Euler de França Belém
Euler de França Belém

Fidel Castro, que não rejeitou acordo com EUA, recebe Frei Betto. Liberalização à vista? Quem sabe

Pelo menos seis brasileiros são considerados “fidelistas” em Cuba: Lula da Silva, Dilma Rousseff, José Dirceu, Chico Buarque, Fernando Morais e Frei Betto. “Fidel e a Religião” (de 1985) resulta de uma longa entrevista feita pelo dominicano brasileiro Frei Betto. O livro se tornou best seller internacional. Em Cuba, entre crentes e ateus, se tornou uma espécie de bíblia. Cada resposta de Fidel Castro é um “versículo”. Na quarta-feira, 28, o jornal mais importante do País, o “Granma” — porta-voz do Partido Comunista Cubano, quer dizer, da família Castro —, noticiou, com destaque, novo encontro entre Fidel Castro, de 88 anos — consta que com lapsos de memória, quase demenciando —, e Frei Betto, da Igreja Católica.

O encontro entre Fidel Castro e Frei Betto ocorreu na terça-feira, 27, em Havana (por questões de saúde, o longevo ditador não sai mais de Cuba). “O companheiro Fidel e o destacado intelectual brasileiro Frei Betto sustentaram na tarde de ontem [terça-feira] uma conversa amistosa, durante a qual abordaram variados temas nacionais e internacionais”, sublinha o “Granma”. Quais temas depreende-se que sejam segredo de Estado. “O encontro se desenvolveu num clima afetuoso, característico das amplas e fraternais relações existentes entre Fidel e Betto”, acresceu o jornal.

Cubanos sugerem que, embora muito doente e meio desconectado da realidade, Fidel Castro ainda é a autoridade suprema da Ilha. Raúl Castro, antes de tomar alguma decisão importante, visita o homem que liderou a Revolução de 1959 e lhe pede orientações sobre quais caminhos trilhar. Tolo aquele que acreditar que a aproximação com os Estados Unidos tenha se dado única e exclusivamente pela boa vontade de Raúl Castro e por sugestão do papa Francisco, da Igreja Católica.

Na segunda-feira, 26, Fidel Castro disse que não rejeita acordos, como o feito recentemente com os Estados Unidos, que provavelmente colocará fim ao embargo econômico — que, na prática, só existe porque Cuba não tem dinheiro para comprar mercadorias no mercado internacional (quem tem, como o Irã e a Rússia, burla quaisquer embargos) —, mas frisou que permanece “desconfiado” do velho “inimigo”. Washington, mais maleável, viu a fala de Fidel Castro como um “sinal positivo”. Uma porta aberta, quase escancarada. Fidel Castro, como discípulo mais de Maquiavel e Hobbes do que de Marx (que, como as obras de Fernando Henrique Cardoso, não serve para o dia a dia da política e da economia), sabe que não se arromba portas abertas.

Aposta-se que o estabelecimento de relações abertas entre Estados Unidos e Cuba com Fidel Castro ainda vivo — acreditava-se na suspensão do embargo tão-somente depois de sua morte (o embargo é um dos fatores responsáveis pela longevidade da dinastia Castro no poder) — tende a contribuir para liberalizar, aí de modo definitivo, o regime pós sua morte. Raúl Castro, visto como um “duro” devido à sua história como executor-mor da Revolução, é interpretado pela diplomacia internacional como menos culto do que o irmão, porém mais maleável a um sistema menos fechado. A tese de uma mini-China no Caribe é de Raúl Castro, não de Fidel Castro.

Curiosidade: as pernas de Fidel Castro parecem mais finas do que de hábito.

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