Euler de França Belém
Euler de França Belém

Filósofo da USP diz que discurso político de Marilena Chauí representa uma catástrofe para a esquerda

Doutor em Filosofia pela Universidade Paris I diz que a filósofa equivoca-se ao rejeitar a autocrítica e ao não criticar os petistas que se tornaram corruptos. A denúncia-acusação da Operação Lava Jato “não é delirante”

Ruy Fausto e Marilena Chaui, filósofos e professores da USP: o primeiro diz que, ao se tornar uma espécie de porta-voz do PT, subordinando-se ao partido, a segunda escamoteia a verdade

Ruy Fausto e Marilena Chaui, filósofos e professores da USP: o primeiro diz que, ao se tornar uma espécie de porta-voz do PT, subordinando-se ao partido, a segunda escamoteia a verdade

Um partido de esquerda moderado e forte faz bem à democracia, equilibrando o jogo político e reduzindo o radicalismo que por vezes questiona o primado das instituições. Na revista “Piauí” deste mês, Ruy Fausto, doutor em Filosofia pela Universidade Paris I, escreve um excelente artigo, com o título de “Reconstruir a esquerda”. Um dos problemas do artigo é a tese, apresentada com certa finura, de que determinados equívocos foram cometidos por indivíduos que se dizem de mas não são de esquerda. É a velha técnica de parte da esquerda, estranhamente utilizada por um filósofo do gabarito do professor emérito da USP, usada para transferir a responsabilidade pelos problemas que criou para terceiros. Lula? “Ah, nunca foi esquerda.” Sempre foi, mas não é, de fato, comunista. É socialista, quer dizer, de esquerda.

Em poucas linhas não dá para sintetizar o artigo do articulista e, por­tanto, vale ir às bancas — ou, se o texto estiver liberado, acessá-lo no site da revista — para verificar a qualidade, imensa, de suas ideias. Uma de suas críticas mais pertinentes é à filósofa Marilena Chaui, professora da USP. Fica-se com a impressão de que Chaui é dupla. Há a filósofa de obra respeitada — ou parte dela, como os estudos sobre Espinosa — e há a militante que subordina a verdade, o factual, à ideologia e ao partido, no caso o PT.

Ruy Fausto escreve: “O discurso político de Marilena Chaui tem representado uma verdadeira catástrofe para a esquerda. Por ocasião do mensalão, Chaui tomou a defesa do PT — e praticamente não fez nenhuma crítica ao partido ou a sua direção. Agora, com a Operação Lava Jato e escândalos sucessivos envolvendo, certo, não só o PT, mas também o PT, a sua atitude não foi diferente. Tivemos uma defesa intransigente do partido — não se ouviu da professora de filosofia praticamente nenhuma crítica à legenda — e, o que é pior, a defesa se fez na base de uma enxurrada verbal arbitrária. Assim, contra todas as evidências, Chaui continua insistindo no caráter ‘fascista’ da pequena burguesia. (…) Quanto à Operação Lava Jato — fenômeno complexo, ao qual não se pode deixar de atribuir, em princípio, efeitos positivos, apesar dos erros e desmandos de alguns dos seus ‘operadores’ —, Chaui a desmistifica: afirma, sem se dar ao trabalho de provar o que diz, que o juiz Sergio Moro teria sido treinado pela Agência de Inteligência Americana, a CIA, para levar adiante um projeto de entrega do pré-sal aos norte-americanos”. O filósofo não diz, nem sugere, mas a argumentação de sua colega de filosofia beira (opto pela palavra beira, frise-se) à insanidade, ao burlesco e, sobretudo, à má-fé. Nem conspiradores mais rastaqueras teriam coragem de dizer o mesmo, porque a “informação” é falsa. É do tipo de contrainformação produzida para ser usada como arma de ataque e desqualificação em redes sociais por militantes pagos ou espontâneos. Aliás, quem “minou” a Pe­tro­brás não foi Sergio Moro e os americanos, e sim os três governos do PT.

Num debate recente, Chaui surpreendeu Ruy Fausto. “Chaui fez questão de deslegitimar todo projeto de ‘autocrítica’. Explicou aos participantes do debate e à plateia que ‘autocrítica’ era coisa da política totalitária e que seria preciso recusá-la a todo custo.” Na verdade, a autocrítica numa democracia é muito diferente da autocrítica num regime totalitário. Chaui, sublinha o filósofo, “lançou uma cortina de fumaça sobre o que se passava e se passa no seu partido”. Na argumentação da filósofa, que distorceu as coisas, “a autocrítica forçada em regime totalitário se tornou a mesma coisa que qualquer autocrítica, a mesma coisa que a autocrítica em geral”. Qual era e é o objetivo da professora da USP? Simples: evitar toda e qualquer crítica ao PT e aos seus integrantes, mesmo que alguns deles tenham se tornado corruptos e criminosos contumazes.

O que o Ministério Público Federal, a Polícia Federal e a Justiça Federal têm a ver com as políticas stalinistas? Nada. “A situação real [da Operação Lava Jato] é mais ou menos inversa à dos processos stalinistas”, afirma Ruy Fausto. Na verdade, ao contrário do que sugere o filósofo, é inteiramente inversa. No Brasil, vive-se sob o império da lei, das instituições. Na União Soviética, a lei era Stálin e seus sequazes.

“A acusação” de corrupção na Petrobrás, afirma Ruy Fausto, “não foi delirante. Já insustentáveis, se não delirantes, foram os protestos de inocência dos acusados e os protestos de inocência total do PT. É aí que está a ficção. Assim, Marilena Chaui toma alhos por bugalhos. Ou, pior ainda, mistura tudo e nos oferece um mundo de cabeça para baixo”.

Ruy Fausto conclui que a “intervenção de Chauí se revela uma peça de pura retórica. O problema com Marilena é que, infelizmente, ela se mostra seduzida demais pelo aplauso dos auditórios. Ora, não há nada mais funesto, para a esquerda, do que esse tipo de sedução. (…) Beócios não há somente no campo da direita. No nosso, é preciso reconhecer, os há também — em número considerável e, o que é pior, muitos deles costumam frequentar os anfiteatros”.

De fato, Chaui ganhou o a­plauso dos, digamos, “convertidos”. Mas, como nota Ruy Fausto, “milhões de pessoas” viram o vídeo da filósofa pregando em defesa do PT e atacando seus adversários e supostos adversários, além de criticar a importância da autocrítica, e “repudiaram” suas palavras.

“É preciso distinguir com clareza a defesa de uma posição de esquerda da defesa de um partido. (…) Se o discurso dominante na esquerda não mudar, perdemos hoje e perderemos sempre. A fala populista irresponsável diante da verdade nos condena à derrota. Os aplausos dos ingênuos ou dos fanáticos não são, certamente, uma compensação suficiente”, afirma Ruy Fausto.

Com aliados como Chauí, Lula e o PT precisam mesmo de adversários? A defesa que a filósofa faz do líder supremo e do partido em decadência funciona, dados o fanatismo e a ignorância, como fermento para as oposições e para as críticas da sociedade. A preocupação da professora da USP não é com a verdade, não postula a elucidação completa dos crimes de corrupção cometidos por integrantes do PT — e também do PMDB, do PP e, mesmo, do PSDB —, e sim a possibilidade de, usando a autoridade da filósofa, escamoteá-la, cristalizando uma mentira em seu lugar. Uma “verdade” ancorada numa mentira logo-logo é desmoralizada, como tem sido. A história poderá “consagrar” Chaui como a filósofa que contribuiu para erigir uma farsa. É lamentável, dada sua notória e, até, brilhante trajetória acadêmica.

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Eugenio Goldberger

Apesar de minha posição ideológicamente diferente daquela do Prof. Ruy Fausto, uma vz que não sou de esquerda, devo aplaudí-lo pela crítica altamente pertinente feita à Marilena Chauí — aquela que em tempos idos acusava a classe média de ser “terrorista”(vale a pena ver esse vídeo no youtube).