Fernando Py traduziu sozinho a maior catedral literária francesa. Tarefa de Hércules

Para traduzir Proust, se não for poeta, o sujeito dever ser um dos de sua estirpe, ou pelo menos ter apreço e conhecimento íntimo com o ofício

Carlos Augusto Silva

Fernando Py: quando alguém como o poeta e tradutor encerra a sua jornada, fica a sensação de que, se houve, nele, tempo perdido, esse tempo está, como em nosso Proust, mais do que redimido: recuperado, reencontrado | Foto: Reprodução

Fernando Py, o tradutor de “À la recherche du temps perdu”, “Jean Santeuil” e outros livros da lavra do escritor francês Marcel Proust (1871-1922 — viveu 51 anos), faleceu no dia 21 de maio de 2020. Um mês tristemente marcado por baixas duras na nossa cultura, vida intelectual e criativa. Seja na música, em letras de músicas que se firmam e afirmam, sem pudor, como poesia; em guitarras revolucionárias, ou em um gesto heroico, solitário, bravo e, para muitos à época, de utilidade questionável.

Não se sabe muito sobre a vida de Fernando Py, a não ser que, além de tradutor, era poeta, crítico literário e professor. Não um poeta da altura daqueles (Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mario Quintana) que versaram a obra de Proust para o português pela primeira vez, mas ainda assim um poeta. Para traduzir Proust, se não for poeta, o sujeito dever ser um dos de sua estirpe, ou pelo menos ter apreço e conhecimento íntimo com o ofício.

O fato é que pouco ou quase nada se precisa dizer sobre Fernando Antônio Py de Mello e Silva, além de ter sido o tradutor solitário de “Em Busca do Tempo Perdido”. Para além das questiúnculas envolvendo se era esse melhor, igual ou de menor qualidade que a turma da Editora Globo, o fato é que termos, no Brasil, uma tradução de um romance desta natureza levada a cabo por um homem só, algo por demais auspicioso.

A tradução é uma criação. A crítica também é. O ensaio, mais ainda. Fernando Py, portanto, é um criador de mundos, e não de qualquer mundo, o mundo de ninguém mais, ninguém menos, do que Marcel Proust.

Na tradução da Editora Globo, até a revisão feita neste último lançamento com o slogan nada modesto de “Proust definitivo” (ainda restaram erros, sem importância mas falhas, no livro “No Caminho de Swann”: “cosa”, em vez “casa”, na página 245, e “trata-la-ias”, na página 385, e “vicio”, na página 432, saíram sem acentos), quem quisesse conhecer “Em Busca do Tempo Perdido” em português precisaria ler a versão de Fernando Py. Talvez tenha sido essa a sua motivação.

Marcel Proust: um dos mais importantes escritores franceses | Foto: Reprodução

A edição traduzida pela Editora Globo foi baseada na da Bibliothèque de la Pléiade, em três volumes, cujo projeto foi finalizado em 1948. Essa edição de 1948 tem como base a edição em 16 volumes de 1927. Claro, foi melhorada. O escritor irlandês Samuel Beckett, quando escreve seu livro sobre Proust, chama a edição de 1927 de “abominável”.

Por mais que estivesse melhorada, ainda não teria se beneficiado da festa para os críticos genéticos que se debruçaram — e se debruçam — sobre os manuscritos de Proust, sobre os cadernos que este deixou com inúmeros acréscimos, cortes, desenhos e colagens feitos cuidadosamente por sua governanta e anjo protetor, Céleste Albaret.

A história da edição de “Em Busca do Tempo Perdido” pode ser um pouco conhecida pelo livro de memórias de Céleste, “Senhor Proust”, afetuoso e coerente relato de uma governanta que tinha em seu patrão um ícone de todos os valores que perfaziam um cavalheiro, e também nas correspondências de Proust e o editor Gaston Gallimard, organizada por João Alexandre Barbosa, publicada pela EDUSP. Nessas cartas vemos um processo caótico de vistas de provas, correções, pagamentos extras e uma preocupação não menos digna de acompanhar o autor de tal obra: o tempo para concluí-la.

Trecho de Jean Santeuil, na tradução de Fernando Py

Proust termina, mas de fato não conclui.

Esse cenário de confusões entre versões do que seria o texto definitivo de um romance genial e ao mesmo tempo inacabado e que encontra, em seu inacabamento, talvez acidentalmente, um traço de estilo e engenharia, fez com que a mesma Bibliothèque de la Pléiade, de 1984 a 1989, debruçasse-se, em esforço hercúleo, na publicação de uma “Recherche…” definitiva.

A de 1948 tem três volumes. A de 1989 tem 4 volumes, e cada um deles é substanciosamente maior do que os três da primeira. A fartura de informações é de encher as vistas do pesquisador proustiano. Trata-se não apenas de um Proust definitivo, trata-se de verdadeira edição crítica. Mais crítica do que definitiva, a história nos mostrou.

Coisas de Proust: com o trabalho já praticamente feito, Nathalie Mauriac traz a público a derradeira datilografia de Proust antes de morrer, alterando sobremaneira o sexto volume, pela primeira vez chamado de “A Fugitiva”, depois de “Albertine Desaparecida”.

Não se tratava apenas de mudar um texto pelo outro. A questão era bem mais complexa, e por isso a Bibliothèque de la Pléiade fez vistas grossas à descoberta de Mauriac, que publicou o livro “definitivo” pela Grasset. Mais uma curiosidade do destino: a mesma Grasset que publicou o primeiro volume da “Busca…” depois da NRF ter se recusado, com um “não” do qual André Gide, do corpo editorial, iria se arrepender para sempre.

Para todos os efeitos, o Proust definitivo é mesmo o de 4 tomos, publicado pela Bibliothèque de la Pléiade. Vale ler a versão de Mauriac — de fato um livro mais conciso, bem acabado e com uma espinha dorsal evidente. Também está traduzido no Brasil, por outro gigante: Ivan Junqueira. Proust — ou o destino — não economizou om os tradutores de Proust no Brasil.

Trecho de “No Caminho de Swann”, na tradução de Mario Quintana

Coerência de escolas e ritmos

Fernando Py traduziu esse Proust definitivo de 1989 sozinho, e isso tem uma implicação altamente saudável. Vemos um estilo único, uma coerência de escolhas e de ritmos, concordemos ou não com essas escolhas. Para se ter uma comparação, a honra é a mesma que temos com as traduções de Shakespeare feitas integralmente por Barbara Heliodora e por Carlos Alberto Nunes: ela, para o teatro, não tem rival. Ele, para a leitura, distancia-se de Heliodora em milhas e milhas. Mas ambos são valiosos e devemos muito a ambos. O caso é o mesmo aqui, no que se trata da equipe da Editora Globo e de Fernando Py.

A impressão que temos é a de que, caso se queira ler Proust para se deleitar, não tenha dúvidas: a da Editora Globo, com Mario Quintana, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Lúcia Miguel Pereira é imbatível e impossível de ter rival, a não ser, claro, com o próprio Proust. Mas se quiser ter uma versão mais fiel ao texto e sua literalidade, pode optar pela de Fernando Py. O crítico Álvaro Lins, em “A Técnica do Tomance em Marcel Proust”, demonstra que, para se ler Proust integralmente, é preciso ler duas vezes seguidas para se apreender a sua engenharia. O leitor brasileiro tem esse privilégio de poder fazer esse círculo conhecendo duas versões.

Os leitores portugueses também tem esse privilégio, adquirido recentemente. Por alguns anos circulou em Portugal, pela Publicações Europa-América, a primeira tradução brasileira, até que a lusitana Maria Gabriela Bragança fez a sua versão, parecidíssima, parecidíssima mesmo, mas muito parecida demais, se é que me entendem, com a dos brasileiros, com algumas modificações típicas da cultura de Portugal, como por exemplo a maneira peculiar de fracionar as horas em diálogos informais. Já a tradução de Pedro Tamem, a última em língua portuguesa, tem os mesmos méritos da fidelidade de Fernando Py, mas é mais literária, sonora e bonita que a do brasileiro. Encontra saídas fiéis ao texto e muito originais. Vale por demais sua prazerosa leitura, ainda mais vencidas as primeiras cem páginas, para nos acostumarmos com a sintaxe e prosódia portuguesas.

Fica o nosso agradecimento e homenagem para Fernando Py, que colaborou de forma colossal para o crescimento das pesquisas e divulgação a respeito de Proust no Brasil. Vale lembrar que a mais popular biografia de Proust, escrita pelo britânico George D. Painter, é também traduzida por Fernando Py.

Quando alguém assim encerra a sua jornada, fica a sensação de que, se houve, nele, tempo perdido, esse tempo está, como em nosso Proust, mais do que redimido: recuperado, reencontrado.

Carlos Augusto Silva é autor do “Dicionário Proust”. Faz doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada na USP.

Morte íntima

Por Fernando PyPara Eliane Zagury

Quatro sílabas viajam

no rumo de ninguém.

Quatro caladas mágoas

já sem uso em palavras.

Língua cortada, o eco

regressando à origem

que se presume oblíqua

anterior à linguagem.

 

A ideia segue a sílaba

em seu perecimento

mantendo-se intranquila

durante algum momento.

Sejam dias ou séculos

igual será o lamento

desse ruído — som morto

cavado na laringe.

 

Persista embora o símbolo

constante do alfabeto

os signos não reunidos

jamais na mesma sílaba

lerão palavra idêntica

a essas duas minúsculas

outrora pronunciadas

carreando emoções mágicas.

 

A morte dessas sílabas

completa a do indivíduo.

(30-05-1966/De “A Construção e a Crise, de 1969)

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