdicos etc – não, a cidade ainda não estava aberta para os ávidos turistas chineses, brasileiros, coreanos etc), ansiosos pelas esperadas primeiras férias de verão controlada a pandemia, não dava a mais mínima demonstração de se importar com a sequência de altas temperaturas e as notícias alarmantes que os noticiários da noite repetiam sem cessar. Recordes de temperaturas no continente e incêndios arrasadores em quase todo o hemisfério norte.

Quando muito, se aquietavam por instantes nas sombras daquele arruamento estreito e encantador de pedra lisa e fresca do tempo em que Florença resplandecia como berço e capital do Renascimento, onde, então, a temperatura caía 4 ou 5 graus, para repartirem as milhares de toneladas dos sorvetes vendidos diariamente pelas gelaterias da cidade.

Santíssima Trindade, de Tomasso Masaccio

Logo, recuperados, voltavam à sanha do consumo desenfreado, que para isto vieram, comprar: produtos de couro supostamente artesanais (vendidos pelos roteiros turísticos como uma tradição centenária da antiga vila), marcas de luxo (que essas estão onde quer que estejam grandes marcos da história humana, capturando a atenção dos consumidores de grandes feitos da história humana) tanto quanto visitas aos museus. Ao consumidor pouco importa se é Santa Maria Novella e, lá dentro, a Trindade do Masaccio ou uma bolsa exclusiva da Louis Vuitton — não à toa o espertalhão do Jeff Koons projetou para a marca uma campanha com estampas de mestres renascentistas. Todas as grandes marcas o sabem. Por isso estão ali. No inverno, no verão e para todo o sempre. À boa gente que está ali agora depois da sofrida reclusão imposta pela pandemia não importam as filas intermináveis. É parte do jogo. Fila para o Uffizi ou para a capela dos Médici, filas assustadoras a qualquer hora do dia para as inacreditáveis schiacciata (enormes e geralmente baratos sanduíches feitos com focaccia florentina e recheios variados). Para isso vieram.

Não muito longe dali, mais ao Sul, na Sicília, os termômetros alcançaram temperaturas nunca vistas, beirando os 50 graus. A mesma coisa na Grécia, no sul da Espanha e, do outro lado do Atlântico, no Canadá — Lytton, 370 kms acima de Seattle, e cuja latitude é praticamente a mesma que a de Londres, chegou a 49,6 graus no final de junho. Não era caso isolado. No rastro do calor os incêndios nasciam hora a hora, dia após dia, um após o outro ou simultaneamente, agora nas vastas áreas das estepes russas, daqui a pouco num dos paraísos do turismo de luxo da Côte d’Azur,  Saint-Tropez, em Portugal e na Califórnia.

Volta e meia essas ondas de calor atingem o hemisfério norte. Não há muito ineditismo nisso. O que há de novo, segundo dizem os especialistas, é que essas ondas de calor são e serão não apenas cada vez mais frequentes como também cada vez mais intensas. E aqui há nova nuança, os alertas daqueles que, nas últimas décadas, estudam as alterações de fundo no clima do planeta tem se tornado cada vez mais dramáticos. É como se para eles uma determinada linha limítrofe tivesse sido ultrapassada.

Crescimento x distribuição

Mudanças climáticas: o desafio do homem contemporâneo | Foto: Reprodução

Quase que simultaneamente ao início dessas ondas de calor, no final de junho, a AFP (agência de notícias francesa) divulgou um “anteprojeto de documento do órgão mais importante do mundo para questões climáticas, o Painel Intergovernamental de Especialistas em Mudanças Climáticas (IPCC)”. Trata-se do seu sexto relatório de avaliação, que está sendo finalizado após sete anos de trabalho. O texto divulgado pela agência francesa ganhou as primeiras páginas dos principais jornais europeus. Uma das frases do relatório diz: “A vida na Terra pode se recuperar de grande mudanças climáticas, evoluindo para novas espécies e criando novos ecossistemas. Não a humanidade”. É parte do Resumo para Formuladores de Políticas do Grupo de Trabalho II.

Afirmam também, como consequência lógica das informações coletadas, que “o pior está por chegar”.

Visto em perspectiva, os termos e alertas já são bem antigos e, a rigor, vem sendo feitos pelos menos desde a Rio-92 — junho de 1992, que aliás estava um calor infernal. São seguramente mais dramáticos pelo simples fato de que nessas quase três décadas não se pode dizer que os relatórios e apelos dos grupos de trabalho tenham servido para alguma política efetiva que confrontasse o problema. Informam, desenvolvem os mecanismos e sistemas de medição e controle, detalham cada vez mais minuciosamente, fotografam, descrevem, filmam, projetam tendências e verificam hipóteses, desenvolvem instrumentos de medição, enfim, realizam tudo aquilo que a ciência do homem pode realizar — para o bem e para o mal. O resto é com os donos do capital e os controladores da política. E, dada a estreiteza de horizonte dessa gente, “o pior está seguramente por chegar”.

Não é que não existam alternativas. Ao contrário, a riqueza produzida pela humanidade é tremenda, transbordante e, até, excessiva. A questão é, obviamente, de distribuição. Mas, se qualquer um fala em conter a expansão da economia, será imediatamente ridicularizado, tratado como louco ou ingênuo. Mesmo assim, se algum avanço houve nessas três décadas, do verão de 1992 até o do presente ano, é que pelo menos no campo das ideias começam a aparecer vozes, temerárias, é claro, dizendo que é preciso parar de crescer, E mais: é preciso decrescer. Há excesso e é distribuir. (Sim, eu sei que estou escrevendo para um país com milhões de pessoas mergulhados na miséria. Mas também, como todos sabemos, com uma vitrine de milionários digna de exposição em qualquer país de Primeiro Mundo.)

Claro, não vejo um pingo de realismo em formulações como essas, ainda que me pareçam as únicas sensatas. Mas, como disse, é só olhar para a estreiteza mental de gente como a presidenta da Comissão Europeia, a sra. Ursula von der Leyen, seus pares e seus empregadores, os executivos dos grandes conglomerados que controlam a economia europeia e/ou mundial, para constatar a impossibilidade de alguma política global diferente da que vem acontecendo venha a prosperar. Recentemente, dado que a União Europeia estava finalmente se aproximando da vacinação dos 70% da sua população adulta, foi sugerido que começassem a contribuir para a vacinação dos países pobres e a reação foi um imediato e contundente não: “Preferimos aplicar a terceira dose nos cidadãos europeus”.

Assim, se daqui a pouco, muito pouco, começarem a se confirmar as previsões do Painel Intergovernamental de Especialistas em Mudanças Climáticas (IPCC) e a coisa realmente começar a desandar, com o caos climático provocando desastres ambientais de grande monta e caos social, seguro que, primeiro, essa gente saberá se eximir de qualquer responsabilidade (como fazem as crianças pegas fazendo arte) e, segundo, tratará de se proteger do populacho desesperado, seja como for, atrás de muros, fortalezas e ilhas   protegidas por exércitos de profissionais armados até a medula (como fazem os covardes e os privilegiados).

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