Euler de França Belém
Euler de França Belém

FHC tentou impedir candidatura de Marconi Perillo em 1998, pois não queria conflito com Iris Rezende

No segundo volume de seus “Diários”, relatando fatos de dois anos de governo, 1997 e 1998, o ex-presidente afirma: “Iris não pediu, eu não queria que o Perillo fosse sequer candidato”

Fernando Henrique Cardoso e Marconi Perillo: quando presidente, o tucano trabalhou para que Iris Rezende fosse candidato com o apoio do PSDB, mas o tucano goiano resistiu e foi eleito governador, em 1998, aos 35 anos

Fernando Henrique Cardoso e Marconi Perillo: quando presidente, o tucano trabalhou para que Iris Rezende fosse candidato com o apoio do PSDB, mas o tucano goiano resistiu e foi eleito governador, em 1998, aos 35 anos

O ex-presidente da Repú­blica Fernando Hen­rique Cardoso está fornecendo um autêntico maná para os historiadores com os “Diários da Presidência”, em dois volumes, abrangendo, até agora, os períodos de 1995 a 1998. O livro é muito mais útil aos pesquisadores do que aos jornalistas, porque estes, com a pressa habitual, não têm tempo e espaço suficiente para comentários e análises mais abrangentes. A qualidade real (além da quantidade) das informações só vai ser assimilada aos poucos. O que não se pode, porém, é tratar os livros como documentos “isentos” ou inteiramente “objetivos”. Posteriormente, com mais vagar, os estudiosos terão oportunidade de estudá-los, de maneira mais detida, para extrair o que há de proveitoso e, em seguida, comparar com outras fontes. Os “Diários” são “uma” interpretação do período — não “a” interpretação — feita por um de seus participantes mais ativos (FHC não estaria tentando “ajustar” sua história, ao oferecer “uma” interpretação? Sua explicação da “compra” da reeleição é quase “ingênua”). O trato com a política regional, indicando forte tradicionalismo, é um dos aspectos mais interessantes das histórias relatadas pelo sociólogo e político; por sinal, ainda atuante na elaboração do discurso e na definição das ações da política patropi, notadamente do PSDB. A seguir, menciona-se o embate travado entre Iris Rezende e Marconi Perillo, em 1998 — há quase 18 anos, uma geração.

Em 1998, até os vira-latas da periferia e os postes dos setores ditos nobres sabiam: Iris Rezende seria candidato e, sobretudo, seria eleito governador de Goiás. O governador Maguito Vilela, eleito em 1994 — derrotando Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado —, era bem avaliado nas pesquisas de popularidade do instituto Datafolha e era candidatíssimo à reeleição. Mas dormiu candidato a governador e acordou candidato a senador. O principal líder do PMDB, Iris Rezende, impôs seu nome e definiu-se candidato. Era o homem-convenção — mandava em quase tudo e em quase todos em Goiás. Era uma espécie de coronel da democradura. Não havia adversário à sua altura. As oposições pensaram em lançar o deputado Roberto Balestra, do PPB (não era PP), mas o político de Inhumas não tinha cacife para derrotar o Napoleão do Cerrado. O que fazer? Em Brasília, com intermediação de Fernando Henrique — o que ele não diz no livro — e Serjão Motta, seu ministro das Comunicações, tramou-se uma aliança entre o PMDB de Iris Rezende e o PSDB, então sem um líder da magnitude do peemedebista-chefe. Que tal uma suplência no Senado ou uma secretaria? A vice, nem pensar. Afinal, se o senador estava eleito, por que abrir espaço na vice?

Menosprezado, o PSDB encheu-se de brios, uniu-se aos outros partidos da oposição — menos o PT — e lançou o deputado federal Marconi Perillo, de 35 anos, para o governo. Era para cumprir tabela e formatar um líder-postulante para o futuro. Façamos uma pausa para voltar ao livro. No volume 2, o político de Goiás mais mencionado é Iris Rezende — em 40 páginas. Em geral, é tratado com respeito, mas com certo desdém, que o político nascido em Cristianópolis perceberá com facilidade e, por certo, desconforto. Interessa-nos, num primeiro momento, a questão de 1998.

Por que Marconi Perillo derrotou Iris Rezende na eleição de 1998? Segundo Fernando Henrique Cardoso, o tucano “ganhou porque o povo cansou da oligarquia”

Por que Marconi Perillo derrotou Iris Rezende na eleição de 1998?Segundo Fernando Henrique Cardoso, o tucano “ganhou porque o povo cansou da oligarquia”

Em março de 1998, Fernando Henrique recebe Iris Rezende para uma conversa. “Falei com Iris, que disse que vai mesmo embora do governo [era ministro da Justiça], que há um apelo muito grande para que ele seja candidato [ao governo de Goiás] e que ele queria deixar no seu lugar o atual secretário-executivo, o José de Jesus [Filho]. Ele sabe que Jader [Barbalho] é candidato [à vaga], claro, mas acha José de Jesus a solução mais natural, por ser desembargador”, relata o sociólogo-presidente. Em abril, o líder goiano entrega a carta de demissão. “Ele gostaria que o José de Jesus ficasse no governo.”

Em julho de 1998, acompanhado do deputado federal Sandro Mabel, do PMDB, Iris Rezende visitou Fernando Henrique e disse que o PSDB havia lançado candidato a governador, mas sem nenhuma chance de derrotá-lo. “A diferença [nas pesquisas] de 65% para 6,5% é grande”, anotou o presidente. Chegou a ser maior.

No diário, Fernando Henrique anotou (na verdade, gravava): “Vamos perder esse bom deputado que se candidatou, que é Marconi Perillo. Parece ser bom, mas não vai ganhar a eleição. Era preciso que ele não se lançasse por duas razões: para não criar dificuldade com Iris e também para termos mais deputados bons do PSDB. Não me ouviram e agora, como todos, vão cobrar meu apoio, porque querem ter alguém que os catapulte à vitória impossível. Cada um tem que vencer sozinho, não há apoio que leve à vitória. Ou pelo menos apoio distante, como é o caso do presidente da República. Por outro lado, vão se queixar de que não os apoio. Eu disse que não deviam se lançar”.

A história prova que sociólogos gabaritados como Fernando Henrique também cometem erros crassos de avaliação. Mas os dados avalizavam sua interpretação de que o tucano Marconi Perillo não tinha chance alguma contra Iris Rezende, na época visto como imbatível pela maioria dos goianos, inclusive pelos políticos da oposição. Na verdade, naquele momento, o presidente avaliava os dois goianos como político, não como intérprete da sociedade e da história. Marconi estava, na verdade, “criando caso” e, portanto, “atrapalhando” suas relações com um político que tinha força regional e, sobretudo, na Câmara dos De­putados e no Senado (os três senadores eram do PMDB).

Uma pausa. Em 2002, quando pretendia disputar a reeleição, Marconi Perillo estava acossado pelo senador Maguito Vilela. Popula­ríssimo, o peemedebista era visto como virtual governador de Goiás. Num encontro com o diretor responsável do Jornal Opção, Herbert de Moraes Ribeiro, na sala deste, num shopping nas proximidades da Praça Tamandaré, quando lhe disseram que deveria disputar mandato de senador, pois sua vitória seria certa, e não de governador, que seria improvável, Marconi Perillo, agora com 39 anos e mais maduro, em termos políticos e administrativos, disse: “Em política só perde quem não disputa”. O sentido da frase parece simples, de fato é simples, mas é menos óbvio que se percebe. O que o tucano sugeriu, com o máximo de simplicidade, é que nenhum líder pode fugir da raia. Teria sido mais fácil “escapar” à responsabilidade em 1998 — quando o risco de perder era, sim, muito maior. Em 2002, seria eleito senador, mas deixaria de ser líder, que é aquele indivíduo no qual todos acreditam para enfrentar as maiores e piores adversidades. Na “terra devastada”, de “homens ocos ou de palha”, os líderes são mais necessários do que na bonança.

Fernando Henrique é mais escolado em termos intelectuais, mas Marconi Perillo sabia, por intuição e baseado em pesquisas, que os eleitores queriam mudança. A frente de Iris Rezende era mais inercial. Num Estado gigante como Goiás — maior do que Portugal, Cuba, Israel e Coreia do Sul juntos —, políticos jovens, com nenhuma participação em eleições majoritárias, que são as únicas que realmente dão visibilidade globalizada, são desconhecidos. Era o caso: o peemedebista era conhecido, e bem avalizado por gestões anteriores — que foram relativamente consistentes —, e poucas pessoas sabiam quem era o tucano. O uso da camisa azul era uma maneira de identificá-lo.

O presidente sabia das pesquisas, mas equivocou-se quando entendeu que se tratava de um quadro fixo, irreversível. Tanto que sua anotação é uma “condenação” da candidatura de Marconi Perillo, que seria uma aventura e contribuiria para prejudicar, ainda que minimamente, suas relações com o PMDB. A um presidente interessa muito mais a Câmara dos Deputados e o Senado do que governos estaduais. Embora, por vezes, governadores manipulem as bancadas.

Adiante, na página 720, numa anotação de outubro de 1998, sem fazer mea culpa, Fernando Henrique diz: “Surpresa em Goiás, onde não imaginei que o Iris fosse perder para o Perillo, que é do PSDB”. Noutro trecho, FHC assinala: “Iris não pediu, eu não queria que o Perillo fosse sequer candidato, mas ele ganhou porque o povo cansou da oligarquia”.

Uma nota de rodapé “informa”: “Iris Rezende foi batido no primeiro turno por Marconi Perillo: 46,2% a 53,3%”. De fato, o tucano foi mais bem votado do que o peemedebista no primeiro turno, mas só venceu no segundo turno. Com 53,3%, teria sido eleito no primeiro turno.

No primeiro turno, Marconi Perillo obteve 48,59% dos votos — contra 46,91% de Iris Rezende. No segundo turno, a votação do postulante do PSDB subiu para 53,28% e a do peemedebista caiu para 46,71%. l

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