Euler de França Belém
Euler de França Belém

FHC sugere que Roriz ‘comprou’ o Jornal de Brasília e que PMDB tentou montar governo paralelo em Goiás

Ex-presidente diz que o ex-governador do DF intermediou venda do jornal da família Câmara e que Ovídio de Ângelis repassou milhões para prefeitos goianos, abandonando outros municípios do país

Marconi Perillo (visto como político capaz), Iris Rezende (derrotado para o governo, limita-se a pedir ao presidente para não transferir batalhão), Joaquim Roriz (intermediou venda de jornal da família Câmara), Mauro Miranda (apesar da futrica provincial, é apresentado como republicano), Ronaldo Caiado (era preciso manter próximo para se ter certo controle político), Henrique Meirelles (ouvido para explicar os humores externos dos banqueiros), Ovídio de Angelis (favorecendo prefeitos do PMDB em Goiás), Reginaldo de Castro (como presidente da OAB, deixou de perceber que o presidente da República precisa ser resguardado) e Siqueira Campos (“controlava “o povo do  Tocantins para não vaiar o líder tucano)

Os “Diários” (três volumes até agora) do ex-presidente da República e sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que a imprensa rebatizou de FHC, são um verdadeiro maná para pesquisadores da área de história, economia, sociologia e ciência política.

O tucano relata os bastidores de seu governo com certa crueza, o que, desde a publicação do primeiro volume, tem provocado polêmica e desagradado até alguns de seus aliados e amigos. Uma informação curiosa sobre “Diários da Presidência — 1999-2000” (Companhia das Letras, 851 páginas) é que vários dos investigados pela Operação Lava Jato, como Emilio Odebrecht (o ex-presidente o aprecia) e Ronaldo Cezar Coelho, mantinham estreito relacionamento político com o estadista que presidiu o país de 1994 a 2002 — sem contar o período do governo do presidente Itamar Franco, no qual, como ministro das Relações Exteriores e da Fazenda, acabou se tornando uma espécie de primeiro-ministro. Era, a rigor, o governante de fato, especialmente depois da implantação do Plano Real.

Há histórias do balacobaco e, algumas vezes, deprecia-se intelectuais acadêmicos, como o crítico literário Roberto Schwarz, um dos mais gabaritados intérpretes da obra de Machado de Assis. “Roberto sabe pouco de coisas concretas, vive num mundo conceitual procurando entender do que se trata.” Frise-se que são amigos de frequentar as casas. A seguir, destacarei mais políticos goianos ou ligados a Goiás que são mencionados no livro. Comecemos com Joaquim Roriz, que foi governador do Distrito Federal — primeiro nomeado por José Sarney e, depois, escolhido pelos eleitores. É o goiano mais citado pelo decano de 85 anos.

Fernando Henrique conta que, em 1998, três nomes pontificaram na disputa pelo governo do Distrito Federal — Cristovam Buarque (PT), Joaquim Roriz (PMDB) e José Roberto Arruda (PSDB). O tucano reclamou que não foi para o segundo turno — disputado por Roriz (bancado pelo presidente no segundo turno) e Cristovam, com a vitória do primeiro — porque faltou-lhe apoio da cúpula do PSDB. Eduardo Jorge Caldas Pereira, que havia sido coordenador operacional da campanha de FHC à ex-reeleição e ex-secretário-geral da Presidência, não teria se empenhado na sua campanha. Os dois se tornaram inimigos figadais. “Nessas horas de mudança de governo, e de muita política, é que se vê quanto a paixão domina o comportamento dos seres humanos, é ciúme, inveja, mesmo nos melhores, como Eduardo”, escreve Fernando Henrique. “Eduardo acha que o Arruda quer destruí-lo, então primeiro ele tentará limitar o Arruda.”

Em setembro de 1999, Fernando Henrique conversa com Joaquim Roriz sobre “financiamentos do Distrito Federal” e o jornal “Correio Braziliense”. O governador do DF afirma que o então diretor de redação do “Correio”, Ricardo Noblat, “é muito ligado” ao Cristovam Buarque. “Na verdade”, postula FHC, “o Roriz quer é apoiar o ‘Jornal de Brasília’, do grupo Jaime Câmara; é um jornal correto, me parece. O ‘Correio’ quer ser a ‘Folha de S. Paulo’ em Brasília: escândalo, pessimismo, denúncia. O outro, o ‘Jornal de Brasília’, é um jornal mais analítico. Agora, apoiar significa o quê? Claro que eles precisam de um empréstimo do Banco do Brasil, e tudo bem se estiver dentro dos conformes; se não estiver, não há o que fazer. Mas o Roriz tem tido uma atitude compreensiva até na questão das brigas com o senador Arruda”. (Sobre o diretor de redação da “Folha de S. Paulo”, Otavio Frias Filho, FHC é implacável, quase tão cruel quanto Mino Carta: “Otavinho pensa que é um grande intelectual. A carta dele [para José Serra] é eivada de ódio. O Serra teria influenciado Octavio Frias a tirar o Fernando Rodrigues da ‘Folha’, e Otavinho o defende. Não é explícito, porque esse rapaz, filho de papai rico, que nunca experimentou as agruras do trabalho, com as incertezas do que vai ser o dia seguinte, é a expressão deste niilismo arrogante”. Não é o foco deste texto, mas a impressão que se tem é que FHC só festeja os jornais e jornalistas que o elogiam. E políticos atrasados, desde que aliados, são bem-vindos; os demais, ao discordarem, estão “fora do tempo”, são desatualizados.)

O apoio a Roriz, produto da realpolitik, derivava do projeto de impedir a reeleição de Cristovam Buarque. Mas o populismo do político goiano nunca agradou a intelligentsia tucana. Nos encontros, o governador de Brasília — hoje, doente —, fora a “ajudinha” para o “Jornal de Brasília”, quase sempre era republicano. Em novembro de 1999, discutiu com FHC “o metrô e a Polícia Militar de Brasília”.

Em fevereiro de 2000, o “Jornal de Brasília”, de Jaime Câmara Júnior e Fernando Câmara, volta à baila. O registro do presidente: “Tive um almoço no Palácio da Alvorada com o pessoal do ‘Jornal de Brasília’ e soube, pelo [Luiz] Gutemberg, que a família Câmara vendeu o ‘Jornal de Brasília’ para um grupo capitaneado, não sei se em termos de dinheiro, mas politicamente, pelo Roriz, governador de Brasília”.

Em março de 2000, Fernando Henrique recebe o governador Roriz e o senador Iris Rezende. “Iris foi me pedir para não deixar transferir um batalhão de uma cidade goiana, e o Roriz para que houvesse um fundo constitucional para os recursos do Distrito Federal.” Derrotado pelo governador Marconi Perillo, do PSDB, em 1998, Iris Rezende aparece, aparentemente apequenado, preocupado com transferência de um batalhão. O “Diário” não explicita qual tipo de batalhão, possivelmente é do Exército.

Na parada de 7 de setembro de 2000, uma claque levada por Roriz parece ter agradado Fernando Henrique. Em várias páginas, o presidente parece amargurado por não ser popular, por não entusiasmar tanto as pessoas. Por isso, mesmo que seja nas entrelinhas, o registro de certo entusiasmo com as massas “atraídas” por Roriz para aplaudi-los.

Reprodução

Marconi Perillo

O governador de Goiás, Marconi Perillo, é listado em oito páginas. Registro de 12 de abril de 1999: “Recebi o Marconi Perillo, em seguida a bancada de Goiás. O que a bancada quer? A mesma coisa que todas as bancadas. Ela se compõe de deputados do PSDB, PFL [DEM], PPB [PP]. Querem alguns cargos, apoio do governo federal ao Perillo, recurso para o Estado, enfim, o trivial ligeiro que uns acusam os outros de fazer, como se fosse escândalo. Até me irritei um pouco com um deputado que disse que a decisão dependia só da minha vontade política. Eu disse: ‘Não é isso, não, tem que ter base técnica. Se houver base técnica, sim, do contrário não adianta, porque vontade política foi o que deu confusão no Brasil no passado’”. O nome do deputado não é mencionado e não se fica sabendo se a “confusão” do passado é do tempo de João Goulart, de José Sarney ou de Fernando Collor.

Em setembro de 1999, Fernando Henrique conversa com Marconi Perillo, em Brasília. “Ele tem seus pleitos, quase todos atendidos pelo PPA, tem suas dificuldades também, mas foi uma boa conversa.”

Em 28 de novembro de 1999, FHC visita Goiás: “Fomos a Pirenópolis inaugurar a restauração de um teatro que fazia cem anos, o governador Marconi Perillo fez um discurso muito generoso a meu respeito. Almoçamos no que ele chama o sítio dele, uma casa bastante agradável, havia vários deputados, inclusive o Ronaldo Caiado, discutimos algo sobre a questão da reforma tributária”.

Em fevereiro de 2000, o presidente recebe o governador Marconi Perillo e anota que “tem feito um bom governo”. Em maio do mesmo ano, Fernando Henrique faz um longo registro de sua perda de prestígio político e sobre a fragilidade dos candidatos do PSDB (tudo indica que está falando das eleições municipais, pois 2000 era ano de disputa para prefeito, mas o tucano estende sua análise para a sucessão presidencial): “Não se consegue botar junto Mário Covas, [José] Serra, Tasso [Jereissati], Pimenta [da Veiga], eu, Aloysio [Nunes], [Arnaldo] Madeira, para uma conversa franca, e conversa franca quer dizer o seguinte: eu acho que neste momento existe na sociedade um sentimento de mudan

ça, mudança de geração, mudança de estilo, e isso inclui até mudança do meu estilo. Se o PSDB quiser ter presença eleitoral, deverá encontrar um candidato que encarne esse novo espírito. O nosso foi embora, que era o Ciro [Gomes]; não só foi embora como passou a me agredir pessoalmente da maneira mais torpe. É difícil encontrar outro, porque nem o Dante de Oliveira nem o Perillo, que são forças jovens, se projetaram nacionalmente, embora ainda haja tempo. O PSDB precisa escolher um caminho e para isso tem quer ter uma conversa franca entre os que mandam e os eventuais candidatos”. FHC está registrando fatos e análises de 2000 e era presciente (“o Serra não tem um ar de novo”). Porque, como não se renovou, o tucanato “entregou” o poder para o PT de Lula da Silva e Dilma Rousseff em quatro eleições seguidas — de 2002 a 2014. O PSDB nacional envelheceu, em termos de pessoas e, mesmo, ideias, tornando-se uma espécie de PT menos radicalizado e menos afeito ao social. Um PT, digamos, desconectado da sociedade. Sua possível volta ao poder, em 2018, tende a resultar mais da debacle petista do que de seus méritos políticos.
Em junho de 2000, logo depois de revelar que Duda Mendonça havia aconselhado-o a estabelecer uma comunicação direta com a sociedade — “sou mais descuidado do que parece quanto ao chamado culto da personalidade” (na verdade, lamuria-se, em quase todo o livro, sobre sua queda de popularidade e prestígio) —, volta a conversar com o tucano do Cerrado. “Recebi à tarde o Marconi Perillo, governador de Goiás, que é um rapaz bom, claro. Ele quer um pouquinho mais de recursos, quer baixar o comprometimento da dívida dos Estados para ter mais recursos, o que não dá para fazer. Agora, pode-se dar mais recursos e manter os juros sem mexer no contrato.”
No dia 8 de agosto de 2000, Fernando Henrique almoça com Marconi Perillo e Pimenta da Veiga — “para acertar o futuro do PSDB e também ver o que a gente pode fazer com relação a Goiás”. Não há nenhuma informação a mais.

Meirelles e Mauro Miranda

Uma nota de rodapé informa: “O presidente da Funai, Silvestre Sullivan, morrera em 1º de fevereiro [de 1999], num acidente aéreo em Goiânia”. O nome do procurador de justiça de Goiás, que faleceu aos 36 anos, é Sulivan Silvestre de Oliveira. Era um jovem atuante e competente. Havia sido indicado pelo ministro da Justiça, Iris Rezende.
Henrique Meirelles (goiano de Anápolis, primo de Aldo Arantes e hoje ministro da Fazenda do governo de Michel Temer), então presidente internacional do BankBoston, almoçou com Fernando Henrique e Roberto Campos, em Brasília, em março de 1999. “Para sentir a situação. Ele [Meirelles] pensa como nós. Acha que há um desconhecimento da situação brasileira e que é só esclarecer que melhora.” (Sobre Roberto Campos, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado, há uma informação curiosa. O banqueiro Joseph Safra “sugeriu que chamássemos o Roberto Campos para ajudar a convencer os banqueiros, para que eles acreditassem na posição do Brasil. Disse que Campos poderia fazer uma viagem aos Estados Unidos. Não é má ideia”. O encontro com Safra, que estava acompanhado por Antônio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim, ocorreu em janeiro de 1999. Num registro de março de 1999, Roberto Campos aceitou a incumbência de dialogar com os banqueiros. “Nossa situação é melhor do que eles pensam.”)

Eliseu Padilha, Ronaldo Cezar Coelho e Emílio Odebrecht, investigados pela Operação Lava Jato: os três são mencionados como próximos do tucano Fernando Henrique Cardoso… pelo próprio ex-presidente da República

Mauro Miranda (PMDB), senador no período registrado pelo “Diário”, é mencionado em três páginas. “Recebi o senador Mauro Miranda com um deputado de Goiás, muito amáveis, foram prestar solidariedade, amizade, pensei que ele fosse discutir o veto à lei da anistia eleitoral, mas não fez isso.” Em agosto de 2000, outra anotação: “No fim do dia falei com o Iris Rezende e com o Mauro Miranda, senadores de Goiás, que vieram fazer contraponto, porque vou a Goiás na próxima semana, e há essa briga infinita [entre o PSDB e o PMDB goianos]”.
Iris Rezende (PMDB), senador entre 1994 e 2002 e hoje prefeito de Goiânia, é citado em sete páginas. Fernando Henrique menciona uma conversa gravada do diretor da Polícia Federal, Vicente Chelotti, “com expressões desagradáveis sobre o senador Iris Rezende”. Uma nota de rodapé complementa a informação: “A revista [“CartaCapital”] publicou transcrições nas quais Chelotti se gabava de ser intocável na diretoria-geral da PF (“minha cadeira tem cola Superbonder”) e ter ‘nas mãos’ o ex-ministro da Justiça Iris Rezende. O diretor-geral supostamente reunira gravações comprometedoras sobre o senador goiano e o presidente da República”.

A última informação sobre o peemedebista é de dezembro de 2000. “O Iris Rezende veio me trazer um novo desembargador de Goiás.” Trazer significa, possivelmente, apresentar. Trata-se de “Sebastião de Oliveira Castro Filho, novo ministro do STJ”, esclarece uma nota de rodapé. O ministro aposentou-se, em 2007.

O “Diário” menciona Anápolis, em agosto de 2000: “Dormi cedo porque eu iria a Goiás inspecionar a obra de uma estrada que liga Brasília a Goiânia, num trecho da Brasília-Anápolis [uma nota de rodapé complementa: “FHC visitou quatro trechos das obras de duplicação da BR-060 entre Goiânia e Anápolis, inauguradas em dezembro de 2000”]. Depois, fui a Palmeiras de Goiás inaugurar a iluminação na casa de uma senhora, dona Conceição [Oliveira], no programa Luz no Campo. Voltei, fui à fazenda do Pimenta [da Veiga], onde almocei com o Ronaldo Cezar Coelho. Pedimos que o Ronaldo aproveite o programa eleitoral na televisão para defender o governo. Ele não tem muita chance, quem vai ganhar no Rio será provavelmente o Conde. Mas o Ronaldo defende o governo, me defende, tem sido um bom amigo”. Ronaldo Cezar Coelho é o banqueiro investigado pela Operação Lava Jato por ter “lavado” 23 milhões de reais para o senador José Serra, do PSDB. Era ou é mesmo um “bom amigo” do tucanato.

Ovídio de Ângelis

Com Ovídio de Ângelis, secretário de Políticas Regionais, Fernando Henrique discute ações para combater a seca. Em julho de 1999, numa conversa com Aloysio Nunes Ferreira, Pimenta da Veiga e Pedro Parente, o presidente discute “o que fazer com o Ovídio”. “O PT denunciou que o ex-secretário de Políticas Regionais favorecera aliados políticos em Goiás, na última semana de sua gestão, com a liberação de R$ 32 milhões para prefeituras do PMDB, quase o dobro do valor destinado ao resto do país no mesmo período”, informa uma nota de rodapé. Há informações de que era uma maneira de o PMDB manter uma espécie de governo paralelo em Goiás, com o objetivo de combater o jovem governador Marconi Perillo. “Chegamos à conclusão de que eu precisava chamá-lo [Ovídio] e mandá-lo ir à Câmara [dos Deputados] se explicar. O que é mais complicado é a substituição do Ovídio. O Moreira Franco quer o lugar, mas o PMDB não o apoia. Há resistências no Rio, e em Goiás não há outro que possa substituir o Ovídio. Pelo menos o nome que eu tinha sugerido, Carlos Peixoto, está muito longe dessas atividades hoje.” É provável que “Carlos” Peixoto seja o economista Flávio Peixoto, que havia sido ministro do governo Sarney? A impressão que se tem — e pode ser apenas impressão — é que, ao PMDB, faltavam quadros qualificados.

Em agosto de 1999, Ovídio de Ângelis aparece noutra pasta, de Políticas Urbanas. FHC escreve no “Diário”: “Estou preocupado com o problema habitacional, o novo secretário, Ovídio, vai custar até entender as coisas, e isso pode prejudicar o andamento dos nossos planos”. O presidente sugere ter pouco entusiasmo com o auxiliar.

Se Ovídio de Ângelis é tratado com certo menoscabo, o município de Alto Paraíso é agraciado com um elogio. “Fui a Alto Paraíso [em 18 de julho de 1999], norte de Goiás, encontrar a Ruth e os netos. Foi muito bom, fomos a uma cachoeira lá perto, tomei banho de cachoeira, me diverti, voltei para casa sem nenhum problema.” Único senão: Alto Paraíso fica no Nordeste de Goiás, portanto muito longe do Norte.

Ronaldo Caiado e Lúcia Vânia

Integrantes do MST invadiram a fazenda Córrego da Ponte (em Minas Gerais), de Fernando Henrique, em setembro de 2000, e o ministro do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim autorizou a permanência do Exército no local. “O Reginaldo de Castro, presidente da OAB, afirmou: ‘Isso é um absurdo, somos todos iguais perante a lei’. Sim, mas nem todos são presidentes da República, nem todos precisam ter a autoridade resguardada. Realmente isso mostra uma falta de compreensão que me assusta”. Noutra anotação, FHC diz: “O MST não quer que os assentados deixem de ser tutelados pelo Estado, quer que o governo financie a agricultura familiar, porque isso mantém a clientela rural deles, e a Igreja [Católica] vai nessa onda. O Reginaldo de Castro, presidente da OAB, fez um discurso demagógico, atrapalhou tudo”.

O “Diário” registra um encontro com um líder político de Goiás: “À noite, recebi o Ronaldo Caiado com o Heráclito [Fortes], vice-presidente da Câmara, simplesmente para evitar que o Ronaldo fique muito solto, porque o Heráclito acha isso importante. Vê-se que o clima efetivamente melhorou”.

Fernando Henrique diz que, em novembro de 1999, ouviu “música de Goiás do século passado”. Não diz qual. Ou quais.

Numa viagem ao Tocantins, em maio de 2000, Fernando Henrique é recebido pelo governador Siqueira Campos. “O Siqueira Campos sabe organizar as coisas, nada de manifestações de grupelhos contra, e além disso, na praça, um enorme retrato de um antepassado meu, no dizer dele, o homem que procurou tornar [o] Tocantins independente em 1822. Chama-se Felipe Cardoso.” Uma nota de pé de página esclarece: “Referência ao movimento autonomista de São João da Palma (1821-3), que tentou desmembrar a região setentrional da província de Goiás”. Não deixa de ser curiosa a irritação contra protestos populares, organizados ou não. O governador Siqueira Campos, na ditadura, havia sido aliado do general da linha dura Sylvio Frota, ministro do Exército, que planejou derrubar o presidente Ernesto Geisel, porque este pregava a distensão e, em seguida, a abertura (Geisel, que não era nenhum Castello Branco — Costa e Silva “gritou” e ele “cedeu” o poder —, exonerou Frota). Uma boa companhia para um democrata como Fernando Henrique.

Sobre a senadora Lúcia Vânia (na época no PSDB, agora no PSB), em 2000 era candidata a prefeita de Goiânia, Fernando Henrique indica que estava bem informado e assinala que não seria fácil elegê-la. O eleito, de fato, foi Pedro Wilson (mencionado uma vez), do PT.
Em maio, o presidente descansa em Pirenópolis, na casa do diplomata Sérgio Amaral. “Uma coisa meramente festiva, passamos um dia muito agradável.” Ao voltar para Brasília, falou com Eliseu Padilha, o ministro do presidente Michel Temer investigado pela Lava Jato. Os aliados políticos de Fernando Henrique eram, a rigor, os mesmos de Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer. A diferença é que o tucano talvez tenha sido mais estadista do que os petistas. “Talvez” é a palavra capital. Dada a passionalidade, a pressão das circunstâncias, ainda não é possível avaliar os governos e os indivíduos FHC, Lula da Silva e Dilma Rousseff com o devido distanciamento e objetividade. O momento é impaciente. A história é a mãe da paciência. l

 

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