Euler de França Belém
Euler de França Belém

Fechamento da Saraiva pode atrair para Goiânia a Livraria Travessa ou a Livraria da Vila?

A Livraria Travessa abriu uma unidade em Brasília, com excelente acervo e está vendendo bem. A Livraria da Vila abre sua unidade na capital do país em 2022

Quando uma livraria fecha as portas (das luzes), Deus (e até Zeus) certamente derrama uma lágrima. Porque o mundo ficará menos espiritualizado.

A direção da Livraria Saraiva fechou uma unidade de Goiânia — a do shopping Flamboyant.

As duas livrarias faziam dó (a do Passeio das Águas ainda está aberta). Nas estantes, às vezes repletas de livros de baixa qualidade, faltavam obras lançadas pelas principais editoras — Companhia das Letras, Todavia, Record, 34, Nova Fronteira, Objetiva, Zahar — e por editoras menores, mas qualitativas, como Fósforo, Carambaia, Âyiné, Hedra, Relicário.

Prevaleciam os best-sellers de segunda categoria. Quando se entrava nas duas unidades, ficava-se com a impressão de que se estava visitando um cemitério — e não no Dia de Finados. As livrarias morreram, digamos, vivas.

Comecei a comprar livro na Saraiva quando funcionava no Flamboyant onde hoje está a Forever. Era ótima, com acervo decente e atendimento de primeira. Porém, recentemente, era tão difícil encontrar um “livreiro” quanto bons livros. As livrarias pareciam abandonadas. Nada mais triste.

Livraria Saraiva: adeus à capital de Goiás?| Foto: Reprodução

A recuperação judicial da Saraiva vai impedir a falência? Tudo indica que não, dada a dívida volumosa. Mas, como milhares de leitores, fico na torcida para que se recupere.

Apesar dos pesares, Goiânia ainda conta com duas livrarias de qualidade — a Leitura, no Goiânia Shopping, e a Palavrear (a minha preferida: o acervo é pequeno, mas de excelente qualidade. A livreira Natália é atentíssima), que funciona num sobrado, no Setor Leste Universitário. Há também, felizmente, os sebos, como o Opção Cultural (do craque Lúcio), o Páginas Antigas e mais alguns, na Rua 4 e na Avenida Goiás, no Centro.

Consta que, há algum tempo, alguém da Livraria Leitura teria procurado a direção do Flamboyant para saber a respeito da possibilidade de um espaço. Teria ouvido que a Saraiva estava bem, sólida — o que, claro, não era uma informação verdadeira. Há anos que a Saraiva vive como bêbada permanente — sem saída. Agora, com o fechamento, talvez a direção do shopping saia à procura de uma livraria substituta — quiçá a própria Leitura.

O ideal seria que o Flamboyant e o Passeio das Águas conquistassem uma unidade da Livraria Travessa ou uma unidade da Livraria da Vila — ambas de qualidade. Porque a concorrência contribui para melhorar e ampliar os acervos (os preços são praticamente os mesmos. Critica-se tanto monopólios, o dumping, mas muitos leitores, por causa dos preços, preferem comprar livros pela Amazon, cujo objetivo principal não é vender com preços menos elevados, e sim liquidar a concorrência).

Livraria Travessa abriu em Brasília. Livraria da Vila chega em 2022

A Livraria Travessa (do Rio de Janeiro) abriu uma unidade no shopping Casa Park, onde funcionava a Livraria Cultura, em Brasília. Ocupa um espaço menor (a parte de cima ficou para um café e a parte da parte de baixo ganhou uma adega), mas o acervo é de qualidade. Além dos livros editados no Brasil, há livros em inglês e francês. Há também livros publicados em Portugal pela Assírio & Alvim e pela Relógio D’Água (Mallarmé, Alejandra Pizarnik, Rimbaud, Paul Eliard, Walt Whitman, Kaváfis, Fernando Pessoa, Eugénio Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário Cesariny, Paul Celan). Os livros editados no país de José Cardoso Pires e Lobo Antunes são caros (na faixa de 100 a 200 reais), mas vendem bem, segundos os funcionários da livraria (que são qualificados).

Inaugurada há menos de duas semanas, a Livraria Travessa está sempre cheia e vende bem (três caixas não têm sido suficientes para a demanda, sobretudo na sexta-feira, sábado e domingo). Uma funcionária, que veio do Rio de Janeiro, disse que ficaram até surpresos com a receptividade. A funcionária, ao saber que eu e Candice, minha mulher, éramos de Goiânia, comentou: “Há muita gente de Goiás comprando livros na Travessa de Brasília”.

A Livraria da Vila vai abrir uma unidade no shopping Iguatemi, em Brasília, onde funcionava uma unidade da Livraria Cultura, em 2022.

Os dirigentes do Flamboyant e do Passeio das Águas deveriam abrir conversações com os donos das livrarias paulista e carioca — o que certamente farão ou já estão fazendo. A Leitura, a competente rede mineira, possivelmente entrará no circuito, sobretudo pela espaço do Flamboyant, o shopping mais frequentado de Goiânia.

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