Euler de França Belém
Euler de França Belém

Filme e livro ressaltam relação produtiva entre o escritor Thomas Wolfe e o editor Max Perkins

O livro “Max Perkins — Um Editor de Gênios” e o filme “O Mestre dos Gênios” resgatam o lendário relacionamento entre o editor competente da Scribners e o escritor talentoso mas disperso e retórico

O livro de A. Scott Berg, autor que ganhou o Pulitzer, é uma biografia de alta qualidade sobre um dos maiores editores de livros dos Estados Unidos, Max Perkins, da Scribners. O filme de Michael Grandage, com seu tom sombrio, capta à perfeição o relacionamento produtivo mas conturbado entre o escritor Thomas Wolfe e o editor

O livro de A. Scott Berg, autor que ganhou o Pulitzer, é uma biografia de alta qualidade sobre um dos maiores editores de livros dos Estados Unidos, Max Perkins, da Scribners. O filme de Michael Grandage, com seu tom sombrio, capta à perfeição o relacionamento produtivo mas conturbado entre o escritor Thomas Wolfe e o editor

“O Mestre dos Gê­nios”, de Michael Grandage, é um desses excelentes filmes que passam quase despercebidos — tanto que, em Goiânia, foi exibido apenas no Cine Lumière, no shopping Bou­gainville. A atuação dos atores Jude Law, como o escritor Thomas Wolfe, e Colin Firth, como o editor Max Perkins, é impecável. Não deixa de ser curioso que ingleses tenham representado homens lendários da cultura dos Estados Unidos. Nicole Kidman aparece de maneira discreta como Aline Bernstein, a amante de Thomas Wolfe. Aqui e ali, há licenças poéticas, com condensações necessárias tanto para chamar a atenção do espectador quanto para tornar a história adequada ao cinema.

Mesmo sendo uma síntese da história complicada mas produtiva entre Thomas Wolfe (1900-1938) e Max Perkins (1884-1947), o filme, inclusive o título, é, no geral, preciso. Se o leitor quer, porém, uma história mais bem contada, com nuances, deve consultar a biografia “Max Perkins — Um Editor de Gênios” (Intrínseca, 541 páginas, tradução de Regina Lyra), de A. Scott Berg, autor premiado com o Pulitzer.

Os romances mais celebrados de Thomas Wolfe são “Look Homeward, Angel” (“Olhe Para Casa, Anjo”¹) e “Of Time And The River” (“Do Tempo e do Rio”²). Ambos foram editados, a ferro, fogo e amor, por Max Perkins. Entre os livros póstumos — o autor morreu pouco antes de completar 38 anos — estão: “The Web And The Roch” (“A Teia e a Rocha”), “You Can’t Go Home Again” e “The Hills Beyard”. No Brasil, apesar de o autor ter se tornado cult, podem ser encontrados tão-somente “O Menino Perdido” (Iluminuras, 184 páginas, tradução de Marilene Felinto) e “O Trem e a Cidade” (Iluminuras, 128 páginas, tradução de Marilene Felinto).

Thomas Wolfe era um escritor torrencial. Escrevia de maneira excessiva, não era adepto de sínteses. A altura dos originais de “Look Homeward, Angel” era de vários centímetros. Os originais de “Of Time and the River”, ainda mais gigantesco, eram guardados num engradado de madeira. Os jornais ironizavam que os originais do escritor eram transportados de caminhão. Uma das missões de Max Perkins, altamente bem-sucedida, foi tornar o textos inteligíveis e um pouco mais sucintos. Devidamente editados, o primeiro saiu com quase 600 páginas e o segundo com 912 páginas (na edição da época).

A agente literária que apresentou Thomas Wolfe a Max Perkins, a francesa Madeleine Boyd, perguntou ao segundo: “Por que você mesmo não é escritor?” Ele nem pestanejou para responder: “Porque sou um editor”.

Editor de Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Thomas Wolfe, além de vários outros, Max Perkins não era um profissional convencional. Respeitava o talento dos escritores, mas corrigia seus originais, ensinava-os a arte da concisão e cortava, sem dó nem piedade, os excessos, notadamente os de Thomas Wolfe, um autor verborrágico.

Gargantuesco

Em 1928, Madeleine Boyd apareceu na sala de Max Perkins, na editora Scribners, com os originais de “Look Homeward, Angel”, e garantiu que era um “romance extraordinário” de “um sujeito grandalhão da Carolina do Norte”. Thomas Wolfe, ao contrário de Jude Law, de 1,82m, tinha quase 2 metros (usava uma geladeira como mesa, e escrevia sempre a lápis) e pesava 115 quilos; mas, curiosamente, o ator representa muito bem o escritor, suas maneiras esfuziantes e incontroláveis. No dizer de Pamela Hansford Johnson, o escritor era um “Gulliver faminto”. De tudo — comida e vida. O escritor, segundo Max Perkins, tinha “dentro de si dez mil demônios e um arcanjo”. Ele se achava gargantuesco.

“A primeira vez que ouvi falar de Thomas Wolfe, tive um mau presságio. Eu, que adorava o homem, digo isso. Toda coisa boa que acontece vem acompanhada de problemas”, escreveu Max Perkins. Os originais de “Look Homeward, Angel”, cujo primeiro título era “Lost”, tinham, segundo o autor, “entre 250 e 380 mil palavras”. “Jamais chamei este livro de romance”, anotou o escritor num bilhete para o editor. “Preciso de um empurrãozinho honesto”, concluiu a nota.

De uma curiosidade ímpar, o que o levou a perceber o talento de Fitzgerald e Hemingway (André Gide, na França, “dispensou” Marcel Proust), Max Perkins começou a ler o romance gigante e ficou fascinado. De cara, embora notasse que o texto precisava de uma “reorganização considerável e um bocado de cortes”, decidiu publicar o romance. As virtudes, ajeitadas, superavam os defeitos. Não há um crítico, como J. B. Priestley, Malcolm Cowley e Malcolm Bradbury, que não aponte seu caráter retórico e discursivo, mas, ao mesmo tempo, não reconheça seu imenso talento. Priestley afirma, no livro “A Literatura e o Homem Ocidental” (Livraria Acadêmica, 444 páginas, tradução de Aurélio Gomes de Oliveira), que, “uma vez aceitas suas limitações, Wolfe é um dos mais satisfatórios e compensadores de todos os romancistas americanos. Não é apenas porque seu cenário é grande, como de fato é, mas porque explora-o com vista e ouvido maravilhosos, com espantosa perfeição, muitas vezes levando-nos a uma grande profundidade”. O crítico ressalta a vitalidade de sua obra, a “abundância e riqueza de vida” e a “verdade poética a que atinge”.

No livro “O Romance Ame­ricano Moderno” (Jorge Zahar Editor, 220 páginas, tradução de Barbara Heliodora), Malcolm Bradbury assinala que seus romances são “vastos épicos de individualidade”. Seu “objetivo era captar as marés da vida criando um mito ao centro do qual estava o próprio eu romântico do autor”. O crítico nota que os romances de Thomas Wolfe são “épicos confessionais, são épicos do eu, da vida e dos Estados Unidos — um imenso jorrar de experiência pessoal”. De fato, os romances são autobiográficos — provocou polêmica na sua cidade natal, Asheville (falaram até em linchá-lo) —, mas também são imaginativos. É literatura, não é jornalismo literário.

O primeiro romance de Thomas Wolfe havia sido rejeitado pelas principais editoras americanas. Por quê? Por que era um “imenso monstro”, nas palavras do próprio autor, e, como tal, ilegível. O que se precisava era de um editor corajoso e consciencioso.

O livro e seu autor eram duas “Moby Dicks”, difíceis de “enfrentar”. Ao se encontrarem, Max Perkins comentou uma parte do livro, no qual o pai do protagonista conversa com a dona de um bordel, e Thomas Wolfe falou, rápido: “Sei que o sr. não pode publicar isso! Eu tiro, eu tiro já”. O editor alarmou-se: “Tirar? Esse é um dos contos mais fantásticos que já li”. Em janeiro de 1929, a Scribner aceitou “formalmente ‘Lost’ para publicação”. Graças, claro, ao empenho do editor. O livro, em síntese, retrata “um escritor [Thomas Wolfe] na juventude, morando nas montanhas que cercavam Asheville, na Carolina do Norte”.

Numa reunião, Max Perkins forneceu ideias gerais para manter o herói de “Lost”, Eugene Gant, “sob um foco fechado”, mas permitiu que o escritor trabalhasse “sozinho nos cortes”. Deu tudo errado. O texto reeditado por Thomas Wolfe perdeu apenas oito páginas. Aí, para que o romance adquirisse uma forma e pudesse ser publicado, o editor passou a fazer cortes mais radicais, com anuência ou não do autor. Numa carta para a irmã, Mabel Wolfe, o prosador escreveu que seu coração “sangrava” ao ver “porções” imensas da obra desapareceram. Apesar do grau de exigência de Max Perkins, “parte alguma do original chegou a ser extraída sem consentimento mútuo, e página alguma foi destruída”, aponta Scott Berg. Na verdade, não foi bem assim.

Como entendia muito de literatura — “Guerra de Paz”, o romance gigante de Liev Tolstói, era seu livro de cabeceira —, Max Perkins não recomendava cortes de maneira indiscriminada. O que buscava era um eixo para o romance. Por isso sugeriu que “a saga inteira fosse desenvolvida através das lembranças e sensações do menino, Eugene”. Scott Berg diz que “o critério o tempo todo foi a convicção de que a interação entre Eugene e a família era o centro essencial do livro e que quaisquer sequências que desviassem o leitor desse núcleo tinham de ser retiradas”.

Porém, se havia passagens magníficas, “Lost” era “totalmente desprovido de forma, e a única maneira que” Max Perkins “via de dotá-lo de alguma estrutura era fazendo cortes seletivos”. Quando percebeu a magnitude de cortes, Thomas Wolfe começou a encrespar. Mas acabou cedendo. “Às vezes, botar esse livro em forma me parece o mesmo que pôr um espartilho em um elefante”, admitiu o escritor.

No filme, fica-se com a impressão de que Thomas Wolfe é o único autor do novo título de “Lost”. Na verdade, Max Perkins e o editor John Hall Wheelock “eram fascinados por uma frase de três palavras do poema ‘Lycidas’, de Milton, título que também Wolfe, secretamente, considerava o melhor — ‘Look Homeward, Angel’”. “A Scribners rapidamente vendeu cerca de 15 mil exemplares.”

Publicado em setembro de 1929, “Look Homeward, Angel” foi um sucesso popular imediato. Madeleine Boyd disse: “Sem aquele outro gênio — Max —, o mundo jamais ouviria falar de Tom Wolfe”.

Colin Firth e Jude Law, atores ingleses, estão muito bem como Max Perkins e Thomas Wolfe. O escritor tinha quase 2 metros e pesava mais de 110 quilos, mas Law, embora menor, representa-o à altura. Firth está perfeito como o editor de ares aristocráticos

Colin Firth e Jude Law, atores ingleses, estão muito bem como Max Perkins e Thomas Wolfe. O escritor tinha quase 2 metros e pesava mais de 110 quilos, mas Law, embora menor, representa-o à altura. Firth está perfeito como o editor de ares aristocráticos

Segundo romance

Apesar de produzir muito, como se quisesse mais escrever do que publicar, Thomas Wolfe era inseguro e avesso à crítica. “Se alguém nasceu para escritor, esse alguém é você”, aconselhava Max Perkins. “E não precisa se preocupar se esse novo livro [o segundo] será tão bom quanto ‘Angel’. Basta você mergulhar nele, como sei que fará, e o livro será bom”. A carta do editor incentivou o escritor, que estava em Paris — meio escondido (farreando e, até, acreditando que era incapaz de escrever outro romance) — “a trabalhar de seis a dez horas por dia” na confecção de “Of Time and the River”.

Em Paris, Thomas Wolfe e Scott Fitzgerald encheram a cara com vinho, conhaque e uísque. Mas logo se desentenderam. “Eu disse que somos [os americanos] gente com saudade de casa, que pertencemos à terra e ao chão em que nascemos tanto ou mais do que qualquer país que conheço. Scott disse que não, que não somos um país, que ele não tem qualquer sentimento pela terra de onde veio”, escreveu o autor de “Look Homeward, Angel”.

Scott Fitzgerald, apesar do desentendimento, disse para Max Perkins sobre Thomas Wolfe: “Ele tem muito talento. Você descobriu um achado — é incalculável o que ele virá a fazer”.

O novo romance havia se tornado uma novela — no sentido de enrolado. Sofria, como o primeiro, de “elefantíase literária”, percebeu Max Perkins. Era um Leviatã. Mas o editor confiava em Thomas Wolfe: “Seu talento me parece genuinamente grande”. Mas ressalvava: “Um talento assim exige ser disciplinado e regulado”. Entretanto, irritado com as críticas a “Look Homeward, Angel” publicadas na Inglaterra, informou à Scribners: “Parei de escrever e não desejo jamais voltar a fazê-lo”.

Em seguida, Thomas Wolfe desapareceu, na Europa. Max Perkins enviou várias cartas, instigando-o a escrever: “Você sabe que já se disse que é preciso pagar um preço por tudo que se tem ou consegue, e posso ver que entre as suas mazelas se incluem crises de desespero, como acontece com os grandes escritores que em geral precisam pagar o preço do próprio talento”. Chegou a ameaçar ir à Europa. O escritor, de Freiburg, na Alemanha, recuou da renúncia: “Trabalhando de novo”. O editor o havia convencido, mais uma vez, de que era capaz.

Comenta-se que um dos problemas dos romances de Thomas Wolfe é que são abusivamente autobiográficos, o que, a rigor, não é um problema, desde que a literatura tenha qualidade. “Of Time and the River”, segundo o autor, “é mais autobiográfico do qualquer coisa que já imaginei, mas também é totalmente fictício. A ideia que paira sobre o livro do início ao fim é a de que todo homem vive em busca do pai”.

Max Perkins só tinha filhas, várias, e por isso, sugere Scott Berg, passou a considerar Thomas Wolfe como uma espécie de filho. O escritor o amava, como uma espécie de pai postiço e, dizia, como amigo.

Thomas Wolfe e Max Perkins mantiveram uma relação excepcional. O primeiro era um grande escritor, mas precisava da edição caprichada do segundo. Depois, o escritor, que morreu com 37 anos, brigou com o editor; eles quase foram aos tapas

Thomas Wolfe e Max Perkins mantiveram uma relação excepcional. O primeiro era um grande escritor, mas precisava da edição caprichada do segundo. Depois, o escritor, que morreu com 37 anos, brigou com o editor; eles quase foram aos tapas

Com sua autoridade de editor respeitado, e por ter se tornado pai-amigo, Max Perkins tomou uma decisão: “Acho que terei que arrancar esse livro dele”. Thomas Wolfe escrevia e rescrevia “Of Time e and the River”. O editor cortava, sugeria novos caminhos, mas, quando voltava às suas mãos, o romance estava maior do que antes. Por isso, Max Perkins chamou-o à sua casa e disse, na cara dura, que o romance estava “concluído”.

Thomas Wolfe esperneou, mas entregou os originais gigantes e disse para Max Perkins: “Devo confessar, envergonhado, que preciso de sua ajuda mais do que nunca”. “Perkins insistia que era dever do autor ser seletivo em sua escrita. Wolfe afirmava que a tarefa primordial do autor era iluminar todo um processo de vida para o leitor”, anota Scott Berg.

O editor e o escritor, discordando aqui e ali, começaram a trabalhar duro, seis vezes por semana, na reelaboração do romance. As mexidas nos originais eram imensas, em busca de um norte para estabelecer o romance. “Eu mesmo já não me acho capaz de dizer o que é o quê”, disse Thomas Wolfe para o escritor Robert Raynolds. Depois, acrescentou: “Deus sabe o que eu faria sem ele. Eu lhe disse outro dia que, quando o livro for lançado, ele poderá reconhecer que se trata do único livro que escreveu. Acho que me arrancou do fundo do pântano apenas por meio de pura energia e determinação serena”.

Scott Berg frisa que “Perkins contribuía com a objetividade e a perspectiva que faltavam ao autor”. Num artigo, o editor contemporizou: “Não houve sequer um corte com o qual Tom não tenha concordado. Ele sabia que era necessário cortar. Todo o seu impulso era de expressar o que sentia e não lhe sobrou tempo para revisar e enxugar”. Na verdade, Thomas Wolfe não era adepto da arte da concisão. Numa carta para Hemingway, Max Perkins lamentou: “Continuo envolvido em uma espécie de luta de vida ou morte com o sr. Thomas Wolfe”. Mas ele fazia seu trabalho de editor com prazer e, de fato, apreciava o escritor que estava moldando.

Scott Berg registra que “toda vez que riscava uma página de lado a lado, Perkins podia ver que os olhos de Tom seguiam sua mão. Wolfe piscava de dor, como se Max tivesse lhe rasgado a pele”. O editor cortava e, no dia seguinte, o escritor voltava com novos textos. “Está ótimo, Tom. Mas o que tem a ver com o livro? Pelo amor de Deus, Tom, como você vai terminar o livro agindo assim?” Atento, Max Perkins cortava parte, mas, quando percebia trechos e histórias de qualidade, acrescentava ao texto-base.

Quando Max Perkins estava cortando demasiado, Thomas Wolfe dizia: “Bom, então você assume essa responsabilidade”. O editor respondia-lhe: “Preciso assumir a responsabilidade”. Mais tarde, com o livro publicado, lamentou ter cortado e condensado algumas cenas do romance. Com suas 912 páginas, “Of Time and the River” saiu em 1935. Hemingway não gostou: “Mais de 60% [do livro] era lixo”. O público adorou e comprou milhares de exemplares. As críticas negativas, apesar de poucas, eram vistas pelo escritor como “ataques”. A Scribners vendeu mais de 30 mil exemplares em poucas semanas. Em seguida, lançou mais 10 mil exemplares. A crítica também aprovou. Thomas Wolfe, com apenas 35 anos, estava se tornando uma lenda.

Em seguida, Thomas Wolfe vai para a Alemanha, onde era apreciado pelos leitores. Nos Estados Unidos, era o escritor que recebia as cartas mais apaixonadas dos leitores, que se comportavam como fãs.

“Look Homeward, Angel” (“Olhe Para Casa, Anjo”) e “Of Time and the River” (“Do Tempo e do Rio”): os dois romances caudalosos, retóricos, palavrosos e cults de Thomas Wolfe fizeram um imenso sucesso na década de 1930, nos Estados Unidos e na Europa

“Look Homeward, Angel” (“Olhe Para Casa, Anjo”) e “Of Time and the River” (“Do Tempo e do Rio”): os dois romances caudalosos, retóricos, palavrosos e cults de Thomas Wolfe fizeram um imenso sucesso na década de 1930, nos Estados Unidos e na Europa

Rompimento

De volta ao batente, Thomas Wolfe começou a escrever contos e outro romance. A coletânea de contos “From Death to Morning” recebeu críticas negativas. Resenhistas apontaram o “emocionalismo mole” e a “falta de polimento”. Ele lançou também “The Story of a Novel”, de não-ficção, sobre a composição de sua prosa.

A partir de 1935, sobretudo, as relações de Thomas Wolfe e Max Perkins começaram a desandar. O escritor começou a dizer coisas ofensivas a respeito do editor. Uma vez, depois de uma discussão acerba, quase trocaram sopapos.

Quando o crítico Bernard De Voto sugeriu que, sem Max Perkins, Thomas Wolfe não existiria, o escritor ficou irritadíssimo. “A parte mais evidente de sua incompletude é o fato de que, até hoje, uma parte indispensável do artista não pertence ao sr. Wolfe, mas a Maxwell Perkins”, escreveu De Voto.

Possivelmente com a intenção de romper com Max Perkins, Thomas Wolfe começou a escrever uma série de contos sobre os bastidores da Scribners. A publicação das histórias poderia levar à demissão do editor, que havia revelado problemas da editora. Pressionado mas chateado, mudou um pouco as histórias.

A partir daí, Thomas Wolfe começou a procurar nova editora, sondando várias delas. Ele começou a sugerir que, sendo conservador, Max Perkins castrava sua literatura. Ele queria ser um novo James Joyce. Embora talentoso, não era da mesma estirpe do escritor irlandês, que, a rigor, já tinha um “filho” nos Estados Unidos — William Faulkner, autor do romance “O Som e a Fúria”.

À escritora Marcia Davenport, autora de “Of Lena Geyer”, Thomas Wolfe disse que queria provar que, para criar e publicar, não precisava de Max Perkins. “Vou mostrar a eles [os críticos] que posso escrever meus livros sem Max. Vou largar Max e arrumar outro editor. Vou deixar a Scribners.”

Max Perkins queria mantê-lo, mas disse cansado de seu protegido: “Está bem, se você tem de deixar a Scribners, vá em frente e deixe, mas, pelo amor de Deus, não fale mais nesse assunto”. Depois de conversar com várias editoras, Thomas Wolfe fechou com a Harper & Brothers. Iria trabalhar com o editor Ed Aswell, que apreciava sua literatura.

“O Menino Perdido e Outros Contos” e “O Trem e a Cidade” são livros de Thomas Wolfe publicados no Brasil, pela Editora Iluminuras, com tradução da escritora Marilena Felinto. É um aperitivo para quem quer conhecer sua obra

“O Menino Perdido e Outros Contos” e “O Trem e a Cidade” são livros de Thomas Wolfe publicados no Brasil, pela Editora Iluminuras, com tradução da escritora Marilena Felinto. É um aperitivo para quem quer conhecer sua obra

Mas em julho de 1938 Thomas Wolfe adoeceu, “contraíra uma séria pneumonia brônquica”. Em agosto, depois de receber uma carta do antigo amigo, escreveu uma carta carinhosa para Max Perkins.

Com a suspeita de que tinha alguma doença cerebral, médicos de Seattle sugeriram que fosse removido. A família o levou para o Hospital Universitário Johns Hopkins, em Baltimore, para ser examinado pelo neurocirurgião Walter Dandy.

O médico “diagnosticou a doença de Wolfe como tuberculose cerebral”. Quando abriu o cérebro do paciente, encontrou vários tumores. Thomas Wolfe, chamado pelos amigos de Tom, morreu três dias depois da cirurgia, em 15 de setembro de 1938, faltando 18 dias para seu aniversário de 38 anos. Max Perkins lamentou profundamente sua morte, mas lembrou-se de uma fala da peça “Rei Lear”, de Shakespeare: “Não lhe atormente a alma: deixe-o ir. Ele odeia quem quer, neste mundo cruel, ainda torturá-lo”.
Max Perkins morreu em 1947, aos 62 anos.

Quase-poeta

Thomas Wolfe quis ser poeta, mas era, acima de tudo, prosador. Mas sua prosa tinha um quê de poesia, anota Louis Untermeyer, no livro “Os Forjadores do Mundo Moderno” (Fulgor). Ele recolhe o trecho final do livro “You Can’t Go Home Again”: “Uma voz me falou de noite, quando os círios/do ano que morre chegam ao fim; uma voz falou-me/de noite, e me disse que vou morrer,/não sei quando; disse:/— Abandonarás a terra para adquirires um saber maior;/perderás a vida que gozas para encontrar uma vida

/melhor,/deixarás teus amigos queridos, para encontrar um/carinho maior;/para viver num lugar mais acolhedor que tua terra natal/e mais amplo que a extensão terrena —/— onde repousam os pilares desta terra — para/os quais remonta a consciência humana — sopra/o vento e os rios crescem”. Louis Untermeyer avalia o texto como “um dos poemas mais comovedores, perfeitos e dramáticos de nossa época”.

(A maioria das informações deste texto não está no filme “O Mestre dos Gênios”. Mas, de resto, vale muito vê-lo. Apesar de lacunar, é belo e, no geral, preciso. O diretor e o roteirista compreenderam a essência da relação criativa entre dois homens admiráveis e lendários, Maxwell Evarts Perkins e Thomas Clayton Wolfe.)

Notas:

1 — “Olhe Para Casa, Anjo” é como Barbara Heliodora traduz o título de “Look Homeward, Angel” no livro “O Romance Americano Moderno” (Jorge Zahar Editor, 220 páginas), de Malcolm Bradbury.

2 — Barbara Heliodora traduz “Of Time And The River” como “Do Tempo e do Rio”. O título comumente é traduzido como “Sobre o Tempo e o Rio”.

E-mail: [email protected]

Faulkner diz que Tom Wolfe era “o primeiro escritor americano contemporâneo”

Thomas Wolfe e sua mãe, Júlia

Thomas Wolfe e sua mãe, Júlia

“Look Homeward, Angel”, de Thomas Wolfe, é um dos romances mais populares e cults da literatura americana. No ensaio “‘Look Homeward, Angel’, de Thomas Wolfe¹”, o crítico literário Thomas C. Moser, professor da Universidade de Stanford, colhe uma opinião do escritor William Faulkner a respeito do prosador: “Coloquei Wolfe em primeiro lugar [como o primeiro escritor americano contemporâneo, colocando a si próprio em segundo lugar] porque nós todos falhamos, mas Wolfe falhou da melhor maneira, pois se esforçou tremendamente para dizer o máximo… Minha admiração por Wolfe se baseia no fato de haver ele feito tudo o que podia para dizer tudo; estava disposto a deixar de lado o estilo, a coerência e todas as normas de precisão, para tentar colocar toda a experiência do coração humano na cabeça de um alfinete, por assim dizer.”

¹ “Panorama do Romance Americano” (Fundo de Cultura, 229 páginas, tradução de Brenno Silveira), vários autores.

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Adalberto De Queiroz

Genial! Só mr. De França Belém pode escrever isso nessa altura da geografia jornalística do brasil-central ou, se preferem, da província de Goyaz. Parabéns!

Adalberto De Queiroz

Este “O trem e a cidade” é uma pequena obra-prima. Terminei de lê-lo num vagão de um trem rápido de Helsinque a S.Petersburgo. E me deparei com trechos saborosos como estes dos links abaixo – fotos de páginas do citado livro – em que Wolfe descreve a emoções da partida de um trem! O narrador é um americano que viaja na França – similar ao brasileiro que o lia muitos anos depois -, viajando num trem russo: “As pessoas estavam falando a língua universal da partida, que não varia no mundo inteiro – a língua muitas vezes banal, trivial e… Leia mais

Cristiano Deveras

Ótima síntese da relação destes dois gigantes da literatura.

Francisco Aragao

A atuação de Nicole Kidman não tem nada de discreta. Não confunda com tempo de aparição em cena. Elementar diferença. Cuidado.

Sebastião Calado da Silva

Parabéns pela belíssima e precisa resenha, Euler de França Belém. Dá gosto ler um texto como esse, com riqueza de informações. abrangendo o livro e o filme. Gostei imensamente – e vou repassá-lo aos amigos e amigas.

Eliesse Scaramal

Muito bom texto de opinião.

erci goulart

Enriquecedor seu texto após ter visto o filme O mestre dos genios.Parabéns.!